Estudo inédito apresenta dose única que reduz até 62% do “colesterol ruim”; entenda
Terapia genética experimental abre caminho para uma nova era na prevenção de infartos e AVCs
Uma única aplicação intravenosa de uma terapia experimental de edição genética pode representar uma revolução no combate às doenças cardiovasculares, principal causa de morte no mundo. Isso é o que cientistas divulgaram, após resultados promissores de um estudo de fase 1 com o medicamento VERVE-102, capaz de reduzir em até 62% os níveis do colesterol LDL — conhecido como colesterol “ruim” — após apenas uma infusão.
Os resultados foram publicados no prestigiado periódico científico The New England Journal of Medicine e envolvem pacientes com hipercolesterolemia familiar heterozigótica ou doença arterial coronariana precoce. O tratamento utiliza tecnologia de edição genética para “desligar” o gene PCSK9 no fígado, reduzindo drasticamente a produção da proteína responsável pelo aumento do LDL no sangue.
Segundo os pesquisadores, a proposta é criar um tratamento potencialmente duradouro — ou até permanente — para reduzir o risco de infartos e acidentes vasculares cerebrais (AVCs).
O médico nutrólogo e intensivista Dr. José Israel Sanchez Robles avalia que o estudo representa um marco relevante para a medicina cardiovascular contemporânea. “Estamos diante de uma possibilidade extremamente inovadora. A perspectiva de controlar os níveis de LDL-colesterol de forma prolongada com uma única intervenção pode transformar a prevenção cardiovascular no futuro”, afirma.
O estudo acompanhou 35 participantes que receberam diferentes doses do VERVE-102. Na maior dose testada, os níveis da proteína PCSK9 caíram em média 88%, enquanto o colesterol LDL foi reduzido em cerca de 62%. Em alguns pacientes, os efeitos permaneceram estáveis por até 18 meses.
A tecnologia funciona por meio de nanopartículas lipídicas que transportam um RNA mensageiro e um RNA guia diretamente para o fígado. Lá, ocorre uma alteração mínima no DNA do gene PCSK9 — a troca de uma única “letra” genética — suficiente para impedir a produção da proteína associada ao colesterol elevado.
Para José Israel, o avanço pode beneficiar especialmente pacientes com baixa adesão às terapias convencionais. “Atualmente, observamos que muitos pacientes interrompem o uso de estatinas ou de terapias injetáveis devido a efeitos adversos, custos elevados ou dificuldade de adesão ao tratamento. Uma terapia de dose única teria potencial para melhorar significativamente a continuidade terapêutica”, explica.
Apesar do entusiasmo, especialistas alertam que ainda são necessários estudos maiores e acompanhamento prolongado. A agência reguladora norte-americana exige monitoramento de pacientes submetidos a terapias gênicas por até 15 anos para avaliar segurança e possíveis efeitos tardios.
Entre os efeitos observados no estudo, os eventos mais frequentes foram reações leves associadas à infusão e alterações transitórias em marcadores hepáticos. Não foram identificados sinais de toxicidade limitante de dose.
A pesquisa também reacende o debate sobre prevenção precoce das doenças cardiovasculares. Estudos anteriores já demonstraram que pessoas com variantes naturais do gene PCSK9 apresentam níveis baixos de colesterol ao longo da vida e risco significativamente menor de eventos cardíacos.
“O aspecto mais interessante é que essa estratégia busca reproduzir, por meio da edição gênica, uma condição biologicamente protetora observada naturalmente em determinados indivíduos. Isso demonstra como a medicina personalizada e a genética molecular vêm avançando de forma acelerada”, destaca o médico.
Os cientistas acreditam que a redução prolongada do LDL desde cedo pode diminuir drasticamente o risco cardiovascular ao longo das décadas. Segundo os dados apresentados, uma redução sustentada de aproximadamente 78 mg/dL no colesterol LDL poderia cortar em mais de 50% o risco de doenças cardiovasculares ateroscleróticas em pacientes de alto risco.
Ainda sem previsão de aprovação comercial, o VERVE-102 seguirá para estudos mais amplos, com aproximadamente 200 participantes. Caso os resultados sejam confirmados nas próximas fases, a terapia poderá inaugurar uma nova geração de tratamentos cardiovasculares baseados em edição gênica.
“É importante destacar que ainda se trata de uma terapia em fase experimental. No entanto, os resultados iniciais são promissores e apontam para um possível futuro em que a prevenção cardiovascular será mais eficiente, personalizada e duradoura”, conclui José Israel.