Getúlio de novo porque Getúlio é sempre novo

Por Maycon Dougllas, doutorando em História Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP

Getúlio de novo porque Getúlio é sempre novo. A frase, dita pela historiadora Ângela de Castro Gomes durante o lançamento do livro O segundo governo Vargas: história e historiografia (Editora Cancioneiro, 2025), organizado por mim, condensa de maneira precisa uma inquietação que atravessa gerações de pesquisadores. Não se trata apenas de uma constatação sobre a permanência de um personagem histórico, mas de um problema mais amplo: por que Vargas continua a nos interpelar? Por que, a cada novo momento, sentimos a necessidade de revisitá-lo, reinterpretá-lo, reescrevê-lo?
A resposta, em alguma medida, desloca o eixo da questão. Talvez não seja Vargas que retorna, mas o presente que continuamente o convoca. Ao longo do tempo, diferentes “Getúlios” foram sendo construídos: o líder da Revolução de 1930, o ditador do Estado Novo, o presidente eleito em 1950, o personagem trágico de 1954, e mesmo aquele Vargas menos lembrado, anterior a 1930, ainda em formação. Cada um desses retratos não diz apenas sobre o passado que nós, pesquisadores sobre o tema, buscamos representar, mas também sobre as demandas, angústias e disputas do tempo em que são elaborados.

No ano de 2010, o Congresso Nacional aprovou um projeto de lei que inscreve o nome de Getúlio Dornelles Vargas no chamado Livro dos Heróis da Pátria, depositado no Panteão da Liberdade e da Democracia, em Brasília. À primeira vista, trata-se de mais uma homenagem institucional. No entanto, um olhar mais atento sobre a justificativa do projeto revela algo mais profundo: a ideia de que a identidade nacional se constrói também por meio da consagração de certos personagens históricos, capazes de condensar valores, experiências e sentidos de pertencimento coletivo. Não se trata, portanto, apenas de registrar um nome, mas de fixar uma memória e atualizar, no presente, determinadas leituras sobre o passado.

Nesse movimento, o documento mobiliza uma forma bastante específica de narrar a trajetória de Vargas. Ao recorrer à noção de “Era Vargas”, por exemplo, ele produz uma síntese que transforma uma experiência histórica marcada por rupturas e inflexões em um ciclo coerente e contínuo. Ao destacar sua associação a forças progressistas e seu papel na Revolução de 1930, reafirma uma imagem já consolidada: a de um agente de transformação, vinculado à superação de um Brasil arcaico e oligárquico. Mesmo quando reconhece o caráter autoritário do Estado Novo, a narrativa rapidamente se reorganiza em torno de seus efeitos modernizadores, deslocando o foco para a construção institucional e, sobretudo, para a legislação trabalhista.

Por fim, ganha centralidade uma oposição bastante conhecida: a de um Brasil moderno, urbano-industrial, em contraste com um passado rural. Essa dicotomia, longe de ser neutra, retoma elementos do próprio repertório discursivo do período varguista e os reinscreve no presente. O que esse gesto evidencia é que Vargas não é apenas lembrado: sua imagem é reorganizada a partir de enquadramentos que buscam estabilizar sentidos, ainda que à custa das tensões que atravessam sua trajetória.

Essa lógica de reinscrição da figura de Vargas não se limita aos dispositivos institucionais. Ela também se manifesta de forma expressiva no campo da cultura. Um exemplo significativo é o filme Getúlio (2014), lançado no contexto dos 60 anos de sua morte. A própria temporalidade de sua estreia, somada ao fato de ter chegado ao público no mês de maio, historicamente associado ao trabalhador, sugere que não se trata de uma obra neutra, mas de uma produção que dialoga diretamente com camadas específicas da memória política brasileira.

Ao se concentrar nas últimas semanas do governo, em meio à crise que culmina no atentado da Rua Tonelero e no suicídio de Vargas, o filme não apenas reconstitui um episódio histórico, mas propõe uma forma particular de interpretá-lo. Mais do que enfatizar a ação política em sentido estrito, a narrativa tende a deslocar o foco para um Vargas progressivamente tensionado pelas circunstâncias, capturado por forças que parecem ultrapassá-lo.

Nesse sentido, assim como no documento legislativo anteriormente mencionado, o que se observa é menos a negação das tensões e mais a sua reconfiguração. Trata-se de produzir uma narrativa capaz de atribuir coerência a uma trajetória marcada por conflitos, ainda que isso implique a reorganização de seus sentidos. É nesse ponto que a aproximação com a noção de “lugares de memória”, formulada por Pierre Nora, se torna particularmente produtiva. Tanto a homenagem oficial quanto a representação cinematográfica operam como dispositivos de atualização do passado, reescrevendo Vargas a partir das demandas do presente.

Talvez seja justamente por isso que, em momentos de incerteza política, Vargas volte a ocupar o centro do debate público. Em um cenário marcado por disputas intensas, revisões de projetos nacionais e reconfigurações das relações entre Estado, economia e sociedade, sua figura reaparece, não como uma resposta pronta, mas como um repertório de questões ainda em aberto. Não é casual que, em um país que volta a discutir o papel do Estado, a centralidade do trabalho e os limites da democracia, ecos varguistas ressurjam também na comparação com lideranças contemporâneas, como a de Luiz Inácio Lula da Silva. Mais do que analogias fáceis, o que está em jogo é a persistência de certos dilemas históricos. Nesse sentido, revisitar Vargas e, sobretudo, reconhecer as múltiplas formas pelas quais ele continua sendo narrado, talvez seja menos um exercício de retorno ao passado e mais uma forma de interrogar o nosso difícil presente. jornal.usp.br