Investigações podem aumentar incerteza eleitoral e pressionar favoritismo de Lula em 2026, diz analista

O avanço de investigações com potencial de atingir diferentes setores da política brasileira pode ampliar a incerteza no cenário eleitoral de 2026 e pressionar o favoritismo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A avaliação é do cientista político Silvio Cascione, diretor da consultoria Eurasia Group e mestre em ciência política pela Universidade de Brasília.

Em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, Cascione afirma que a intensificação de apurações recentes pode alterar o ambiente político ao deslocar o debate público da economia para temas ligados à corrupção e a escândalos políticos.

Segundo o analista, o mês de março costuma ser um período decisivo em anos eleitorais, quando ocorrem mudanças partidárias e definições de candidaturas. “Em ano eleitoral, março é um período de intensa atividade política. É o último mês para trocas partidárias e para que futuros candidatos renunciem aos seus cargos no governo”, escreveu.

Investigações dominam o noticiário

De acordo com Cascione, o noticiário político recente tem sido marcado por investigações que podem alterar o equilíbrio da disputa eleitoral. Entre os episódios mencionados estão a quebra de sigilo bancário de Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, e a prisão do banqueiro Daniel Vorcaro.

Para o cientista político, esses fatos aumentam as chances de que investigações envolvendo o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e o Banco Master ganhem maior peso no debate político. Ele também cita a Operação Carbono Oculto, que apura possíveis conexões entre política e crime organizado.

Segundo Cascione, diferentes investigações em andamento têm potencial para atingir atores de vários campos políticos e institucionais. “Figuras do governo, da oposição e do Judiciário têm sido implicadas, e cada um desses lados tem muito a perder com a investida da Polícia Federal e de órgãos de controle”, afirmou.

Risco político maior para quem está no poder

Na avaliação do analista, embora as apurações possam afetar diversos grupos políticos, o impacto tende a ser mais sensível para quem ocupa o governo. Cascione observa que decisões do ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça podem permitir maior avanço das investigações relacionadas ao Banco Master, o que ampliaria a pressão política no período pré-eleitoral.

Segundo ele, o fortalecimento dessas apurações representa um risco maior para o presidente Lula do que para a oposição.

Popularidade ainda sustenta vantagem eleitoral

Apesar dos riscos políticos apontados, Cascione avalia que Lula ainda aparece como favorito no cenário atual. O analista cita dados da Ipsos Public Affairs que indicam que governantes com níveis de aprovação superiores a 40% costumam ser reeleitos na maior parte das eleições analisadas.

De acordo com o cientista político, o presidente mantém uma taxa média de aprovação em torno de 45%, sustentada principalmente pelo desempenho recente da economia. No entanto, ele ressalta que escândalos e investigações podem mudar o foco do debate político.

“É mais difícil manter o foco dos eleitores em boas notícias quando histórias de corrupção começam a dominar o noticiário”, escreveu.

Caso envolvendo Lulinha pode gerar desgaste

Cascione também afirma que o caso envolvendo Lulinha pode gerar constrangimentos políticos para o governo, já que obrigaria o presidente a responder sobre o tema durante a disputa eleitoral.

Segundo ele, a situação pode desviar a atenção de pautas que o governo pretende destacar na campanha, como políticas de valorização do salário mínimo, mudanças no imposto de renda e propostas de redução da jornada de trabalho.

Por outro lado, o analista avalia que a campanha de Lula também deve explorar episódios envolvendo aliados da oposição. Entre eles, possíveis conexões do senador Flávio Bolsonaro com o Banco Master.

Eleição pode depender de eleitores não alinhados

O cientista político destaca ainda que a eleição de 2026 pode ser decidida por um grupo relativamente pequeno de eleitores que não se identificam fortemente com os principais polos políticos do país.

Segundo Cascione, esse eleitorado não é majoritariamente ligado nem ao campo petista nem ao bolsonarista e, em muitos casos, demonstra baixo engajamento político. Na ausência de uma terceira candidatura competitiva, escândalos e investigações podem influenciar esse grupo de forma mais significativa.

Escândalos nem sempre impedem vitória eleitoral

Ao final do artigo, Cascione lembra que escândalos políticos nem sempre impedem a vitória de governantes em eleições. Como exemplo, cita a reeleição de Dilma Rousseff em 2014, em meio ao ambiente de crise política que incluiu os protestos de 2013 e o avanço da Operação Lava Jato.

Ainda assim, o analista ressalta que o impacto das investigações no cenário eleitoral dependerá dos desdobramentos nos próximos meses.

Segundo ele, caso os escândalos passem a dominar o debate público e substituam temas econômicos na agenda política, o atual favoritismo de Lula pode ser reduzido na disputa presidencial de 2026.