O caminho que se faz ao andar: notas de uma experiência inter-religiosa

Por Josué Carlos Souza dos Santos, doutorando na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP

Era novembro de 2019 quando fui convidado por um amigo que se tornou frei franciscano a visitar seu monastério, a Fraternidade O Caminho, localizado em Vila Velha, no Espírito Santo. Essa ordem religiosa é uma Associação Pública de Fiéis de Direito Diocesano, com inspiração franciscana cujo carisma se expressa na busca por viver o evangelho cristão-católico de maneira ministerial. A vida comunitária é marcada pelos votos de pobreza e castidade, pela oração cotidiana, pela fraternidade e por um compromisso concreto com práticas de caridade e assistência social, especialmente junto a populações em situação de vulnerabilidade.
Minha vivência religiosa sempre me restringiu àquilo que eu experienciava na igreja cristã de cunho protestante, automaticamente condenando tudo que não se encaixava àquelas normas. À medida que fui crescendo e amadurecendo, passei a questionar e tensionar outras abordagens religiosas, e foi quando entendi que o espiritual transcende o institucional e reside em muitos lugares. Nas igrejas e fora delas, nos crucifixos e nos véus, nas batinas católicas e nos Vedas, os textos em sânscritos sagrados no hinduísmo, e outros tantos espaços, pessoas e experiências.

Cheguei ao monastério no início do dia carregando expectativas, curiosidade e também certa cautela, pois não sabia o que me esperava, mas trazia comigo os estereótipos de monges e freis de um aspecto sério e que raramente interagem de outras formas que não apenas sobre sua própria religião. Ledo engano!

Logo na chegada, fui acolhido com muitos abraços, sorrisos e café. Não houve formalismos excessivos, tampouco algum estranhamento: houve troca. O espaço físico do monastério refletia essa simplicidade acolhedora. A cozinha, que também é refeitório coletivo, os dormitórios organizados e a sala de oração compunham um ambiente funcional, onde os seminaristas e freis já consagrados ao ministério conviviam e compartilhavam a vida. A sala de oração, em especial, era um espaço carregado de símbolos: imagens e estátuas de muitos santos, velas, incenso queimando e uma atmosfera que convidava à interioridade e introspecção. Em alguns momentos daquele dia, o silêncio se fazia presente, sobretudo durante as práticas de oração e meditação. Em outros, o espaço era atravessado por vozes, cantos e partilhas.

A experiência vivida tem se afirmado como um campo legítimo de produção de conhecimento, especialmente nas ciências humanas. Ao deslocar o olhar da doutrina para o cotidiano, dos discursos para as práticas, torna-se possível compreender como a fé é encarnada em modos concretos de viver, conviver e agir no mundo. Como diz o poeta Antonio Machado (que dá parcialmente título a esta escrita): “Caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao andar”.

Um dos momentos mais marcantes foi quando, reunidos em grupo, cantamos juntos ao som de um violão. Enquanto partilhávamos a música, outros freis conversavam sobre futebol e outros temas cotidianos. Isso me revelava que ter uma vida religiosa não te faz alheio ao mundo ao seu redor, mas é na atenção a esses acontecimentos que o mundo sofria uma espécie de ressignificação sob o prisma da espiritualidade, seja em um campo de futebol, em um monastério ou na visita inesperada de um nômade pesquisador. É o que me recorda uma passagem do pedagogo e filósofo espanhol Jorge Larrosa, para quem a experiência é aquilo que nos acontece, que nos atravessa e nos transforma.

A música preenchia o ambiente de alegria e comunhão, rompendo qualquer estereótipo de uma vida religiosa rígida ou sisuda. Os freis conversavam, riam, compartilhavam histórias. A espiritualidade ali não se expressava apenas em forma de negações e privações, que de fato acontecem, mas nas trilhas que compõem o cotidiano, nos estrangeiros acolhidos, nos assuntos pessoais e coletivos que transitam o ambiente e no café que aquece o corpo e as palavras.

O almoço foi outro momento significativo. Sentamos juntos para (com)partilhar uma comida caseira, preparada por eles. Em alguns momentos, eles me escutavam com curiosidade e atenção consciente sobre minha vida, meus feitos e desfeitos. Em outros, era minha vez de praticar a escuta sensível, como aponta o educador René Barbier, nesse círculo de histórias. Esses momentos revelavam uma dimensão essencial da experiência: a fé vivida tanto no recolhimento quanto na partilha.

Tive também a oportunidade de conversar longamente com meu amigo, que me convidou para a visita. Sua trajetória me atravessou de maneira especial, pois carrega um confronto com seu passado, seus desafios do presente e as incertezas do devir. Antes estudante de antropologia e desfrutando das muitas camadas que a juventude proporcionava acessar, atualmente vivendo como frei consagrado, inserido em uma dinâmica de votos, oração, serviço e vida comunitária. Nossa conversa foi marcada pelas ressignificações que surgem dessas rupturas radicais. Pelo que ficou para trás em forma de memória e pelo que é vivido no presente, na forma de experiências. A escolha pela vida religiosa não apagou sua história anterior, mas a reorganizou em torno de um novo propósito.

Os votos de pobreza e castidade, vividos pela comunidade dos freis, apareciam como forma de negação e também compromisso. A pobreza se expressava na simplicidade das vestes — hábitos tradicionais franciscanos — e no modo de viver; a castidade se traduzia em uma forma específica de doar-se ao outro, guardando suas energias e vontades e transformando-a em outro âmbito, o religioso. Não se trata de romantizar essas práticas, pois entendo que a condição humana é palco de vontades e necessidades que urgem serem satisfeitas. No entanto, é no cotidiano, nos erros e acertos, que a vida vai se transformando e reafirmando as possibilidades e continuidades.

Ao final do dia, fui levado ao aeroporto na van com os freis. No trânsito e na chegada ao aeroporto, as pessoas olhavam com curiosidade, e os freis, acostumados com o tratamento dado, sorriam em conjunto. A experiência que permanece em mim é de movimento: uma vida exigente, sim, mas atravessada por alegria, companheirismo, risadas e sentidos, uma experiência que se inscreve no cotidiano, nos seus corpos marcados pelo sacrifício de uma vida peculiar e intersticial, nos afetos, nas práticas e nos sentidos produzidos na convivência.

Viver essa experiência me levou a refletir sobre o tempo histórico em que estamos inseridos. No Brasil contemporâneo, a religião tem se tornado, cada vez mais, um espaço de polarizações políticas, disputas morais e conflitos de valores, que mais afasta e segrega do que convida. Em muitos contextos, a dimensão espiritual foi sendo esvaziada, substituída por discursos de poder, controle e exclusão.

Compreendo-a como uma experiência densa de significados, no sentido proposto pelo antropólogo Clifford Geertz, em que o pesquisador etnógrafo convive com as pessoas em suas pesquisas, no local onde constituem seus mundos de vida, adentrando o profundo de suas vivências, isto é, os gestos cotidianos, os rituais, os espaços e as relações que produzem sentidos, descrevendo-as densamente.

Com a Fraternidade O Caminho, e sobretudo com o exemplo de meu amigo, aprendi que ao manter-se fiel ao seu carisma, à vida simples, ao serviço aos mais vulneráveis e à espiritualidade vivida no cotidiano, a comunidade reafirma a religião como espaço de sentido, cuidado e transformação, uma experiência contracorrente em um mundo deviante. Não se trata de negar os conflitos do mundo contemporâneo, mas de responder a eles com práticas sobre si, isto é, a oração, meditação, leitura e práticas de escrituras sagradas e discipulado, e sobre o outro, com práticas concretas de empatia, altruísmo e doação. jornal.usp.br