“Rome Nutrition Week 2026”: da evidência à decisão em nutrição e sistemas alimentares

Por Ana Luiza Gomes Domingos, pesquisadora do INCT Combate à Fome* e do Sustentarea, da Faculdade de Saúde Pública da USP

Durante a Rome Nutrition Week (RNW26), realizada entre 25 e 28 de maio na sede da FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura), em Roma, uma ideia atravessou os debates: sabemos muito sobre fome e má nutrição, mas transformamos pouco desse conhecimento em decisão. É esse hiato entre evidência e ação que continua a limitar o avanço da agenda nutricional global.
Sob o tema Moldando o Futuro da Ação Nutricional Conjunta em um Mundo em Mudança, a terceira edição do RNW26 reuniu presencial e virtualmente atores de diferentes setores para discutir caminhos práticos de coordenação, financiamento e cooperação interagencial. Ao longo de quatro dias, o encontro abordou, de forma articulada, evidências e inovação para a transformação dos sistemas agroalimentares, o alinhamento dos fluxos de financiamento para integrar a nutrição às agendas de investimento, o papel das soluções alimentares locais e a necessidade de atuar como um só sistema, em arranjos multinível e multissetoriais capazes de gerar progresso mensurável em direção aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e às Metas Globais de Nutrição.

O primeiro dia destacou que dados robustos são condição para políticas mais eficazes. Pesquisa de ponta, inovação tecnológica e informação qualificada foram apresentados como base para compreender as relações entre dietas saudáveis, equidade, resiliência climática e saúde planetária, antecipar trade-offs e identificar soluções com cobenefícios entre setores. Não por acaso, ecoou ao longo da semana a constatação de que “temos as informações, mas não temos os dados”.

Ferramentas como o Cost and Affordability of a Healthy Diet (CoAHD) e o Policy Optimization Tool (PolOpT) mostram por que essa lacuna importa. O CoAHD quantifica o custo e a acessibilidade de dietas saudáveis a partir de preços observados e distribuições de renda, oferecendo um retrato operacional do acesso à alimentação adequada. Já o PolOpT apoia governos na otimização do gasto público em políticas agroalimentares, analisando despesas existentes e identificando alocações mais eficazes para alcançar resultados socioeconômicos e ambientais dentro das restrições fiscais reais de cada país. A FAO avançou ainda no Food Systems-Based Dietary Guidelines (FSBDG), diretrizes que conectam saúde, sustentabilidade e equidade em uma abordagem sistêmica.

A mensagem recorrente no evento foi que um único indicador não basta. É preciso combinar métricas, monitorar a inflação de alimentos e romper os silos entre agências, disciplinas e níveis de governo. Esse mesmo princípio vale para a academia e os centros de pesquisa: problemas complexos exigem combinações de expertise, não soluções isoladas. É justamente essa lógica que orienta redes como o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Combate à Fome (INCT Combate à Fome), que articula pesquisadores de diferentes áreas em torno de uma agenda comum.

O Brasil esteve presente no RNW26 não apenas como exemplo de políticas públicas, mas como produtor de metodologia. O Programa Nacional de Alimentação Escolar foi citado em sessão dedicada à alimentação escolar inclusiva, diversificada e local, que contou com a presença da primeira-dama Rosângela (Janja) Lula da Silva e da presidente do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, Fernanda Pacobahyba. Também ganharam destaque o Guia Alimentar para a População Brasileira e a Estratégia Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional nas Cidades – Alimenta Cidades.

Ao participar das discussões, lembrei de duas referências brasileiras desenvolvidas por membros do INCT Combate à Fome que ajudam a transformar esse debate em método. O Índice Multidimensional de Sistemas Alimentares Sustentáveis Revisado para o Brasil (MISFS-R) avalia a sustentabilidade dos sistemas alimentares em 26 estados e capitais a partir de 46 indicadores, nas dimensões social, nutricional, ambiental e econômica. Já o Multidimensional Food Insecurity Index (MUFII) propõe 12 indicadores alinhados aos ODS para quantificar a insegurança alimentar de forma sistêmica nos 27 estados brasileiros em 2018 e 2022, mostrando piora generalizada no período, especialmente no Norte e Nordeste. Ao expandir o diagnóstico da fome para além de métricas unidimensionais, oferece uma estrutura replicável para monitorar a insegurança alimentar e identificar prioridades de política em diferentes contextos nacionais.

Não basta saber que a má nutrição persiste. É preciso ter sistemas capazes de indicar onde agir e com quais instrumentos. As iniciativas brasileiras que apontam nessa direção mostram que o País pode contribuir justamente com isso: transformar evidência em ferramenta de decisão.

* Membro do INCT Combate à Fome: estratégias e políticas públicas para a realização do direito humano à alimentação adequada – Abordagem transdisciplinar de sistemas alimentares com apoio de inteligência artificial
E-mail INCT – inctcombatefome@usp.br

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