Silêncio de Luiz Estêvão era essencial para o crime perfeito de Daniel Vorcaro: a venda do Master para o BRB

Sem uma cobertura crítica ou aprofundada do Metrópoles, o plano do golpe financeiro avançou, com a opinião pública do Distrito Federal desinformada

Por: Joaquim de Carvalho

O Estadão revelou que o Banco Master destinou R$ 27,2 milhões ao Metrópoles entre 2024 e 2025, um dado que, por si só, já desloca a discussão do campo comercial para o campo político, financeiro e, sobretudo, da manipulação de informações. São valores muito acima dos praticados pelo mercado e das receitas do próprio veículo de comunicação.

A partir dessa revelação, detectada pelo Coaf, o que se mostra é mais do que uma relação de patrocínio: é um arranjo em que dinheiro, influência e controle narrativo podem ter operado em sintonia num momento decisivo, a tentativa de venda do banco ao BRB.

No centro desse processo estão o banqueiro Daniel Vorcaro e o ex-senador Luiz Estevão. A hipótese que emerge é que o silêncio, mais do que a ação, pode ter sido o principal ativo estratégico.

Fundado em Brasília e controlado pela família de Luiz Estevão, o Metrópoles rapidamente deixou de ser um veículo regional para se tornar um site de repercussão nacional.

Hoje, é o veículo de notícias mais acessado do Distrito Federal e um dos maiores do país, com enorme penetração entre leitores da capital. Isso significa que grande parte da opinião pública brasiliense — incluindo eleitores, servidores públicos e tomadores de decisão — passa, direta ou indiretamente, por sua linha editorial.

Esse alcance não é apenas um indicador de sucesso empresarial. É um instrumento de poder.

Em uma cidade onde política e administração pública se entrelaçam diariamente, controlar ou influenciar o principal fluxo de informação local equivale a ocupar uma posição estratégica no debate público.

Os R$ 27,2 milhões transferidos ao Metrópoles, classificados como “inusitados” pelo Coaf, ganham outra dimensão diante desse contexto.

Não se trata apenas de financiar transmissões esportivas de baixa atratividade. Trata-se, potencialmente, de estabelecer uma relação com o principal vetor de informação de uma região diretamente impactada por uma operação sensível.

O timing é revelador: os repasses se intensificam justamente quando o Banco Master enfrentava investigações, buscava viabilizar sua venda e caminhava para o colapso. Alertas da Caixa Econômica Federal apontam movimentações incompatíveis com o faturamento, valores atípicos e circulação acelerada de recursos. São elementos que, embora não provem irregularidade, indicam necessidade de investigação.

Se o Metrópoles é o principal formador de opinião do Distrito Federal, seu silêncio — ou a ausência de cobertura crítica — passa a ter valor econômico e político.

A hipótese plausível é direta: ao garantir um ambiente menos hostil, o Banco Master poderia aumentar as chances de viabilizar sua negociação com o BRB sem resistência significativa da opinião pública.

E aqui está o ponto crucial: o BRB é um banco público. Isso significa que qualquer operação malsucedida impacta diretamente os moradores do Distrito Federal, seja por perdas financeiras, seja por efeitos indiretos sobre crédito, investimentos e serviços.

Se uma transação potencialmente arriscada deixa de ser amplamente debatida no principal veículo de comunicação local, cria-se uma distorção grave: a sociedade que arca com os riscos pode não ter acesso pleno às informações necessárias para compreendê-los.

A defesa de Luiz Estevão — de que pode dispor livremente dos recursos — é juridicamente válida. No entanto, o ponto levantado pelo Coaf não é sobre o direito de gastar, mas sobre o percurso e a finalidade dos recursos.

Quando valores elevados entram e saem rapidamente de empresas ligadas ao mesmo grupo familiar, em um contexto sensível, a questão deixa de ser apenas legal e passa a ser estrutural: qual é a função econômica real dessas operações?

A expressão “crime perfeito”, portanto, não funciona aqui, a princípio, apenas como uma metáfora. Pode ter havido lavagem de dinheiro. É algo que a investigação da Polícia Federal não pode desprezar.

O caso envolvendo Banco Master, Metrópoles e seus protagonistas revela como dinheiro, mídia e poder podem se entrelaçar de maneira sofisticada.

Quando o principal veículo de comunicação de uma região está financeiramente conectado a um agente sob pressão, o impacto deixa de ser privado e passa a ser coletivo.

O silêncio do jornal de Luiz Estêvão também foi importante para a recondução do governador Ibaneis Rocha para o comando do Distrito Federal, depois dos atos golpistas.

A decisão de reconduzi-lo foi de Alexandre de Moraes, e seria mais difícil se houvesse uma cobertura crítica do Metrópoles.

E, nesse ponto, Luiz Estêvão se tornou protagonista, ao receber e divulgar mensagem do governador de que, no dia dos atos golpistas, ele havia tirado uma “soneca”.

Nesse contexto, em que o dono do Metrópoles e o governador que quis comprar o Master demonstram pçroximidade, o maior risco não está apenas no que foi feito, mas no que pode não ter sido dito.

Joaquim de Carvalho – Colunista do 247, foi subeditor de Veja e repórter do Jornal Nacional, entre outros veículos. Ganhou os prêmios Esso (equipe, 1992), Vladimir Herzog e Jornalismo Social (revista Imprensa).