“Direito do trabalhador é um tema inegociável para o presidente Lula”, diz Boulos

Ministro Guilherme Boulos diz que governo busca votar fim da escala 6×1 e defende jornada máxima de 40 horas semanais sem corte salarial

O ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, afirmou que o governo federal pretende levar “até o final” a proposta de reduzir a jornada de trabalho no Brasil e encerrar a escala 6×1, modelo em que o empregado trabalha seis dias e descansa apenas um. Segundo ele, a diretriz do Planalto é construir uma transição para um máximo de 5×2, com 40 horas semanais, sem redução de salário.

As declarações foram dadas por Boulos durante entrevista ao programa Bom Dia, Ministro, apresentado por Karine Melo, em transmissão do Canal GOV e da Rádio GOV (EBC), exibida também no YouTube. Ao tratar das resistências à mudança, o ministro reagiu em tom duro: “Os empresários resistem, como sempre resistiram a qualquer direito do trabalhador.”

Votação ainda no semestre e exemplo “em casa”

Boulos disse que o tema avançou nas conversas políticas e relatou reuniões recentes com o presidente da Câmara, Hugo Motta, e com o ministro Marinho, envolvendo tanto o debate sobre a escala 6×1 quanto a pauta dos trabalhadores de aplicativos. No caso da jornada, ele sinalizou uma meta temporal: “Há um avanço na discussão para que a gente vote ainda esse semestre, o fim da escala 6 por 1.”

O ministro também afirmou que o governo já adotou uma mudança semelhante dentro do Palácio do Planalto. “Por determinação do presidente Lula, já no fim do ano passado, nós acabamos com a 6 por 1 no palácio”, declarou, ao citar a reorganização da escala dos trabalhadores terceirizados, como equipes de limpeza e copa.

“Baseado em dados”: produtividade e saúde mental

Ao ser questionado sobre a substituição do 6×1, Boulos disse que a proposta defendida pelo governo é reduzir o teto atual de 44 para 40 horas semanais, sem perda salarial. “O máximo de 5 por 2, 40 horas semanais, hoje o máximo é 44 horas semanais. Nós queremos reduzir isso para 40 horas semanais sem redução de salário.”

Ele afirmou que críticas recorrentes tentam associar a redução de jornada à queda de produtividade, e respondeu dizendo que sua defesa se apoia em evidências. “Por todas essas razões, o que a gente sustenta, e baseado em dados, não é baseado no blá blá blá, baseado em dados, o que a gente sustenta é que o fim da escala 6×1 vai melhorar inclusive a produtividade do trabalho no Brasil.” Boulos ainda vinculou o 6×1 ao esgotamento físico e emocional, mencionando o aumento de diagnósticos de burnout e problemas como ansiedade, depressão e estresse.

Aplicativos: “taxa de exploração” e quatro pilares da regulação

O ministro também detalhou a agenda do governo para regulamentar o trabalho por aplicativos e disse que pretende votar o tema ainda em 2026. Ao falar das plataformas, usou termos incisivos para criticar a divisão de receitas e a ausência de proteção social. Sobre os motoristas, afirmou: “Todo o ônus tá com ele… e por essa intermediação tecnológica… eles às vezes ficam com 40, 50% de cada corrida.” E concluiu: “Isso não é taxa de retenção, isso é taxa de distorção, isso é taxa de exploração do trabalhador.”

Ao responder sobre o novo marco regulatório, Boulos listou quatro pontos que, segundo ele, são essenciais: remuneração mínima, garantia previdenciária, pontos de apoio (locais para descanso, banheiro e recarga de celular) e transparência do algoritmo. Ele também criticou a ideia de punição permanente a quem já cumpriu pena e busca recomeçar: “Podemos ter punição eterna?”, questionou, defendendo a ressocialização e a oportunidade de reconstrução da vida.

Pequenos negócios, juros e “orçamento do povo”

Questionado sobre os efeitos da mudança para pequenos e médios empresários, Boulos disse que é preciso “separar o joio do trigo” e construir modelos de transição. Na mesma resposta, direcionou críticas à taxa de juros e cobrou redução: “Já passou da hora de reduzir essa taxa de juros, porque 15% de juros, nenhum trabalhador aguenta e nenhum empresário aguenta.” O ministro ainda ironizou: “Isso só interessa para banqueiro agiota.”

Ele também apresentou o que chamou de inovação para ampliar a participação popular no destino de recursos públicos: o “orçamento do povo”. A ideia, segundo o ministro, é permitir que a população vote prioridades locais por meio de aplicativo — e até pelo WhatsApp, com autenticação. Boulos antecipou o cronograma: “Nós vamos lançar o orçamento do povo já no mês de fevereiro.”

Eleições, deep fakes e regulação das plataformas

Ao tratar da campanha de 2026 e do avanço da inteligência artificial, Boulos afirmou já ter sido alvo de desinformação e disse que as eleições viraram um “jogo de mentira”. Para ele, instituições como o TSE precisarão agir, e o país deve enfrentar o que definiu como “terra sem lei” nas redes. “É inadmissível que a internet continue sendo um espaço para se praticar crime impunemente.” E acrescentou: “Ninguém quer impedir as pessoas de falarem as coisas. A gente quer impedir as pessoas de cometer crime.”

Soberania e terras raras: crítica ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump

Na reta final, o ministro ampliou o debate para um “projeto de desenvolvimento soberano” e citou a disputa geopolítica em torno das terras raras. Ao mencionar a pressão externa, criticou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e disse que o Brasil não deve se submeter a interesses estrangeiros. “O Brasil é um país soberano. A gente não vai se curvar a quem quer que seja.”