Escritório da esposa de Moraes recebeu dez vezes mais que outras bancas do Master

Pagamentos ao escritório de Viviane Barci superam em até dez vezes outras bancas e levantam questionamentos sobre compatibilidade dos serviços

O escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, recebeu valores significativamente superiores aos pagos a outras bancas para defender o Banco Master em 2025, segundo documentos apresentados à Receita Federal pela instituição financeira e obtidos pelo jornal O Globo.

O Banco Master contratou 61 escritórios de advocacia ao longo de 2025, desembolsando um total de R$ 265 milhões em serviços jurídicos. Entre eles, o escritório Barci de Moraes concentrou a maior fatia: R$ 40,1 milhões no período, montante que representa cerca de dez vezes a média paga às demais bancas.

Os dados foram levantados com base em registros de CNPJs classificados como prestadores de “Serviços Advocatícios” na Receita Federal, conforme a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE). A análise aponta que, excluindo o escritório de Viviane Barci, os demais receberam em média R$ 3,7 milhões.

A discrepância também aparece na comparação com outros escritórios específicos. A banca Rueda Advogados Associados, ligada ao presidente do União Brasil, Antônio Rueda, recebeu cerca de R$ 1 milhão no mesmo período. Em nota, Rueda afirmou que realizou “dezenas de pareceres e centenas de reuniões, incluindo mais de 1.000 audiências, cerca de 20 mil protocolos e aproximadamente 400 acordos”.

Mesmo diante desse volume de trabalho, o escritório de Viviane Barci recebeu valores até 40 vezes maiores. Uma estimativa comparativa indica que, para justificar proporcionalmente os pagamentos, a banca teria que realizar mais de 40 mil audiências no ano, o equivalente a 109 por dia.

O contrato com o Banco Master foi firmado em 2024 e previa pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões, totalizando cerca de R$ 129 milhões ao longo de três anos.

No mês passado, o escritório afirmou, em nota, que prestou serviços como reuniões e elaboração de pareceres para a instituição financeira. No entanto, a compatibilidade entre os valores pagos e os serviços prestados passou a ser questionada no âmbito de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI).

O relator da CPI, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), declarou que os documentos obtidos reforçam as dúvidas sobre os pagamentos. “A CPI recebeu documentos que confirmaram os pagamentos realizados no ano de 2024 do Banco Master para o escritório Barci de Moraes. Em nota publicada há algum tempo o próprio escritório confirmou a existência do contrato e apresentou descritivo de serviços que foi amplamente considerado incompatível com o valor pago”, afirmou.

Procurado, o escritório Barci de Moraes não confirmou os dados divulgados e declarou que as informações seriam “incorretas e vazadas ilicitamente”, ressaltando que dados fiscais são protegidos por sigilo.

Outro ponto que ampliou a repercussão do caso envolve mensagens trocadas entre o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e o ministro Alexandre de Moraes. Segundo informações obtidas pela Polícia Federal, os dois teriam se comunicado por meio de mensagens de visualização única.

Em uma das mensagens, enviada por Vorcaro no dia de sua prisão, o banqueiro questiona: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”. O ministro teria respondido também com mensagens que não ficaram registradas no aparelho.

À época, Alexandre de Moraes negou ter recebido qualquer mensagem, classificando as informações como “ilações mentirosas”. www.brasil247.com