Quase metade dos ministros deve deixar governo para disputar eleições, e Lula aposta em “números 2” para manter entregas
Trocas previstas a partir de abril devem atingir até 22 pastas; estratégia prioriza secretários-executivos para evitar paralisia
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva caminha para uma das maiores reformulações ministeriais do atual mandato a partir de abril, quando ministros que pretendem concorrer nas eleições de 2026 precisarão se desincompatibilizar dos cargos. A estratégia definida no Palácio do Planalto é manter a máquina funcionando sem interrupções, promovendo majoritariamente os secretários-executivos — os chamados “números 2” das pastas — que, em geral, têm perfil mais técnico do que político. As informações foram publicadas pelo jornal O Globo.
A expectativa é de que quase metade da Esplanada passe por mudanças. A medida, segundo a articulação do Planalto, busca impedir que o governo perca ritmo em obras, programas e entregas, num período em que Lula pretende elevar sua popularidade para disputar a reeleição.
Em conversa com jornalistas em meados de dezembro, Lula reconheceu que a saída de auxiliares será ampla e indicou que não pretende barrar a decisão de ninguém:
“Eu sei que tem uma enxurrada de ministros que vai sair, acho que pelo menos 18. Não vou impedir ninguém de sair, vou apenas torcer”, disse o presidente.
Segundo o desenho discutido internamente, o número de desligamentos pode chegar a 22 ministros, com Lula também sinalizando que pretende conversar pessoalmente com os auxiliares que devem deixar seus postos nos próximos meses.
Haddad e Lewandowski puxam a fila — mas sem candidatura confirmada
Dois nomes aparecem como os primeiros a deixar o governo: Fernando Haddad, ministro da Fazenda, e Ricardo Lewandowski, ministro da Justiça. Nenhum dos dois, segundo o relato, pretende disputar eleição, mas ambos comunicaram a intenção de saída.
Haddad disse que já conversou com Lula sobre o tema e, dias depois, indicou que pode se despedir do cargo ainda em fevereiro. Seu plano seria colaborar com a campanha de reeleição do presidente, embora Lula já tenha afirmado publicamente que gostaria de vê-lo candidato em São Paulo — opção defendida por setores do PT, que o pressionam a disputar o governo estadual ou o Senado.
No Ministério da Fazenda, Haddad trabalha para que o comando fique com seu secretário-executivo, Dario Durigan, garantindo continuidade da política econômica.
Já Lewandowski comunicou a Lula em 23 de dezembro que considera sua missão cumprida e quer uma rotina mais tranquila perto da família. Diferentemente da Fazenda, a sucessão na Justiça permanece indefinida.
Alckmin pode sair do MDIC e abrir espaço para Márcio Elias Rosa
Outro movimento relevante envolve o vice-presidente Geraldo Alckmin, que ocupa também o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Ele teria de deixar o cargo caso dispute eleição em São Paulo — hipótese defendida por parte do PT — ou se for novamente o parceiro de chapa de Lula na campanha presidencial.
Nesse cenário, o secretário-executivo Márcio Elias Rosa, ex-procurador-geral do Ministério Público de São Paulo, aparece como possível substituto.
Mudanças no Planalto: Casa Civil, SRI e comunicação no radar
Entre as pastas instaladas no Palácio do Planalto, a reforma deve alcançar Casa Civil e Secretaria de Relações Institucionais (SRI). O ministro Rui Costa pode sair em abril para concorrer ao Senado pela Bahia, e a tendência é que o posto fique com a secretária-executiva Miriam Belchior, ex-ministra do Planejamento no governo Dilma Rousseff.
Na SRI, Gleisi Hoffmann deve tentar novo mandato pelo Paraná. O substituto ainda não está definido, mas uma das possibilidades apontadas é a promoção do secretário-executivo, o diplomata Marcelo Costa.
Há ainda a hipótese de saída de Sidônio Palmeira, ministro da Comunicação Social, caso ele assuma a coordenação do marketing da campanha de Lula à reeleição.
Lista de ministros que podem deixar o governo até abril
Fora do Planalto, o conjunto de saídas pode ser amplo e envolver ministérios centrais. Entre os nomes citados como prováveis ou possíveis candidatos estão:
Marina Silva (Meio Ambiente)
Simone Tebet (Planejamento)
Jader Filho (Cidades)
Waldez Goés (Integração Nacional)
Renan Filho (Transportes)
Silvio Costa Filho (Portos e Aeroportos)
Wolney Queiroz (Previdência)
Paulo Teixeira (Desenvolvimento Agrário)
André Fufuca (Esporte)
André de Paula (Pesca)
Macaé Evaristo (Direitos Humanos)
Sonia Guajajara (Povos Indígenas)
Anielle Franco (Igualdade Racial)
Desses, Renan Filho, do MDB, é apontado como o único com perspectiva de disputar um governo estadual: ele pretende voltar ao comando de Alagoas, que governou entre 2015 e 2022.
Outros ministros são mencionados como potenciais candidatos ao Senado, enquanto parte do grupo teria projetos de candidatura à Câmara.
Marina e Tebet: decisões ainda dependem de Lula
Entre os nomes citados, dois casos se destacam por dependerem diretamente das decisões do presidente: Marina Silva e Simone Tebet.
No caso de Marina, a discussão envolve a possibilidade de candidatura ao Senado por São Paulo. Se a estratégia não avançar, ela pode tentar renovar o mandato de deputada, com a ressalva de que talvez precise mudar de partido, diante de conflitos internos na Rede Sustentabilidade. Para substituí-la no Meio Ambiente, o nome mais forte é o do secretário-executivo João Paulo Capobianco, que tem trajetória consolidada na área ambiental e dentro da própria pasta.
Já Tebet avalia disputar o Senado pelo Mato Grosso do Sul — seu estado de origem — ou por São Paulo. A decisão deve ser tomada no primeiro semestre. A expectativa é que seu secretário-executivo, Gustavo Guimarães, com ampla experiência na área econômica, assuma o comando do Planejamento.
Infraestrutura deve seguir a “solução caseira”
A lógica de promover os “números 2” aparece com mais força nos ministérios de infraestrutura, para evitar atrasos e descontinuidade em obras.
Em Transportes, o nome citado como provável sucessor é George Santoro, ex-secretário da Fazenda de Alagoas. Em Portos e Aeroportos, a tendência é a promoção de Tomé Franca, com passagem por cargos estaduais em Pernambuco.
A avaliação no Planalto é que, em áreas com cronogramas sensíveis, trocas políticas com nomes externos poderiam gerar um período de adaptação e reduzir a capacidade de execução.
Outras saídas possíveis: França, Silveira e Camilo Santana
Além do grupo principal, também são mencionadas saídas adicionais até abril, como:
Márcio França (Empreendedorismo e Pequena Empresa), que sonha com uma candidatura em São Paulo
Alexandre Silveira (Minas e Energia), citado como possível postulante ao Senado por Minas Gerais
Camilo Santana (Educação), que pode deixar o MEC para tentar voltar ao governo do Ceará, diante da ameaça representada pela pré-candidatura de Ciro Gomes (PSDB) no cenário estadual
No caso do Ceará, Camilo é visto como um nome mais competitivo do que o atual governador Elmano de Freitas, aliado do presidente.
Troca recente no Turismo sinaliza novo método de recomposição política
Antes do fim do ano, Lula já promoveu uma mudança relevante: o Ministério do Turismo passou por troca após a saída de Celso Sabino, substituído por Gustavo Feliciano, indicado por uma parcela da bancada do União Brasil e aliado do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB).
Sabino, segundo o relato, foi expulso do União Brasil por não respeitar a decisão da legenda de deixar o governo e agora procura uma sigla para se candidatar ao Senado pelo Maranhão.
Estratégia eleitoral e continuidade administrativa
A reconfiguração planejada por Lula combina cálculo eleitoral com continuidade administrativa. Ao apostar em secretários-executivos, o Planalto tenta garantir que as entregas continuem sem sobressaltos num período decisivo, em que o governo busca reduzir ruídos, manter obras em andamento e apresentar resultados concretos.
Ao mesmo tempo, o movimento abre espaço para reposicionamentos partidários e rearranjos internos — tanto nas alianças quanto nas disputas regionais — que devem marcar o início de 2026 como um dos momentos mais sensíveis do mandato, com o governo já operando sob lógica de campanha. www.brasil247.com