Apneia do sono pode agravar perda de força muscular em pacientes com DPOC, aponta estudo
Pesquisa com 44 participantes indica que a combinação das duas doenças compromete desempenho físico e pode aumentar riscos à saúde.
A associação entre a doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e a síndrome da apneia obstrutiva do sono (SAOS) pode intensificar a perda de força muscular e reduzir a capacidade física dos pacientes. É o que mostra um estudo publicado na revista científica Scientific Reports.
A DPOC é marcada por dificuldade respiratória e limitação para atividades cotidianas. Já a apneia do sono costuma provocar roncos intensos e episódios frequentes de interrupção da respiração durante o sono, levando à sonolência ao longo do dia. Quando as duas condições ocorrem simultaneamente, os efeitos negativos sobre o organismo tendem a ser mais intensos.
Segundo a fisioterapeuta Audrey Borghi Silva, coordenadora do Laboratório de Fisioterapia Cardiopulmonar da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e autora do estudo, a DPOC não afeta apenas os pulmões. “Trata-se de uma doença sistêmica, que impacta diferentes funções do organismo. Quando associada à apneia do sono, os danos musculares se tornam mais evidentes, o que pode resultar em perda de força, maior número de hospitalizações e aumento do risco de mortalidade”, explica.
Para avaliar esses efeitos, os pesquisadores analisaram 44 pessoas, divididas em dois grupos: metade com DPOC associada à apneia do sono e metade com DPOC isolada. Os resultados mostraram diferenças claras no desempenho físico.
Um dos indicadores analisados foi a força de preensão palmar — teste utilizado para medir a força muscular. Os pacientes com as duas doenças apresentaram média de 26 quilograma-força (kgf), enquanto aqueles com apenas DPOC atingiram cerca de 30 kgf.
Outra avaliação foi o teste de caminhada de seis minutos, que mede a capacidade funcional do paciente. Os participantes com as duas condições percorreram, em média, 300 metros. Já os pacientes apenas com DPOC alcançaram cerca de 364 metros. Distâncias abaixo de 350 metros nesse teste estão associadas a maior risco de hospitalizações e mortalidade.
O estudo também investigou quais fatores da apneia do sono mais influenciam a perda de qualidade muscular. A gravidade da doença costuma ser medida pelo índice de apneia-hipopneia (IAH), que contabiliza quantas vezes a respiração é interrompida durante o sono. No entanto, os pesquisadores observaram que outro indicador teve relação ainda mais forte com a perda muscular: o índice de dessaturação de oxigênio (IDO), que mede a frequência com que o nível de oxigênio no sangue cai durante a noite.
De acordo com a pesquisadora Patrícia Faria Camargo, responsável principal pelo estudo, as quedas repetidas de oxigênio no sangue podem ter papel central nesse processo. “A hipóxia noturna intermitente pode comprometer a oxigenação dos tecidos e desencadear mecanismos como inflamação sistêmica, estresse oxidativo e alterações metabólicas musculares”, afirma.
Esses fatores também podem afetar as mitocôndrias — estruturas responsáveis por produzir energia nas células — prejudicando a contração e a regeneração muscular. Como resultado, os pacientes podem entrar em um ciclo de enfraquecimento progressivo e maior limitação funcional.
Os autores destacam que os resultados reforçam a importância de investigar distúrbios respiratórios do sono em pessoas com DPOC. O diagnóstico e tratamento adequados podem ajudar a reduzir impactos na saúde e melhorar a qualidade de vida.
Embora a DPOC não tenha cura, ela pode ser controlada com medicamentos, abandono do tabagismo e mudanças no estilo de vida, como prática regular de exercícios e alimentação equilibrada. Já no caso da apneia do sono, o tratamento mais comum envolve o uso noturno de dispositivos de pressão positiva contínua nas vias aéreas (CPAP), que mantêm as vias respiratórias abertas durante o sono.
Além disso, hábitos como evitar álcool e sedativos antes de dormir e manter uma boa higiene do sono também podem contribuir para melhorar a respiração durante a noite e reduzir os efeitos da doença.