Áreas úmidas do Cerrado podem armazenar mais carbono que florestas da Amazônia, aponta estudo
Campos úmidos e veredas do Cerrado brasileiro podem armazenar até 1.200 toneladas de carbono por hectare, volume que equivale a cerca de seis vezes o estoque médio de biomassa das florestas tropicais da Amazônia. O dado foi revelado por um estudo publicado na quinta-feira (12) na revista científica New Phytologist e liderado por pesquisadores do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (IB-Unicamp).
Segundo os cientistas, o carbono acumulado nesses solos pode permanecer armazenado por mais de 11 mil anos em média, chegando a até 20 mil anos em alguns casos. Esse processo ocorre lentamente devido à falta de oxigênio em solos saturados de água, o que reduz a decomposição da matéria orgânica.
A pesquisa também indica que essas áreas úmidas associadas ao lençol freático podem ocupar cerca de 167 mil quilômetros quadrados no Cerrado, área pelo menos seis vezes maior do que se estimava anteriormente. O território corresponde a aproximadamente 8% do bioma e 2% de todo o Brasil.
Considerado o segundo maior bioma da América do Sul, o Cerrado é a savana mais biodiversa do planeta e desempenha papel fundamental na segurança hídrica do país, contribuindo com cerca de dois terços da água que abastece grandes bacias hidrográficas, especialmente nas regiões Sul e Sudeste. O bioma também abriga os chamados olhos d’água, nascentes naturais protegidas pelo Código Florestal e classificadas como Áreas de Preservação Permanente (APPs).
As veredas — imortalizadas no romance Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa — são um tipo de turfeira, ecossistemas alagados e pantanosos que, além de armazenar carbono, também podem emitir metano, especialmente em áreas permanentemente inundadas.
Apesar de sua importância ecológica, esses ambientes ainda são pouco estudados e enfrentam crescente pressão ambiental. A expansão da agricultura, o desmatamento, a drenagem de áreas úmidas, a construção de barragens e o uso intensivo de água para irrigação podem alterar o regime hídrico dessas regiões.
Mesmo quando preservadas em fragmentos, mudanças no entorno podem reduzir o nível do lençol freático, transformando esses solos em fontes de emissão de carbono.
De acordo com a bióloga Larissa da Silveira Verona, primeira autora do estudo, recuperar o carbono perdido desses ambientes é um processo extremamente longo. “Se uma árvore de 300 anos é derrubada, é possível recuperar parte desse estoque com reflorestamento em algumas décadas. Já o carbono armazenado no solo de áreas úmidas do Cerrado levou dezenas de milhares de anos para se formar, o que torna sua recuperação praticamente impossível em escala humana”, explicou.
A pesquisa utilizou amostras de solo profundo — com até quatro metros de profundidade — coletadas em sete pontos do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. O trabalho de campo envolveu coleta em áreas alagadas e vegetação densa, com medições de dióxido de carbono e metano diretamente no solo.
Além disso, os pesquisadores combinaram sensoriamento remoto e técnicas de aprendizado de máquina para mapear essas áreas úmidas no bioma.
Os resultados também indicam que cerca de 70% das emissões anuais de dióxido de carbono e metano ocorrem durante a estação seca, quando o solo perde umidade e a matéria orgânica se decompõe mais rapidamente. Esse processo pode se intensificar com as mudanças climáticas, que tendem a aumentar a frequência de períodos quentes e secos.
Os cientistas alertam para a necessidade de ampliar a proteção dessas áreas e aprofundar o conhecimento sobre seu funcionamento ecológico. Atualmente, quase metade do Cerrado já é ocupada por atividades humanas, principalmente pastagens e agricultura, segundo dados do MapBiomas.
Para os pesquisadores, a preservação desses ambientes é essencial para manter não apenas o estoque de carbono, mas também serviços ecossistêmicos fundamentais, como a regulação da água e a manutenção da biodiversidade.