Cientista brasileira integra iniciativa internacional para ampliar mapeamento genético da África
Projeto liderado por pesquisadores africanos prevê o sequenciamento de centenas de genomas ainda pouco representados em bancos públicos e pode gerar avanços na medicina de precisão e na compreensão da diversidade genética brasileira
Apesar de ser o berço da humanidade e abrigar a maior diversidade genética do planeta, a África segue amplamente sub-representada nos grandes bancos de dados genômicos utilizados pela ciência. Essa lacuna limita o entendimento de doenças, a identificação de variantes genéticas e o desenvolvimento de tratamentos personalizados para populações de origem africana.
Para enfrentar esse desequilíbrio, um consórcio internacional liderado por cientistas africanos deu início ao projeto AGenDA (sigla em inglês para Avaliação da Diversidade Genética na África), que reúne pesquisadores de nove países do continente e parceiros de outras regiões do mundo. A iniciativa foi detalhada em um artigo publicado na revista Nature.
O Brasil participa do esforço por meio da professora Iscia Lopes-Cendes, da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM-Unicamp). Única brasileira entre os autores do artigo, a pesquisadora será responsável pelo sequenciamento de 750 amostras de DNA coletadas em Angola — um dos países contemplados na nova etapa do projeto.
A coleta das amostras e a extração do material genético em território angolano foram coordenadas por Maria Madalena Chimpolo, das universidades Katyavala Bwila e Agostinho Neto, com a colaboração do médico e professor Nasser Calumbuana, que também assina o estudo.
Segundo Lopes-Cendes, o AGenDA dá continuidade ao H3Africa (Human Heredity and Health in Africa), iniciativa lançada há cerca de dez anos e considerada o primeiro grande esforço para integrar a diversidade genética africana em escala continental. “O projeto anterior foi um marco, mas ainda deixou regiões e populações inteiras sem representação. Agora, o objetivo é justamente alcançar esses grupos que ficaram de fora”, explica.
A pesquisadora também integra o Instituto Brasileiro de Neurociência e Neurotecnologia (BRAINN), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) apoiado pela FAPESP e sediado na Unicamp. O grupo brasileiro conta ainda com a participação da cientista angolana Nkembi Matilde Miguel Ferraz, doutoranda orientada por Lopes-Cendes com bolsa da Capes, e da pesquisadora Thais Crippa de Oliveira, que realizou pós-doutorado sob supervisão da professora, com apoio da FAPESP.
Além de ampliar a inclusão de populações africanas em estudos de medicina de precisão — área que utiliza dados genéticos para orientar diagnósticos e terapias —, o sequenciamento das amostras angolanas também pode lançar luz sobre a própria formação genética da população brasileira.
Dados históricos indicam que cerca de 40% dos aproximadamente 10 milhões de africanos trazidos à força para as Américas vieram da chamada rota de Angola, segundo o Geledés – Instituto da Mulher Negra. No Brasil, esses fluxos se concentraram principalmente nos portos de Recife, Salvador e Rio de Janeiro, o que reforça a relevância genética dessas populações para a história do país.
Um dos diferenciais do AGenDA, destaca Lopes-Cendes, é a centralidade dos cientistas africanos em todas as etapas do trabalho. “São eles que lideram o processo, e os dados permanecerão armazenados no continente. Mesmo as amostras analisadas fora da África serão devolvidas”, afirma. A professora brasileira também colaborou para a implementação de infraestrutura de pesquisa em Angola e pretende retornar todo o material genético utilizado.
A fase anterior do esforço continental, o H3Africa, resultou no sequenciamento de 432 genomas de indivíduos pertencentes a 50 grupos etnolinguísticos em 13 países africanos. Um artigo publicado em 2020 na Nature revelou mais de 3 milhões de variantes genéticas inéditas, evidenciando a enorme heterogeneidade do continente. Ainda assim, a maioria das amostras estava concentrada em populações da região Níger-Congo, deixando milhares de grupos sem representação.
O novo projeto busca preencher essas lacunas ao incluir falantes de línguas afro-asiáticas, caçadores-coletores do sul da África, populações da África Central, do norte do continente e de ilhas do Oceano Índico. Estão envolvidos Angola, República Democrática do Congo, Ilhas Maurício, Quênia, Líbia, Ruanda, Tunísia e Zimbábue.
“Esperamos que essa colaboração sirva como modelo para fortalecer a pesquisa científica no continente e estimular investimentos em agências de fomento e instituições locais, muitas ainda com poucos recursos”, conclui Lopes-Cendes.