Combinação de medicamentos já existentes acelera reparação de lesões nos nervos em estudos com animais

Pesquisadores brasileiros demonstram que fármacos usados contra esclerose múltipla, hepatite C e alcoolismo reduzem a inflamação, preservam neurônios e melhoram a recuperação de movimentos e da sensibilidade após lesões graves

Uma combinação de medicamentos já disponíveis no mercado pode representar um avanço no tratamento de lesões graves do sistema nervoso. Em estudos realizados com animais, pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) demonstraram que diferentes associações de fármacos conseguiram reduzir a inflamação, proteger neurônios e favorecer a regeneração dos nervos, resultando em uma recuperação motora e sensorial significativamente melhor.

Os trabalhos, desenvolvidos no Instituto de Biologia (IB-Unicamp) com apoio da FAPESP, reforçam uma nova abordagem para o tratamento dessas lesões. Segundo os pesquisadores, apenas reconectar os nervos por meio de cirurgia nem sempre é suficiente. Também é fundamental controlar a resposta inflamatória, preservar as células nervosas e manter suas conexões durante o processo de recuperação.

Inflamação é um dos maiores obstáculos

Os nervos são responsáveis por transmitir os impulsos elétricos entre o cérebro, a medula espinhal e o restante do corpo. Quando sofrem lesões provocadas por acidentes, quedas, hérnias de disco ou tumores, essa comunicação pode ser interrompida, causando perda de movimentos, sensibilidade e força muscular.

Além do dano físico, essas lesões desencadeiam uma intensa resposta inflamatória. Embora seja importante para remover células lesionadas, quando excessiva ela também destrói neurônios saudáveis e dificulta a regeneração.

Foi justamente esse processo que os pesquisadores buscaram controlar.

Medicamentos reduziram inflamação e protegeram neurônios

No primeiro estudo, publicado na revista IBRO Neuroscience Reports, camundongos com lesão na raiz ventral da medula espinhal receberam duas combinações de medicamentos.

Uma delas, chamada NeuroBoost, reúne TEMPOL, um potente antioxidante, e dimetilfumarato, medicamento utilizado no tratamento da esclerose múltipla.

A outra, denominada NeuroHeal, combina acamprosato, empregado no tratamento da dependência do álcool, e ribavirina, utilizada contra a hepatite C.

As duas terapias reduziram a atividade de células inflamatórias do sistema nervoso, diminuíram a resposta imunológica excessiva e aumentaram a sobrevivência dos neurônios motores após a lesão.

Os pesquisadores também observaram uma melhor regulação das citocinas — moléculas responsáveis por coordenar a inflamação — indicando que os medicamentos ajudam a equilibrar a resposta do sistema imunológico sem impedir o processo natural de reparação.

Recuperação mais rápida após corte completo do nervo

Em outro estudo, publicado na revista ACS Chemical Neuroscience, a equipe avaliou uma estratégia diferente para reparar lesões extremamente graves do nervo ciático.

Os pesquisadores combinaram o polietilenoglicol (PEG), substância capaz de promover a fusão rápida de axônios rompidos, com o antioxidante TEMPOL.

Os animais tratados apresentaram recuperação motora e sensorial superior à observada com a cirurgia convencional. Também houve melhor preservação da estrutura dos nervos, redução da inflamação e maior manutenção das conexões nervosas.

Um dos resultados mais relevantes foi a diminuição da chamada degeneração Walleriana, processo em que a parte do nervo separada do corpo celular se degenera após uma lesão.

Segundo o coordenador dos estudos, professor Alexandre Leite Rodrigues de Oliveira, foi possível reduzir esse processo em cerca de 50%, preservando um número significativo de axônios.

A equipe agora trabalha em uma nova etapa da pesquisa, que combina essa técnica com membranas produzidas por impressão 3D para ampliar ainda mais a regeneração nervosa.

Reaproveitamento de medicamentos pode acelerar novos tratamentos

Embora os estudos tenham utilizado modelos diferentes de lesão — um envolvendo raízes nervosas próximas à medula espinhal e outro o nervo ciático — ambos demonstram que controlar a inflamação e proteger os neurônios aumenta significativamente as chances de recuperação funcional.

Para os pesquisadores, uma das maiores vantagens da estratégia é utilizar medicamentos que já passaram por testes clínicos e possuem aprovação para outras doenças.

“Considero muito promissora essa linha de reposicionamento de fármacos. São medicamentos que já foram aprovados pelos órgãos reguladores e utilizados em pacientes em outras condições clínicas, o que pode facilitar futuras aplicações no tratamento de lesões nervosas”, destaca Alexandre Leite Rodrigues de Oliveira.

Lesões atingem milhões de pessoas

As lesões dos nervos periféricos estão presentes em aproximadamente 2% a 5% de todos os casos de trauma. Já as neuropatias periféricas afetam entre 2% e 8% da população e podem provocar dor crônica, formigamento, perda de sensibilidade e fraqueza muscular, comprometendo significativamente a qualidade de vida.

Embora ainda sejam necessários estudos clínicos em seres humanos, os resultados obtidos nos modelos experimentais indicam que o reposicionamento de medicamentos já existentes pode representar um caminho promissor para o desenvolvimento de novas terapias capazes de melhorar a recuperação de pacientes com lesões graves do sistema nervoso.