Corais-de-fogo do Brasil enfrentam risco de extinção silenciosa, alertam pesquisadores

Quatro espécies de corais-de-fogo que ocorrem no Brasil — três delas endêmicas — podem estar caminhando para uma extinção silenciosa. É o que aponta um estudo apoiado pela FAPESP e publicado na revista Coral Reefs, a partir de dados de monitoramento realizados pelo Instituto Coral Vivo, com apoio da Petrobras, após sucessivos eventos de branqueamento associados ao aumento da temperatura do mar.

Os dados mais alarmantes indicam a morte de 100% das colônias monitoradas da espécie Millepora braziliensis no município de Tamandaré (PE). A espécie, que só existe no Brasil, sofreu branqueamento total e perdeu toda a cobertura viva, segundo os pesquisadores. Ela já é classificada como criticamente ameaçada de extinção pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

O monitoramento teve início após a intensa onda de branqueamento registrada em 2019 e acompanhou os recifes antes, durante e depois do evento mais recente, ocorrido no início de 2024, durante uma onda de calor associada ao fenômeno El Niño-Oscilação Sul.

O branqueamento acontece quando o aumento da temperatura da água leva à expulsão das zooxantelas — microalgas que vivem em simbiose com os corais e são responsáveis por grande parte de sua nutrição. Sem essas algas, os corais perdem energia, ficam esbranquiçados e podem morrer.

Outra espécie endêmica, Millepora nitida, apresentou branqueamento em 40% das colônias monitoradas, mas sem perdas significativas de cobertura viva. Ainda assim, os pesquisadores consideram o cenário preocupante.

“Os resultados reforçam a urgência de medidas de conservação, especialmente para as populações de M. braziliensis, que enfrentam risco elevado de extinção devido às ondas de calor intensificadas pela combinação do El Niño com o aquecimento global provocado pelas emissões de gases de efeito estufa”, afirma Miguel Mies, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) e um dos coordenadores do estudo.

Segundo os especialistas, os corais-de-fogo foram historicamente negligenciados em programas de monitoramento, em parte por estarem em áreas de difícil acesso nos recifes e por serem menos abundantes do que os chamados corais verdadeiros. Ainda assim, desempenham papel ecológico fundamental.

“Eles contribuem para a complexidade do ecossistema recifal, oferecendo abrigo e proteção para diversas espécies marinhas”, explica Mies, que também é diretor científico do Instituto Coral Vivo.

O estudo tem como primeiros autores Laura Marangoni, do Instituto Coral Vivo, e Tarciso Roberto Sena da Silva, mestrando da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), sob orientação do pesquisador Ralf Cordeiro, responsável pela coordenação do monitoramento.

O branqueamento é considerado atualmente a maior ameaça global aos recifes de coral. O evento de 2023–2024 foi o quarto registrado em escala mundial e atingiu também os corais verdadeiros ao longo da costa brasileira. Em Maragogi (AL), o branqueamento chegou a 96%, enquanto em Porto de Galinhas (PE) alcançou 84%. Globalmente, cerca de 84% dos recifes de coral foram afetados no mesmo período.

Além das espécies monitoradas, outras duas de coral-de-fogo ocorrem no Brasil. Millepora alcicornis, também presente no Caribe, é mais abundante e amplamente estudada, mas igualmente inspira preocupação. Já Millepora laboreli, endêmica do país, ocorre apenas no Parcel do Manuel Luís, no litoral do Maranhão, uma área de difícil acesso e com escassez de dados sobre seu estado de conservação.

“As informações mais recentes, de uma expedição realizada em 2022, indicavam poucas colônias vivas. A situação pode ter se agravado após a onda de calor de 2023–2024, mas ainda não temos dados suficientes para confirmar”, relata Mies.

Para os pesquisadores, a perspectiva é preocupante. Novos eventos de branqueamento são considerados inevitáveis, e as chances de sobrevivência dessas espécies diminuem sem a redução das emissões de gases de efeito estufa.

Iniciativas de restauração, como o cultivo de corais em laboratório e sua reintrodução na natureza, ainda enfrentam limitações. Além do alto custo, os corais transplantados tendem a não resistir a novos episódios de aquecimento extremo.

Apesar disso, estudos indicam que recifes localizados em unidades de conservação apresentam maior resistência ao branqueamento. Para Mies, o momento exige ação coordenada.

“Diferentemente de 2019, quando não estávamos preparados, agora os impactos estão sendo amplamente documentados para subsidiar políticas públicas. É fundamental fortalecer a conservação e ampliar a conscientização sobre a necessidade de enfrentar as mudanças climáticas”, conclui.