COVID longa afeta milhões e desafia ciência com sintomas persistentes no cérebro

Revisão internacional aponta impactos neuropsiquiátricos duradouros, ausência de tratamento específico e urgência por padronização no diagnóstico

Mesmo anos após o fim oficial da pandemia de COVID-19, a chamada COVID longa segue como um desafio global de saúde pública. Estimativas indicam que entre 80 milhões e 400 milhões de pessoas no mundo convivem com a condição — no Brasil, cerca de 14 milhões.

Associada à infecção pelo coronavírus, a COVID longa reúne mais de 200 sintomas. Entre os mais comuns estão fadiga e falta de ar, mas os efeitos no cérebro chamam atenção: dificuldades cognitivas, distúrbios do sono, depressão e perda de memória são frequentes e impactam diretamente a qualidade de vida e a capacidade de მუშაობo e realização de tarefas cotidianas.

Um estudo publicado na revista Nature Reviews Disease Primers detalha os principais mecanismos biológicos envolvidos. Entre eles estão a persistência do vírus no organismo, a reativação de outros vírus latentes, como os da família herpes, e uma resposta inflamatória crônica. Também foram identificadas alterações no sistema imunológico, desequilíbrios na microbiota intestinal, problemas de coagulação e danos nos vasos sanguíneos. No cérebro, há evidências de mudanças estruturais e falhas na comunicação entre regiões.

Apesar dos avanços, os cientistas alertam que ainda faltam definições mais claras sobre a doença. A ausência de biomarcadores específicos torna o diagnóstico dependente da avaliação clínica, baseada no histórico de infecção e na persistência dos sintomas por pelo menos três meses. Exames complementares podem ser necessários para descartar outras condições.

A revisão foi conduzida por um grupo internacional de 14 especialistas e contou com a participação da neurologista brasileira Clarissa Yasuda, da Unicamp. Segundo a pesquisadora, ainda não existe tratamento específico para a COVID longa, o que reforça a importância da prevenção, especialmente por meio da vacinação e da redução do risco de reinfecção.

Além dos impactos na saúde, a doença também traz consequências sociais e econômicas. Pacientes relatam dificuldades para retomar a rotina profissional e, em muitos casos, enfrentam perda de renda e falta de apoio institucional. Estudo anterior estimou que, apenas no Brasil, a condição tenha causado a perda de mais de 800 milhões de horas de trabalho em um ano, com prejuízos bilionários.

Outro ponto destacado é o estigma enfrentado pelos pacientes, que muitas vezes têm seus sintomas minimizados ou não reconhecidos. Crianças e adolescentes também podem sofrer impactos importantes na vida escolar e social.

Diante desse cenário, especialistas defendem o acompanhamento por equipes multidisciplinares e a realização de mais estudos, com grupos diversos de pacientes, para avançar na compreensão da doença e no desenvolvimento de tratamentos eficazes.