Estudo identifica novos alvos genéticos para combater a esquistossomose

Pesquisa realizada por cientistas do Instituto Butantan e da Universidade de São Paulo (USP) trouxe novos avanços para a compreensão do parasita responsável pela esquistossomose. O trabalho, publicado na revista Non-Coding RNA, identificou milhares de moléculas reguladoras no genoma do verme Schistosoma mansoni, apontando possíveis caminhos para o desenvolvimento de terapias mais eficazes contra a doença.

Conhecida popularmente como barriga d’água, a esquistossomose é uma infecção causada por vermes do gênero Schistosoma. A transmissão ocorre em água doce contaminada, quando larvas microscópicas liberadas por caramujos — chamadas cercárias — penetram ativamente pela pele durante o contato com a água.

Depois de atravessar a pele, a larva perde a cauda e se transforma em esquistossômulo. Nessa fase, o parasita entra na corrente sanguínea, passa pelo coração e pelos pulmões e chega às veias do fígado, onde se desenvolve até a fase adulta. Macho e fêmea formam um par permanente e migram para as veias do intestino, onde ocorre a produção de ovos. Parte deles é eliminada nas fezes, garantindo a continuidade do ciclo da doença, mas muitos ficam retidos no organismo, provocando inflamações e lesões, especialmente no fígado.

Atualmente, o tratamento depende principalmente do medicamento Praziquantel, recomendado pela Organização Mundial da Saúde. Apesar de amplamente utilizado, o fármaco apresenta limitações: ele não age nas fases iniciais do parasita e não impede novas infecções. Além disso, o uso repetido em regiões endêmicas pode favorecer o surgimento de resistência.

Buscando alternativas, os pesquisadores voltaram a atenção para genes não codificantes do parasita, responsáveis pela produção dos chamados RNAs longos não codificantes (lncRNAs). Essas moléculas não produzem proteínas, mas desempenham papel importante na regulação de processos biológicos. Por apresentarem grande variação entre espécies, podem se tornar alvos mais específicos de medicamentos, reduzindo o risco de efeitos colaterais no organismo humano.

Para conduzir o estudo, apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), os cientistas analisaram cerca de 1.800 conjuntos de dados públicos de transcriptoma — o conjunto de RNAs produzidos por um organismo — integrados à versão mais recente do genoma do parasita. A estratégia permitiu examinar separadamente diferentes fases do ciclo de vida do verme, como ovo, larva, forma juvenil e adultos.

Com essa abordagem, foram identificados mais de 10 mil novos genes de lncRNA, totalizando quase 17 mil transcritos inéditos. Muitos apresentam características típicas de genes biologicamente ativos, indicando que podem desempenhar funções importantes no parasita.

O estudo também revelou que cerca de 42% desses RNAs são expressos apenas em fases específicas do ciclo de vida, o que sugere funções altamente especializadas. Outro resultado relevante foi a identificação de diferenças entre machos e fêmeas do parasita. Quase 2 mil genes mostraram expressão distinta entre os sexos, incluindo 635 lncRNAs.

Nos machos, essas moléculas estão associadas principalmente ao desenvolvimento muscular, importante para o acasalamento. Já nas fêmeas, estão ligadas à replicação do DNA e ao metabolismo, processos essenciais para a intensa produção de ovos — que pode chegar a 300 a 500 por dia.

Como os ovos são responsáveis pelos principais danos ao organismo humano, interferir nesse processo pode ser uma estratégia promissora para controlar a doença. Segundo os pesquisadores, bloquear a reprodução do parasita poderia interromper a transmissão e reduzir os danos ao fígado.

Os próximos passos da pesquisa incluem testes experimentais para confirmar a função desses RNAs e avaliar seu potencial como alvo terapêutico. A ideia é realizar experimentos de silenciamento gênico em laboratório e, posteriormente, em modelos biológicos, além de aprofundar as análises computacionais para identificar os candidatos mais promissores no desenvolvimento de novos tratamentos.