Estudo revela como o selênio pode reduzir a toxicidade do mercúrio em ribeirinhos da Amazônia
Pesquisa com moradores do Pará identifica associação entre maiores níveis do nutriente e menor circulação de metilmercúrio no plasma, além de maior eliminação de mercúrio pela urina. Cientistas alertam, porém, que o resultado não justifica o uso indiscriminado de suplementos.
Um estudo com populações ribeirinhas do Pará identificou mecanismos pelos quais o selênio pode atenuar os efeitos tóxicos do mercúrio no organismo humano. A pesquisa aponta que concentrações mais elevadas do nutriente estão associadas à menor transferência de metilmercúrio para o plasma sanguíneo e à maior eliminação de mercúrio inorgânico pela urina.
Publicado na revista científica Environment & Health, o trabalho foi coordenado por Fernando Barbosa Júnior, professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FCFRP-USP). Os resultados ajudam a explicar por que moradores de comunidades amazônicas, mesmo apresentando níveis elevados de mercúrio no sangue, podem manifestar efeitos tóxicos menores do que os esperados.
Na região, a principal fonte de exposição ao contaminante é o consumo de peixes. Esses animais podem acumular metilmercúrio, uma forma orgânica do metal capaz de atravessar barreiras biológicas e atingir o sistema nervoso central.
A exposição prolongada pode provocar alterações na coordenação motora, problemas de visão e comprometimento da memória. Durante a gestação, também pode prejudicar o desenvolvimento neurológico da criança.
Pesquisa acompanha o percurso do mercúrio no organismo
O diferencial do estudo foi analisar simultaneamente as principais formas químicas do mercúrio no sangue total, no plasma e na urina dos mesmos participantes. Essa abordagem permitiu investigar não apenas a quantidade do contaminante presente no organismo, mas também como ele se distribui e é eliminado.
A pesquisa integra um programa de biomonitoramento realizado em 13 comunidades das bacias dos rios Tapajós e Amazonas. Em outubro e novembro de 2022, foram coletadas amostras de sangue e urina de 1.089 voluntários adultos. Para a análise específica das formas químicas do mercúrio, os pesquisadores selecionaram 56 participantes com diferentes concentrações de mercúrio e selênio.
Os resultados mostraram que, no sangue total, o metilmercúrio representava, em média, 76% do mercúrio identificado. Os outros 24% correspondiam à forma inorgânica. No plasma, a distribuição era diferente: 49% do mercúrio estava na forma de metilmercúrio e 51% na forma inorgânica.
Outro dado relevante é que apenas 7% do metilmercúrio presente no sangue estava associado ao plasma. A maior parte permanecia ligada às células sanguíneas, principalmente às hemácias.
Como o plasma participa do transporte de substâncias pelo organismo, a quantidade de metilmercúrio presente nesse compartimento pode influenciar a disponibilidade do contaminante para alcançar outros tecidos.
Segundo os pesquisadores, quanto maiores as concentrações de selênio no sangue, menor era a transferência de metilmercúrio das células sanguíneas para o plasma. Essa associação, observada em humanos, amplia o conhecimento sobre a interação entre os dois elementos.
Nutriente pode favorecer a eliminação do contaminante
O estudo também identificou uma associação entre maiores concentrações de selênio no sangue e na urina e uma proporção mais elevada de mercúrio inorgânico eliminado pelos rins.
Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores é que o selênio favoreça, direta ou indiretamente, a transformação de parte do metilmercúrio em mercúrio inorgânico, que é predominantemente eliminado pela via renal. Esse processo é conhecido como desmetilação.
Os cientistas ainda precisam identificar quais moléculas participam efetivamente dessa dinâmica. Entre as possibilidades estão proteínas que transportam selênio no plasma e enzimas envolvidas na proteção antioxidante.
Duas explicações principais são investigadas. A primeira envolve a afinidade química entre mercúrio e selênio, que pode levar à formação de compostos menos solúveis e menos disponíveis para interagir com as células. A segunda está relacionada às selenoproteínas, que participam de processos fisiológicos e ajudam a neutralizar moléculas associadas ao estresse oxidativo.
Embora os resultados indiquem mecanismos potencialmente protetores, os pesquisadores ressaltam que ainda são necessárias novas investigações para esclarecer como essas interações acontecem no organismo.
Castanha-do-pará é fonte de selênio, mas suplementação exige cuidado
O selênio é um nutriente essencial, presente em alimentos como a castanha-do-pará, e participa de diversas funções do organismo, incluindo a defesa antioxidante.
Entretanto, a pesquisa não recomenda o consumo indiscriminado de suplementos para prevenir ou tratar a intoxicação por mercúrio. Em excesso, o próprio selênio pode ser tóxico, e seus efeitos dependem da dose, da forma química e das condições nutricionais de cada pessoa.
O trabalho faz parte de uma investigação iniciada há mais de duas décadas com comunidades ribeirinhas amazônicas. O programa, apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), reúne atualmente dados de mais de 3 mil participantes e combina análises de biomonitoramento, genética, metabolismo e epidemiologia ambiental.
Garimpo contribui para a contaminação, mas não é a única fonte
A pesquisa também se insere em um contexto ambiental complexo. Segundo os pesquisadores, embora o garimpo seja uma fonte importante de mercúrio na Amazônia, parte expressiva do elemento está naturalmente acumulada nos solos da região há milhares de anos.
A mineração, contudo, agrava o problema ao lançar mercúrio metálico no ambiente e revolver solos e sedimentos que já contêm o elemento, favorecendo sua mobilização e chegada aos ecossistemas aquáticos.
Compreender essas diferentes fontes é importante para avaliar os riscos aos quais as populações estão expostas e desenvolver medidas de prevenção mais adequadas.
Menor consumo de peixe traz outro desafio nutricional
Os pesquisadores observaram que a exposição ao mercúrio nas comunidades do Tapajós diminuiu em comparação com os níveis registrados cerca de 20 anos antes. Uma das explicações apontadas é a redução do consumo de pescado, substituído parcialmente por frango congelado e alimentos ultraprocessados.
Essa mudança, porém, não representa necessariamente uma melhora na saúde. O peixe fornece proteínas de qualidade, ômega-3, vitaminas, selênio e outros nutrientes importantes para o desenvolvimento neurológico e a saúde cardiovascular.
De acordo com Fernando Barbosa Júnior, algumas comunidades já enfrentam problemas como anemia e deficiências de ferro e iodo. Reduzir o consumo de peixe sem considerar essas condições pode agravar a insegurança alimentar.
O desafio, portanto, é desenvolver recomendações que considerem os riscos da exposição ao mercúrio sem desconsiderar os benefícios nutricionais do pescado. Para isso, os pesquisadores defendem avaliações que levem em conta as espécies consumidas, os níveis de contaminação, a frequência do consumo e as condições nutricionais de cada população.
Os resultados reforçam a importância de investigar não apenas quanto mercúrio entra no organismo, mas também como o contaminante se transforma, circula e é eliminado. Esse conhecimento poderá contribuir para avaliações de risco mais precisas e estratégias de saúde pública adaptadas à realidade das comunidades amazônicas.