Jogos digitais com biofeedback ajudam crianças a regular emoções e reduzir ansiedade
Tecnologia desenvolvida por startup brasileira integra sensores biométricos e estratégias terapêuticas para apoiar crianças com TDAH, autismo e sintomas ansiosos
Uma plataforma digital que une jogos interativos, sensores biométricos e técnicas terapêuticas vem se mostrando uma aliada no cuidado com crianças neurodivergentes e com sintomas de ansiedade. Desenvolvida pela startup Self Intelligence for Life, de São José dos Campos (SP), a tecnologia foi criada para estimular o autocontrole emocional de forma lúdica, especialmente em crianças com transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH).
Fundada em 2022, a empresa contou com apoio do programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), da FAPESP, em parceria com o Sebrae-SP. O diferencial da plataforma está no uso do biofeedback: enquanto a criança joga, sensores monitoram sinais fisiológicos ligados ao estresse. À medida que ela se acalma e regula a respiração, recebe recompensas dentro do próprio jogo.
“A plataforma acompanha a criança em tempo real por meio de sensores biométricos. O jogo ‘entende’ como ela está se sentindo e oferece benefícios quando consegue se autorregular”, explica Gabriella Faria, engenheira biomédica e CEO da startup.
A ideia surgiu durante o mestrado de Faria em engenharia biomédica, quando ela integrou um grupo de pesquisa voltado a técnicas não farmacológicas de redução do estresse, como exercícios respiratórios. O trabalho contou com a coordenação das pesquisadoras Karina Rabello Casali e Tatiana Cunha, além do apoio técnico dos engenheiros Matheus Cardoso Moraes e Henrique Alves de Amorim.
Segundo Faria, uma contribuição decisiva veio da neuropsicopedagoga Renata Casali, especialista em reabilitação cognitiva. Ela relatou a dificuldade de acalmar crianças antes do início das sessões terapêuticas. “Em alguns casos, eram necessários de 15 a 20 minutos apenas para estabilizar a criança emocionalmente, o que comprometia o tempo e a efetividade do atendimento”, lembra.
Embora o foco inicial tenha sido o TDAH, a plataforma também atende crianças com transtorno do espectro autista (TEA) e quadros de ansiedade. Todo o design foi pensado para esse público: sons, cores e estímulos visuais foram cuidadosamente selecionados para respeitar diferentes níveis de sensibilidade sensorial.
O desenvolvimento da tecnologia ocorre em um contexto de crescimento expressivo da demanda por cuidados em saúde mental infantil. Dados do Ministério da Saúde indicam que os atendimentos por transtornos de ansiedade no SUS, entre crianças de 10 a 14 anos, aumentaram mais de 1.300% na última década. Já o Censo Escolar aponta que o número de matrículas de estudantes com TEA na educação básica chegou a 918.877, um crescimento de 44,4% entre 2023 e 2024.
A solução da Self Intelligence for Life é composta por três elementos principais: sensores biométricos, aplicativo com jogos e uma plataforma de gestão para terapeutas. Os sensores — disponíveis nos formatos de cinta torácica, braçadeira ou clipe de orelha — medem a variabilidade da frequência cardíaca, um indicador reconhecido para avaliar níveis de estresse. A tecnologia é semelhante à utilizada em smartwatches, mas com métricas específicas para fins terapêuticos.
Atualmente, a plataforma oferece oito jogos, com níveis variados de complexidade. Em um deles, a criança acompanha a respiração de uma baleia, aprendendo o ritmo adequado de inspiração e expiração. Em outro, considerado mais desafiador, um caranguejo precisa organizar objetos enquanto o vento espalha o lixo pelo cenário. “Não adianta ficar nervoso. Para avançar, é preciso respirar corretamente e manter a calma”, explica Faria.
Cada sessão dura cerca de três minutos, tempo suficiente para gerar resultados. O terapeuta tem papel central no processo: define a estratégia, escolhe os jogos mais adequados e apresenta o sensor de forma lúdica, integrando a tecnologia ao plano terapêutico.
A startup também desenvolveu trilhas específicas: jogos mais simples para crianças com TEA, que podem se frustrar com estímulos excessivos, e desafios mais dinâmicos para crianças com TDAH, que costumam precisar de maior estímulo para manter o foco.
Outra preocupação do projeto é o uso consciente de telas. A plataforma não foi pensada para uso prolongado, mas como um exercício terapêutico breve e regular. A recomendação é de até nove minutos por dia em casa, divididos em três sessões curtas, sempre com orientação profissional. O uso é indicado apenas durante o acompanhamento clínico, e não de forma autônoma pelas famílias.
A cada sessão, o sistema gera relatórios detalhados, permitindo que o terapeuta acompanhe a evolução da criança e compartilhe os resultados com os pais. A empresa já trabalha no desenvolvimento de novos jogos, incluindo opções voltadas à fala e recursos com inteligência artificial para personalização avançada. Também está nos planos a criação de versões adaptadas para outras faixas etárias.
“Queremos ampliar o alcance da tecnologia. Já pensamos em uma versão menos infantil, para atender outros públicos”, adianta Faria.