Musculação ajuda a reverter danos da obesidade no fígado, aponta estudo da Unicamp

Pesquisa mostra que treinamento de força modifica o funcionamento de genes no fígado, reduz o acúmulo de gordura e restaura a sensibilidade à insulina em animais obesos

Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) identificaram um novo benefício da musculação: além de fortalecer os músculos, o treinamento de força é capaz de promover alterações moleculares no fígado que ajudam a combater os efeitos da obesidade. Em estudo realizado com camundongos, a prática reduziu o acúmulo de gordura no órgão, restaurou a sensibilidade à insulina e favoreceu mecanismos ligados à regeneração do tecido hepático.

Os resultados, apoiados pela FAPESP e publicados na revista Life Sciences, ajudam a esclarecer como o exercício físico interfere na atividade dos genes do fígado e pode contribuir para prevenir ou amenizar a doença hepática esteatótica, popularmente conhecida como gordura no fígado, condição frequentemente associada ao diabetes tipo 2.

“O objetivo era entender como um estímulo gerado nos músculos poderia produzir benefícios no fígado. Investigamos como a obesidade afeta o DNA e de que forma a musculação consegue proteger esse material genético”, explica Leandro Pereira de Moura, professor da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA-Unicamp) e coordenador da pesquisa, em entrevista à Agência FAPESP.

Alterações no funcionamento dos genes

O estudo concentrou-se na epigenética, área que investiga como fatores externos, como alimentação e atividade física, podem modificar o funcionamento dos genes sem alterar a sequência do DNA.

Os pesquisadores analisaram um processo conhecido como metilação do DNA, mecanismo que regula a ativação ou o silenciamento de genes. Após oito semanas de treinamento de força, os camundongos apresentaram alterações na metilação do gene MTCH2, responsável por processos relacionados ao metabolismo energético das células do fígado.

Segundo Moura, a obesidade cria um ambiente inflamatório que sobrecarrega os hepatócitos, principais células hepáticas. Esse cenário compromete o funcionamento das mitocôndrias — responsáveis pela produção de energia — e favorece o desenvolvimento de fibrose, que substitui gradualmente o tecido saudável por tecido cicatricial.

Com a musculação, no entanto, esse quadro começou a ser revertido. Embora o organismo continuasse produzindo o RNA mensageiro relacionado ao gene MTCH2, a quantidade da proteína correspondente diminuiu, indicando que o fígado deixou de operar em um estado permanente de estresse celular.

Recuperação da sensibilidade à insulina

Outro resultado importante foi a melhora da resposta do fígado à insulina. Em pessoas e animais com obesidade, o excesso de gordura no órgão costuma provocar resistência ao hormônio, fazendo com que o fígado continue liberando glicose para o sangue mesmo quando o organismo já dispõe de energia suficiente.

Nos camundongos submetidos ao treinamento de força, essa sensibilidade foi restabelecida, contribuindo para um melhor controle da glicemia.

Os pesquisadores também observaram redução da atividade de enzimas associadas à fibrose e ao crescimento celular desordenado, além do aumento da produção da proteína ATP5, fundamental para a geração de energia nas mitocôndrias.

“Com maior disponibilidade de energia, as células deixam o estado de alerta, reduzem a ativação do gene MTCH2 e favorecem a regeneração do tecido hepático”, resume Moura. “Levantar pesos fortalece não apenas os músculos, mas também influencia diretamente o funcionamento do DNA no fígado.”

Embora os resultados tenham sido obtidos em modelos animais, os pesquisadores destacam que eles ampliam o entendimento sobre os mecanismos pelos quais o treinamento de força pode contribuir para a prevenção e o tratamento de doenças metabólicas relacionadas à obesidade.