Número de moluscos exóticos registrados no Brasil cresce 215% em 15 anos
Levantamento inédito identifica 82 espécies não nativas no país e alerta para a necessidade de ampliar ações de biossegurança e monitoramento ambiental
O Brasil registrou um aumento de 215% no número de espécies exóticas de moluscos nos últimos 15 anos. A quantidade passou de 26, em 2011, para 82 em 2025, de acordo com o primeiro inventário nacional sobre esses organismos. Entre as espécies identificadas, 20 são consideradas invasoras, por apresentarem potencial para causar impactos ambientais, econômicos ou à saúde pública, como o mexilhão-dourado e o caramujo-africano.
O estudo, publicado na revista Biological Invasions, foi coordenado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com participação de cientistas de diversas instituições brasileiras. Segundo os autores, o crescimento acelerado da presença de moluscos não nativos reforça a necessidade de fortalecer medidas de biossegurança, ampliar a detecção precoce e implantar programas permanentes de monitoramento em ambientes terrestres, marinhos e de água doce.
De acordo com Marcel Sabino Miranda, pesquisador que participou do trabalho durante pós-doutorado no Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP), ainda existem lacunas importantes sobre a identificação e os impactos dessas espécies.
Embora alguns moluscos invasores já sejam amplamente conhecidos pelos prejuízos que provocam, a maioria ainda não possui estudos suficientes para determinar os riscos ambientais ou econômicos que podem representar.
O mexilhão-dourado, por exemplo, chegou ao Brasil na década de 1990 e se espalhou por rios e reservatórios, causando entupimentos e reduzindo a eficiência de usinas hidrelétricas. Mesmo com investimentos milionários em ações de controle, a espécie continua avançando pelo território nacional.
Já o caramujo-africano foi introduzido no país como alternativa comercial ao escargot. Após o abandono da atividade, espalhou-se por diversas regiões e passou a representar ameaça à agricultura, além de poder atuar como hospedeiro de um parasita associado à meningite.
Espécies distribuídas em diferentes ambientes
O inventário identificou 32 espécies não nativas em ambientes marinhos e estuarinos, 17 em ecossistemas de água doce e 33 em áreas terrestres. Além delas, foram registradas 13 espécies classificadas como criptogênicas, cuja origem ainda não pôde ser determinada com segurança.
Os pesquisadores destacam que, em alguns casos, novas evidências científicas modificaram a compreensão sobre a origem de determinadas espécies. O mexilhão Perna perna, por exemplo, antes considerado introduzido pelos portugueses, hoje é reconhecido como nativo da América do Sul após estudos arqueológicos e genéticos.
Classificação orienta ações de controle
As espécies foram classificadas conforme critérios do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), em categorias que incluem espécies detectadas, estabelecidas, invasoras, contidas e com deficiência de dados.
Segundo os autores, grande parte das espécies ainda carece de informações sobre sua distribuição e seus impactos. Por isso, defendem a realização de pesquisas de longo prazo e políticas públicas voltadas à prevenção, ao monitoramento e, quando necessário, ao controle ou erradicação das espécies invasoras antes que causem danos mais severos à biodiversidade e às atividades econômicas.