Solidão pode agravar dor e dificultar recuperação, com impacto maior em fêmeas

Estudo indica que isolamento social e sexo biológico influenciam evolução da dor e devem ser considerados em tratamentos

A solidão pode intensificar a dor física e retardar a recuperação, sobretudo em fêmeas. A conclusão é de um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), que investigou como o isolamento social interfere na transição da dor aguda para a crônica. Os resultados foram publicados na revista Physiology & Behavior e reforçam a necessidade de considerar o isolamento como fator de risco em pós-operatórios e tratamentos da dor.

A pesquisa, com apoio da FAPESP, analisou camundongos adultos, machos e fêmeas, mantidos isolados ou em grupo. Para simular a cronificação da dor, os animais passaram por um pequeno corte na pata traseira e, semanas depois, receberam uma substância que reativou a sensibilidade dolorosa.

Durante o experimento, foram avaliados sinais físicos e comportamentais, como sensibilidade à dor, expressões de desconforto e indícios de ansiedade e depressão. Também foram monitorados hormônios relacionados ao vínculo social e ao estresse, como ocitocina, vasopressina e corticosterona.

Os resultados mostraram que apenas as fêmeas mantidas em isolamento continuaram apresentando dor intensa duas semanas após a lesão inicial — um indicativo de cronificação precoce. Segundo a pesquisadora Daniela Baptista de Souza, ligada ao programa de pós-graduação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) em parceria com a Unesp, esse grupo foi o único que não apresentou recuperação adequada.

Já os machos isolados não tiveram prejuízo na recuperação física, embora tenham demonstrado níveis mais elevados de ansiedade em comparação aos que permaneceram em grupo.

O estudo também identificou diferenças hormonais relevantes. Enquanto as fêmeas isoladas mantiveram níveis baixos de ocitocina — hormônio associado ao vínculo social — ao longo de todo o experimento, os machos conseguiram recuperar esses níveis mesmo após a indução da dor crônica.

Por outro lado, as fêmeas que permaneceram em grupo apresentaram recuperação completa da sensibilidade em cerca de duas semanas, além de melhor equilíbrio emocional, o que indica que o suporte social pode atuar como fator de proteção.

Os pesquisadores destacam que o trabalho está entre os primeiros a analisar a relação entre isolamento social, dor crônica e sexo biológico. A constatação ganha ainda mais relevância diante do fato de que a dor crônica é mais comum em mulheres, embora historicamente elas tenham sido pouco incluídas em estudos científicos sobre o tema.

Os achados ajudam a explicar por que mulheres tendem a apresentar maior vulnerabilidade à dor persistente, além de condições associadas, como ansiedade e depressão. Para os autores, considerar o sexo biológico e o contexto social dos pacientes pode ser essencial para o desenvolvimento de tratamentos mais eficazes e personalizados.

Diante disso, o estudo reforça que o isolamento social não deve ser visto apenas como um fator emocional, mas também como um elemento com impacto direto na saúde física, capaz de influenciar a evolução e a intensidade da dor.