Transtorno Bipolar: Muito além da “mudança de humor” é preciso alertar para o diagnóstico correto da doença, que afeta 8 milhões de brasileiros
Dia Mundial do Transtorno Bipolar, celebrado em 30 de março, especialistas alertam: o maior problema não é apenas a doença, mas o atraso no diagnóstico
Alterações bruscas de humor, com alternância entre períodos de depressão, euforia ou sentimentos mistos, divididas em fases bem definidas que podem durar dias ou até meses. Esses são os principais sintomas do Transtorno Afetivo Bipolar (TAB), que afeta mais de 140 milhões de pessoas em todo o mundo, segundo dados da Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (ABRATA). No Brasil, estima-se que cerca de 8 milhões de pessoas convivam com o transtorno, de acordo com a Associação Brasileira de Transtorno Bipolar (ABTB).
Diferente do que dita o senso comum, ser “bipolar” não é mudar de ideia rapidamente ou ter oscilações emocionais reativas ao longo do dia. É preciso desmistificar a condição, diferenciando-a de quadros como a TPM severa e o Transtorno de Personalidade Borderline, além de alertar sobre como o estilo de vida moderno e as redes sociais podem desestabilizar quem tem predisposição genética.
O transtorno bipolar é uma condição psiquiátrica caracterizada por alterações significativas do humor que vão muito além das variações emocionais comuns do dia a dia. “São episódios de depressão profunda intercalados com períodos de mania ou hipomania, onde há aumento excessivo de energia e perda do senso crítico. É fundamental esclarecer que não se trata de mudanças rápidas de humor no mesmo dia; no transtorno bipolar, os episódios são sustentados, durante dias ou semanas, e impactam drasticamente a vida pessoal e profissional do indivíduo”, destaca a psiquiatra Paula Magalhães, especialista nesse transtorno e atende no Órion Complex.
No próximo dia 30 de março, celebra-se o Dia Mundial do Transtorno Bipolar. A data não é apenas um marco no calendário da saúde mental. O maior desafio atual não é apenas a doença, mas o estigma e o atraso no diagnóstico, que pode levar anos.
“O diagnóstico correto é um dos pontos mais importantes no manejo do transtorno bipolar. Muitos pacientes passam anos sendo tratados apenas por depressão ou ansiedade, sem que o componente bipolar seja reconhecido. Isso pode levar a condutas inadequadas e à piora do quadro ao longo do tempo. Identificar precocemente o transtorno permite intervenções mais assertivas, reduz o risco de recaídas, melhora a funcionalidade e protege a qualidade de vida do paciente”, diz a especialista..
BIPOLARIDADE COM TPM X BORDELINE
Algumas condições podem gerar confusão diagnóstica, como a tensão pré-menstrual e o transtorno de personalidade borderline. Embora possam compartilhar sintomas como instabilidade emocional e irritabilidade, são quadros distintos. A TPM, especialmente em sua forma mais intensa, segue um padrão cíclico relacionado ao período menstrual, com melhora após a menstruação.
Já o transtorno de personalidade borderline se caracteriza por uma instabilidade emocional mais reativa às relações interpessoais, com mudanças rápidas de humor, medo de abandono e impulsividade. No transtorno bipolar, por sua vez, os episódios tendem a ser mais sustentados, com alterações biológicas do humor que não dependem necessariamente de gatilhos externos imediatos. Diferenciar essas condições é essencial, pois o tratamento e a condução clínica são diferentes.
A psiquiatra explica que o desenvolvimento do transtorno bipolar é multifatorial. “Existe uma predisposição genética importante, mas ela não atua isoladamente. O que a ciência mostra é a interação entre vulnerabilidade biológica e fatores ambientais. Entre os principais desencadeantes de episódios estão a privação de sono, alterações no ritmo de vida, estresse significativo, eventos marcantes e o uso de substâncias. Nesse contexto, as redes sociais não são causa direta do transtorno, mas podem atuar como fator de desestabilização, especialmente quando contribuem para a perda de rotina, exposição excessiva a estímulos, comparação constante e redução da qualidade do sono.”
O CAMINHO PARA A ESTABILIDADE
A boa notícia é que o transtorno tem tratamento e o paciente pode levar uma vida plena e funcional. Além da medicação, estabilizadores e antipsicóticos, a importância da organização do estilo de vida e da rotina regular.
“A psicoterapia contribui para o reconhecimento precoce de sinais de descompensação, melhora da adesão ao tratamento e desenvolvimento de estratégias de regulação emocional. Além disso, a organização do estilo de vida é um pilar fundamental: manter uma rotina regular de sono, evitar substâncias e respeitar os ritmos do corpo são medidas que impactam diretamente na estabilidade do humor.
Mais do que um diagnóstico, o transtorno bipolar exige compreensão, acompanhamento adequado e redução do estigma. Com tratamento correto, é plenamente possível alcançar estabilidade, funcionalidade e qualidade de vida. O maior desafio, muitas vezes, não está na doença em si, mas no atraso em reconhecê-la e tratá-la de forma apropriada.