Governo Lula avalia risco de influência de Trump na eleição brasileira de 2026

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avalia que, apesar do diálogo institucional mantido com Washington, não está descartada a possibilidade de interferência externa no processo eleitoral brasileiro de 2026. A preocupação ganhou força a partir de episódios recentes envolvendo a atuação dos Estados Unidos em eleições na América Latina.

Segundo avaliação interna do Palácio do Planalto, ações adotadas pelo governo norte-americano em outros países da região podem se repetir no Brasil, influenciando o cenário político e eleitoral. A análise foi revelada em reportagem da Folha de S.Paulo, que ouviu um alto integrante do governo brasileiro.

De acordo com essa leitura, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pode ter promovido apenas um recuo estratégico ao suspender parte das tarifas sobre produtos brasileiros e interromper sanções baseadas na Lei Magnitsky. Para integrantes do governo Lula, a medida ocorreu após o fracasso de uma tentativa de impedir a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, sem representar uma mudança definitiva de postura.

O Planalto observa com atenção o caso de Honduras, onde Trump concedeu indulto ao ex-presidente Juan Orlando Hernández, condenado a 45 anos de prisão por tráfico de cocaína para os EUA e aliado político de Nasry Asfura, candidato à Presidência. Passado quase um mês das eleições hondurenhas, o país ainda não divulgou um resultado oficial. Asfura lidera a disputa por margem estreita sobre Salvador Nasralla, enquanto uma apuração especial segue em curso.

Na semana passada, o Departamento de Estado norte-americano revogou o visto e cancelou outro de duas autoridades eleitorais hondurenhas ligadas ao partido da presidente Xiomara Castro, sob a alegação de interferência na apuração dos votos. Para o governo brasileiro, o conjunto desses episódios acende um alerta sobre possíveis tentativas de pressão externa em processos democráticos da região.

Diante desse cenário, autoridades brasileiras defendem a adoção de mecanismos de proteção, descritos internamente como “vacinas institucionais”. Entre eles está a ampliação da cooperação bilateral com os Estados Unidos no combate ao crime transnacional, anunciada recentemente. Segundo integrantes do governo, a iniciativa também tem caráter preventivo, ao reduzir o espaço para que grupos bolsonaristas tentem justificar uma eventual intervenção estrangeira no Brasil sob o argumento de combate ao crime organizado.

A avaliação no Planalto é de que a agenda internacional terá um peso inédito na disputa presidencial de 2026. Internamente, há a percepção de que Donald Trump poderá apoiar abertamente um candidato da direita brasileira alinhado ideologicamente ao atual governo norte-americano, o que reforça a necessidade de vigilância diplomática e institucional nos próximos anos.