Estudo global revela que práticas de gratidão melhoram bem-estar e fortalecem relações sociais
Pesquisa com mais de 10 mil participantes de 34 países avaliou diferentes formas de estimular a gratidão e identificou aumento do otimismo, melhora do humor e redução da inveja; efeitos variam conforme a cultura
Práticas simples de gratidão, como agradecer diretamente a alguém ou refletir sobre acontecimentos positivos, podem trazer benefícios mensuráveis para o bem-estar e para as relações sociais. É o que aponta um amplo estudo internacional realizado com mais de 10 mil voluntários de 34 países.
Publicado em maio na revista científica PNAS, da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, o trabalho avaliou seis estratégias destinadas a estimular o sentimento de gratidão. No Brasil, participaram 598 voluntários, que realizaram as atividades por meio de uma plataforma on-line.
Os resultados mostraram melhora em diferentes indicadores psicológicos, incluindo aumento do otimismo, do afeto positivo e da satisfação com a vida, além de redução de sentimentos negativos e da inveja. A intensidade desses efeitos, no entanto, variou de acordo com o país e com a prática adotada.
Agradecer diretamente teve maior efeito
Entre as seis estratégias analisadas, a mais eficaz foi escrever e enviar uma mensagem de agradecimento a alguém. Para os pesquisadores, o resultado reforça a importância da conexão social para os benefícios associados à gratidão.
Já uma das práticas mais conhecidas – elaborar uma lista com cinco coisas pelas quais a pessoa se sente grata – apresentou o menor impacto entre as intervenções testadas.
Os pesquisadores também avaliaram outras quatro atividades: escrever uma carta de agradecimento sem enviá-la; realizar a chamada reflexão de Naikan, analisando o que a pessoa recebeu, ofereceu e ainda poderia fazer pelos outros; recordar cinco acontecimentos do dia anterior pelos quais se sente gratidão e imaginar como seria a vida sem eles; e escrever uma carta a Deus, a uma força superior ou entidade espiritual reconhecendo aquilo que recebeu.
Apesar das diferenças, todas as seis estratégias produziram efeitos positivos.
“Um dos principais resultados a que chegamos é que, no geral, todas as intervenções propostas funcionaram”, afirma o psicólogo Paulo Sérgio Boggio, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Neurociência Social e Afetiva (INCT-Sani).
Segundo o pesquisador, o efeito mais expressivo apareceu justamente quando a prática envolveu outra pessoa. “A questão da conexão social é central.”
Práticas específicas funcionaram melhor
Além das seis intervenções de gratidão, o estudo utilizou três atividades de controle: responder apenas a um questionário, escrever genericamente sobre um acontecimento passado ou relatar eventos recentes considerados interessantes.
As práticas direcionadas especificamente à gratidão apresentaram resultados superiores às atividades de controle.
“Para a intervenção ser melhor, produzir mais efeito, ela tem de ser mais do que simplesmente pensar em uma coisa boa”, explica Boggio.
O pesquisador e sua ex-orientanda Beatriz Bezerra de Souza, que teve apoio da FAPESP durante o mestrado, são os dois coautores brasileiros do trabalho. Ao todo, 36 pesquisadores assinam o artigo científico.
Entre eles está o psicólogo experimental Michael McCullough, professor da Universidade da Califórnia em San Diego. A pesquisa foi coordenada por Nicholas Coles, da Universidade da Flórida.
Cultura influencia resultados
Embora as práticas tenham produzido benefícios de maneira geral, as diferenças mais expressivas apareceram quando os pesquisadores compararam os resultados entre os países.
O México apresentou um dos maiores impactos, enquanto na Noruega o efeito foi praticamente inexistente. O Brasil ficou em uma posição intermediária.
Características culturais, como maior rigidez ou flexibilidade das normas sociais, religiosidade e a chamada distância do poder – conceito relacionado ao grau de aceitação das desigualdades hierárquicas e sociais – influenciaram a intensidade das respostas.
Alguns efeitos, entretanto, mostraram-se mais universais. O aumento dos sentimentos positivos, por exemplo, apareceu de maneira consistente em diferentes culturas.
De forma geral, as intervenções provocaram melhora imediata em indicadores associados ao chamado florescimento humano. Os participantes apresentaram maior afeto positivo, reciprocidade social, satisfação com a vida e otimismo, além de redução do afeto negativo e da inveja.
Gratidão pode estimular uma rede de ajuda
Para os pesquisadores, os resultados também ajudam a compreender a função social da gratidão.
Segundo Boggio, trata-se de uma emoção profundamente relacionada às conexões humanas e capaz de aumentar a disposição de uma pessoa para ajudar outras – inclusive indivíduos diferentes daqueles que inicialmente lhe fizeram algum bem.
“A gratidão é uma emoção com componente social muito forte. Sentir-se grato aumenta a probabilidade de você ajudar outras pessoas – e não necessariamente a pessoa que te ajudou”, explica.
Esse comportamento poderia contribuir para a formação de uma espécie de cadeia de cooperação, na qual um gesto positivo favorece outros comportamentos de ajuda dentro de determinado grupo social.
A reciprocidade também foi um dos aspectos avaliados. O sentimento de gratidão pode despertar tanto uma experiência positiva quanto a percepção de que existe uma dívida em relação à pessoa responsável pelo benefício recebido.
Na avaliação dos pesquisadores, essa dinâmica ajuda a explicar por que a gratidão pode contribuir para a criação e o fortalecimento de vínculos sociais.
Cientistas querem entender diferenças entre países
Uma das próximas etapas será investigar por que determinadas práticas funcionam bem em alguns países e têm pouco efeito em outros.
Os cientistas querem compreender se essas diferenças estão diretamente relacionadas às normas sociais e características culturais ou se determinadas sociedades exigem formas específicas de estimular a gratidão.
Países como Noruega e Japão, onde os efeitos foram menores, estão entre os exemplos que despertaram o interesse da equipe.
O caráter internacional da pesquisa também procura enfrentar uma limitação histórica dos estudos sobre o tema. Segundo Boggio, aproximadamente metade das pesquisas sobre gratidão tem origem nos Estados Unidos.
Ao reunir participantes de 34 países, o trabalho amplia a diversidade cultural da amostra e permite investigar até que ponto os efeitos atribuídos à gratidão podem ser considerados universais.
Os dados brutos do estudo foram disponibilizados publicamente na Open Science Foundation.
O artigo A multinational megastudy of the effects of gratitude practices on subjective well-being foi publicado na revista científica PNAS.