Crise alimentar global atinge 266 milhões e revela avanço da fome impulsionada por guerras e colapso humanitário
Relatório da ONU aponta agravamento estrutural da insegurança alimentar, com conflitos como principal causa
O mundo enfrenta uma escalada dramática da fome, com 266 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar aguda em 2025, segundo o relatório Global Report on Food Crises 2026, produzido pela FAO, pelo Programa Mundial de Alimentos (WFP) e parceiros internacionais. O documento, que se tornou referência global no monitoramento da fome, revela não apenas a persistência da crise, mas sua intensificação em meio a conflitos, desigualdades e retração do apoio internacional.
Logo no prefácio, o secretário-geral da ONU, António Guterres, faz um alerta contundente: “a fome está sendo cada vez mais usada como arma de guerra”, evidenciando o caráter político e geopolítico da tragédia alimentar contemporânea.
Conflitos dominam e ampliam a fome no mundo
O relatório aponta que conflitos e insegurança foram o principal fator da fome em 2025, afetando mais de 147 milhões de pessoas — mais da metade dos casos globais. Países como Sudão, República Democrática do Congo, Iêmen, Afeganistão e Myanmar concentram as situações mais graves.
A dimensão do problema é agravada por um dado sem precedentes: a fome extrema (fase 5, equivalente à fome catastrófica) foi confirmada simultaneamente em duas regiões — Faixa de Gaza e Sudão. Trata-se da primeira ocorrência desse tipo desde o início das medições internacionais.
Mais de 1,4 milhão de pessoas vivem nessas condições extremas, nas quais há risco imediato de morte por inanição. Além disso, cerca de 39 milhões estão em situação de emergência alimentar, um estágio imediatamente anterior ao colapso total.
Sistema internacional falha diante da crise
O relatório também expõe uma contradição grave: enquanto a fome cresce, o financiamento humanitário global caiu para níveis semelhantes aos de 2016–2017. Essa retração ocorre justamente quando a demanda por ajuda atinge patamares históricos.
A redução de recursos tem impactos diretos: menor acesso a alimentos, interrupção de programas de assistência e, sobretudo, fragilização dos sistemas de monitoramento da fome, o que dificulta respostas rápidas e eficazes.
Segundo o documento, há uma “crise de dados” emergente, causada por falta de financiamento, restrições de acesso em áreas de conflito e perda de capacidade técnica. Isso compromete a tomada de decisões baseada em evidências.
Crise estrutural: clima, economia e desigualdade
Além dos conflitos, outros dois fatores estruturais impulsionam a fome global:
Eventos climáticos extremos, responsáveis por afetar cerca de 87,5 milhões de pessoas, incluindo secas severas, enchentes e ciclones;
Choques econômicos, que atingem quase 30 milhões, com inflação alimentar elevada, desvalorização cambial e queda do poder de compra.
Esses fatores se combinam e se retroalimentam. Em muitos países, a fome é resultado simultâneo de guerra, crise econômica e colapso climático, formando um cenário de vulnerabilidade permanente.
O relatório destaca ainda que mais de 80% das pessoas afetadas vivem em países em crises prolongadas, onde choques sucessivos impedem qualquer recuperação sustentável.
Infância e mulheres entre os mais atingidos
A crise alimentar global tem efeitos devastadores sobre os grupos mais vulneráveis. O relatório estima que:
35,5 milhões de crianças sofrem de desnutrição aguda;
Quase 10 milhões estão em estado grave;
9,2 milhões de mulheres grávidas ou lactantes também enfrentam desnutrição.
Esses números revelam um impacto intergeracional da crise, com consequências duradouras para saúde, desenvolvimento cognitivo e produtividade econômica.
Deslocamento forçado agrava a insegurança alimentar
Outro fator crítico é o deslocamento em massa. Em 2025, 85,1 milhões de pessoas estavam deslocadas à força em países com crise alimentar.
O relatório mostra que a fome é mais severa entre populações deslocadas do que entre residentes, refletindo a perda de renda, acesso a alimentos e redes de proteção social.
Concentração da fome em poucos países
A crise alimentar global é altamente concentrada. Apenas 10 países concentram dois terços das pessoas em situação de fome aguda. Entre eles estão Nigéria, Sudão, República Democrática do Congo, Afeganistão e Iêmen.
Em termos proporcionais, alguns países enfrentam níveis extremos:
Faixa de Gaza chegou a ter 100% da população em situação de crise alimentar;
Sudão do Sul e Iêmen têm mais da metade da população afetada.
Um alerta global e político
O relatório de 2026 reforça que a fome não é apenas um problema humanitário, mas também político e econômico. A escalada recente está diretamente ligada a guerras, instabilidade global e desigualdades estruturais.
Ao final, a mensagem central é clara: sem ação coordenada, investimento internacional e resolução de conflitos, a fome tende a se aprofundar ainda mais.
Mais do que um diagnóstico, o documento funciona como um alerta urgente sobre os rumos do sistema global — e sobre o risco de normalização de uma tragédia que atinge centenas de milhões de pessoas. www.brasil247.com