EUA ampliam sanções contra o Irã e ameaçam punir parceiros comerciais
Nova ofensiva de Washington atinge petróleo, tecnologia, ouro, aviação, ativos digitais e transporte marítimo e prevê sanções secundárias contra empresas e países que mantenham negócios com Teerã
Os Estados Unidos anunciaram uma nova rodada de sanções contra o Irã com o objetivo de restringir as fontes de receita externa do país e ampliar seu isolamento econômico. As medidas alcançam setores estratégicos, como petróleo, tecnologia, ouro, aviação, ativos digitais e transporte marítimo, e incluem a possibilidade de punições a empresas, bancos e outros agentes estrangeiros que mantenham determinadas relações comerciais com Teerã.
Apresentada na segunda-feira (24) pelo secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, a iniciativa recebeu o nome de “Operação Pária Econômico”. O pacote inclui sanções contra 60 pessoas, empresas e embarcações que, segundo Washington, estariam vinculadas às redes comerciais iranianas.
“Em todo o mundo, nosso objetivo é cortar cada linha de sustentação econômica que mantém esse regime tirânico até que Teerã fique sozinho”, declarou Bessent.
O secretário também advertiu que empresas estrangeiras envolvidas em operações destinadas a transformar petróleo iraniano em receitas poderão ser atingidas pelas medidas.
“Ninguém está acima do alcance das sanções dos Estados Unidos”, afirmou.
Cinco setores são alvo da ofensiva
A nova estratégia concentra-se especialmente em ativos digitais, tecnologia, ouro, aviação e transporte marítimo. Paralelamente, Washington pretende intensificar as restrições às exportações de petróleo, uma das principais fontes de divisas do Irã.
No segmento de ativos digitais, as medidas buscam atingir mecanismos utilizados para movimentar recursos fora do sistema financeiro tradicional. As restrições envolvendo ouro procuram dificultar operações usadas para preservar reservas de valor e realizar pagamentos internacionais.
No setor tecnológico, o governo estadunidense pretende limitar o acesso iraniano a equipamentos, materiais e componentes que, segundo Washington, poderiam ser utilizados em programas militares.
As medidas contra a aviação atingem companhias acusadas pelo Tesouro de transportar armas, militares e recursos destinados a organizações apoiadas pelo Irã. Já no transporte marítimo, o alvo são embarcações, administradores e empresas associados à exportação de petróleo e às operações da frota iraniana.
Teerã rejeita as acusações e afirma que Washington utiliza as sanções como instrumento de coerção econômica e política.
Empresas estrangeiras também podem ser punidas
Um dos pontos de maior alcance do pacote é a ameaça de sanções secundárias. Na prática, empresas e instituições financeiras de outros países podem sofrer restrições impostas pelos Estados Unidos mesmo quando suas operações com o Irã não passam diretamente pelo território estadunidense.
Entre os alvos anunciados estão empresas, pessoas e embarcações associadas a China, Hong Kong, Singapura, Emirados Árabes Unidos e Suíça.
A estratégia aumenta a pressão sobre companhias internacionais, que podem ser obrigadas a avaliar o risco de manter negócios com Teerã diante da possibilidade de perder acesso ao mercado e ao sistema financeiro dos Estados Unidos.
“Os que estiverem ao lado dos Estados Unidos colherão as recompensas de nossa parceria. Os que se vincularem ao regime iraniano devem esperar compartilhar de seu isolamento”, declarou Bessent.
Segundo o secretário, Washington pretende inicialmente dar a governos e empresas a oportunidade de interromper suas relações com os setores iranianos atingidos antes de avançar contra grandes instituições financeiras internacionais.
Exceções são suspensas
A ofensiva também suspendeu, por prazo indeterminado, autorizações que permitiam exceções a determinadas sanções. Entre as atividades afetadas estão intercâmbios acadêmicos, transferências pessoais de recursos e algumas iniciativas esportivas.
A decisão pode ampliar os efeitos das restrições para além dos setores energético e militar, criando dificuldades para remessas familiares e programas educacionais envolvendo cidadãos iranianos.
As sanções administradas pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (Ofac) normalmente bloqueiam bens e interesses sob jurisdição dos Estados Unidos e impedem cidadãos e empresas estadunidenses de negociar com pessoas ou organizações incluídas nas listas de restrições.
Instituições estrangeiras também podem ser atingidas caso Washington considere que prestaram apoio material ou financeiro aos sancionados.
Trump pressiona países a reduzir relações com Teerã
De acordo com Bessent, o presidente Donald Trump tem conversado com líderes estrangeiros e solicitado que governos reduzam ou encerrem determinadas relações econômicas com o Irã.
O secretário classificou a ofensiva como um “Dia D econômico”, numa referência ao desembarque das forças aliadas na França durante a Segunda Guerra Mundial.
A nova campanha aprofunda uma política de pressão que já envolve restrições aos setores petrolífero, bancário, marítimo e de comércio exterior iranianos.
Apesar dos impactos econômicos, analistas avaliam que a pressão exercida até agora não conseguiu provocar a mudança política pretendida por Washington.
O pesquisador Sina Toossi, do Center for International Policy, afirmou à Al Jazeera que as restrições prejudicaram especialmente as exportações de petróleo, mas não levaram Teerã a aceitar as exigências estadunidenses.
“O bloqueio claramente prejudicou o Irã, especialmente suas exportações de petróleo, mas não produziu o resultado político que Washington deseja. O Irã não capitulou”, afirmou.
Irã acusa EUA de coerção econômica
O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, rejeitou as novas medidas e lembrou que o país convive com sanções estadunidenses há décadas.
“Eles não conseguem pensar em nenhuma outra solução para confrontar o grande povo iraniano, por isso apresentam repetidamente os mesmos velhos planos”, declarou.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, também criticou a tentativa de Washington de pressionar empresas e governos de outros países. Segundo ele, a aplicação extraterritorial das sanções representa uma ameaça à soberania dos Estados.
O secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional iraniano, Mohsen Rezaei, elevou o tom e afirmou que países que participarem das restrições econômicas poderão ser considerados inimigos do Irã. Segundo ele, Teerã buscará inicialmente negociar com esses governos, mas poderá reagir caso considere seus interesses ameaçados.
China rejeita pressão de Washington
A China, principal destino do petróleo iraniano transportado por via marítima, também contestou a política estadunidense.
Dados da empresa de análise Kpler citados pela Al Jazeera indicam que o mercado chinês recebeu cerca de 80% das exportações marítimas de petróleo iraniano em 2025.
“A imposição de sanções e a pressão não ajudam a resolver a questão”, declarou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Lin Jian.
Pequim defende que as divergências sejam resolvidas por meios diplomáticos e políticos.
A eficácia da nova ofensiva dos Estados Unidos dependerá, em grande medida, da adesão dos principais parceiros econômicos do Irã. China e Rússia mantêm relações importantes com Teerã e desenvolveram mecanismos comerciais destinados a reduzir a dependência do sistema financeiro controlado pelo Ocidente.
A disputa, portanto, ultrapassa as relações entre Washington e Teerã. Ao ameaçar empresas e instituições de terceiros países com sanções secundárias, os Estados Unidos ampliam a pressão econômica sobre o Irã e colocam seus parceiros comerciais no centro de uma disputa com potenciais repercussões para o comércio e o sistema financeiro internacional.