Mercosul e Japão negociam acordo comercial: o que pode mudar para o Brasil?

Parceria prevê redução de tarifas, aumento de investimentos e maior cooperação tecnológica; especialista explica quem pode ganhar e quais os desafios da negociação

O Japão já é um dos principais parceiros comerciais do Mercosul, e o Brasil ocupa posição de destaque nessa relação. O país responde por 93% das exportações do bloco para o mercado japonês e concentra 77% das importações provenientes do Japão. Agora, essa parceria pode ganhar uma nova dimensão. Depois de estreitar o diálogo ao longo de 2025, Mercosul e Japão deram o primeiro passo formal para negociar uma Parceria Econômica mais ampla. O anúncio foi feito durante a Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul, realizada em Assunção, no Paraguai. O acordo vai além da redução de tarifas comerciais, inclui investimentos, inovação e cooperação tecnológica.

Embora as negociações ainda estejam em estágio inicial, Gleisse Alves, professora de Relações Internacionais do CEUB, avalia que o entendimento pode ampliar o acesso de empresas brasileiras ao mercado japonês, atrair investimentos e fortalecer a posição do Brasil nas cadeias globais de valor. “O Brasil e o Japão já mantêm uma parceria estratégica dentro do Mercosul. O que muda agora é a possibilidade de transformar essa relação em um vínculo econômico mais profundo. É uma negociação que pode ampliar a presença brasileira na Ásia e diversificar as oportunidades para a economia nacional.”

O que está sendo negociado?
As conversas envolvem a construção de uma Parceria Econômica, modalidade mais abrangente do que um acordo tradicional de livre comércio. Entre os pontos em discussão, estão a redução gradual de tarifas de importação, facilitação do comércio, estímulo aos investimentos, cooperação em tecnologia e inovação, comércio de serviços e mecanismos para tornar mais eficientes as cadeias produtivas entre os países. Na prática, isso pode reduzir custos para empresas, facilitar exportações brasileiras e ampliar a presença de produtos nacionais em um mercado de alto poder aquisitivo como o japonês.

Quem pode ganhar?
Entre os setores brasileiros que podem ser beneficiados estão o agronegócio, carnes, café, celulose, mineração, energia limpa, indústria automotiva, máquinas e equipamentos. A professora do CEUB destaca que o Japão tem interesse crescente em parceiros capazes de fornecer alimentos, minerais estratégicos e energia de forma segura e sustentável.

“O Japão possui poucos recursos naturais e depende fortemente das importações. Em um cenário de instabilidade internacional, diversificar fornecedores tornou-se uma prioridade. O Brasil reúne características que poucos países possuem: grande capacidade agrícola, produção mineral relevante e potencial para energias renováveis.” Além das exportações, a negociação também pode estimular novos investimentos japoneses em infraestrutura, indústria, inovação e transição energética no Brasil.

O consumidor também pode sentir os efeitos?
Embora o impacto mais imediato ocorra nas empresas exportadoras, os efeitos podem chegar ao consumidor ao longo do tempo. Mais investimentos tendem a estimular geração de empregos, aumento da produção e maior oferta de produtos. Em alguns segmentos, a redução de barreiras comerciais também pode ampliar a concorrência e favorecer preços mais competitivos. Por outro lado, alguns setores da indústria brasileira podem enfrentar maior competição com produtos japoneses, o que explica por que as negociações costumam ser longas e envolver diferentes interesses econômicos.

Por que o acordo acontece agora?
A negociação ocorre em momento de reorganização da economia mundial. As disputas comerciais entre Estados Unidos e China, os efeitos recentes sobre as cadeias globais de produção e a busca por maior segurança no abastecimento de alimentos, energia e matérias-primas levaram diversos países a buscar novos parceiros comerciais. Para a especialista do CEUB, esse contexto aumenta a importância estratégica do Mercosul. “O bloco passa a ser visto não apenas como fornecedor de commodities, mas como parceiro relevante para segurança alimentar, transição energética e minerais críticos. Isso amplia o interesse de economias desenvolvidas em fortalecer relações com a região.”

Quais são os desafios?
Apesar das oportunidades, um acordo dessa dimensão exige negociações complexas.
Entre os temas considerados mais sensíveis estão a abertura do mercado automotivo, regras sanitárias, exigências ambientais, propriedade intelectual, compras governamentais e os prazos para redução das tarifas de importação. “O maior desafio será construir um acordo que aumente a competitividade do Mercosul sem comprometer setores estratégicos da economia. É um processo de equilíbrio entre abertura comercial e proteção de segmentos mais vulneráveis”, afirma a professora.

O Brasil está preparado?
Na avaliação da especialista do CEUB, o país reúne vantagens competitivas importantes, mas ainda precisa superar gargalos internos para aproveitar plenamente uma eventual parceria. “O Brasil possui potencial para ocupar posição estratégica nas cadeias globais de valor. Mas isso depende de investimentos em infraestrutura, inovação, qualificação da mão de obra, segurança jurídica e melhoria do ambiente de negócios. O acordo pode abrir portas, mas será a competitividade do país que determinará o tamanho dos benefícios”, acrescenta Gleisse. Sem prazo para conclusão, as negociações devem avançar nos próximos meses.