Trump usa ameaça comercial contra a França para tentar viabilizar conselho internacional proposto pelos EUA
Presidente norte-americano fala em tarifa de 200% sobre vinhos e champanhes franceses como forma de pressionar Emmanuel Macron; iniciativa gera resistência na Europa e cautela entre líderes convidados.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a recorrer à retórica comercial como instrumento de pressão diplomática ao afirmar que poderá impor uma tarifa de 200% sobre vinhos e champanhes da França. Segundo ele, a medida serviria para forçar o presidente francês, Emmanuel Macron, a aderir ao chamado “Board of Peace” (“Conselho da Paz”), proposta lançada por Trump para atuar na mediação de conflitos internacionais.
As declarações foram feitas em Washington no domingo (19) e divulgadas pela agência Reuters. O comentário ocorre em meio a reações cautelosas de governos e diplomatas ao convite enviado pelos Estados Unidos a dezenas de países para integrar o novo conselho. Entre os convidados está o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, segundo interlocutores, ainda avalia a proposta.
De acordo com Trump, a taxação teria um objetivo explícito: pressionar Paris a mudar de posição. Questionado sobre a recusa francesa, o presidente norte-americano adotou tom provocativo e fez ataques pessoais ao chefe de Estado europeu. Disse que Macron “estará fora do cargo muito em breve” e que ninguém se importaria com sua ausência no conselho.
Na sequência, Trump reforçou a ameaça ao citar diretamente produtos emblemáticos da economia francesa. A escolha por vinhos e champanhes, itens de forte valor simbólico e econômico, evidencia a intenção de gerar impacto político interno e desconforto no setor exportador do país europeu. A estratégia se insere em um padrão já conhecido de sua atuação: o uso de barreiras comerciais como alavanca para obter ganhos políticos imediatos, inclusive em relação a aliados históricos dos Estados Unidos.
Apesar da pressão pública, a França sinalizou que não pretende aderir à iniciativa neste momento. Um interlocutor próximo ao governo francês afirmou à Reuters que Paris deve recusar o convite “neste estágio”, indicando resistência a um arranjo cujos objetivos, regras e efeitos diplomáticos ainda são considerados pouco claros. A reação francesa sugere que a tentativa de coerção pode, ao contrário do esperado, consolidar resistências dentro da União Europeia.
A proposta do “Conselho da Paz” foi apresentada inicialmente por Trump em setembro do ano passado, no contexto de um plano para encerrar a guerra em Gaza. Desde então, o escopo da iniciativa foi ampliado. Segundo a carta-convite enviada recentemente a líderes mundiais, o conselho teria como missão atuar na resolução de conflitos em escala global.
Essa ampliação é um dos principais pontos de controvérsia. Diplomatas ouvidos pela Reuters avaliam que a iniciativa pode se sobrepor a mecanismos multilaterais já existentes, especialmente à Organização das Nações Unidas, enfraquecendo processos consolidados de mediação internacional. A preocupação não é apenas institucional, mas também política: fóruns paralelos, quando liderados por uma potência específica, tendem a reproduzir assimetrias de poder.
Outro elemento que gera desconforto é o modelo de adesão. Uma minuta de carta vista pela Reuters prevê que países que desejarem permanecer no conselho por mais de três anos teriam de contribuir com US$ 1 bilhão. A exigência financeira é interpretada por críticos como uma barreira que hierarquiza os participantes e transforma a iniciativa em um clube restrito, no qual influência e permanência estariam diretamente ligadas à capacidade de aporte econômico.
Trump também afirmou que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, foi convidado a integrar o conselho. A menção a Moscou adiciona uma camada geopolítica sensível à proposta. Embora possa ser apresentada como sinal de pragmatismo, a inclusão de um ator central em conflitos recentes aumenta a desconfiança de governos europeus sobre a neutralidade e os reais objetivos do novo fórum.
Ao associar uma agenda de “paz” à ameaça de sanções comerciais, Trump desloca o debate diplomático para um terreno de confronto econômico. A estratégia levanta questionamentos sobre a coerência da iniciativa e seus possíveis efeitos colaterais, como retaliações comerciais e novos atritos entre aliados.
Com a França indicando que não pretende aderir no curto prazo, a ameaça de tarifas sobre vinhos e champanhes se transforma em um teste político. Mais do que medir a disposição de Macron, o episódio avalia até que ponto a comunidade internacional aceitará que um projeto apresentado como instrumento de pacificação global seja impulsionado por pressão econômica e ataques pessoais entre chefes de Estado.