Xi deve cobrar de Trump suspensão da venda de armas a Taiwan

Presidente chinês deve usar acordo de 1982 para pressionar Washington durante visita, enquanto pacote militar de US$ 14 bilhões para a ilha segue pendente

O presidente da China, Xi Jinping, deve pressionar o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a suspender as vendas de armas a Taiwan durante a visita que fará a Washington nesta semana. Segundo a Reuters, três fontes familiarizadas com as negociações preparatórias afirmaram que Pequim pretende usar como argumento um comunicado bilateral firmado em 1982.

A cobrança ocorre enquanto permanece indefinido o destino de um novo pacote de armamentos americanos estimado em US$ 14 bilhões para Taiwan. A China também deve pedir a suspensão das entregas de equipamentos militares já adquiridos pela ilha.

Em contrapartida, Pequim poderia colaborar na busca de uma solução política para encerrar a guerra dos Estados Unidos com o Irã, segundo as fontes ouvidas pela Reuters, que falaram sob condição de anonimato devido à sensibilidade das negociações.

Xi deve chegar a Washington na quarta-feira (23) e se reunir com Trump na quinta-feira (24). Na sexta-feira (25), o presidente chinês tem prevista uma visita aos Arquivos Nacionais dos Estados Unidos, onde poderá abordar o documento firmado em 1982.

O comunicado citado por Pequim foi o terceiro de uma série de acordos entre Washington e Pequim. O texto registra a intenção dos Estados Unidos de reduzir gradualmente as vendas de armas a Taiwan e de não manter esse tipo de fornecimento no longo prazo.

A interpretação chinesa, no entanto, encontra uma ressalva em um memorando complementar assinado pelo então presidente americano Ronald Reagan. O documento condicionava a redução das vendas ao compromisso contínuo da China com uma solução pacífica para as divergências envolvendo Taiwan.

A questão ocorre em meio à intensificação das atividades militares chinesas ao redor da ilha nos últimos cinco anos, incluindo exercícios com lançamento de mísseis. As Forças Armadas chinesas realizam operações nas proximidades de Taiwan com frequência quase diária.

Pacote de US$ 14 bilhões está pendente

O governo Trump aprovou, em dezembro, um pacote de US$ 11 bilhões em armamentos para Taiwan, considerado o maior já autorizado pelos Estados Unidos. Uma nova operação, estimada em aproximadamente US$ 14 bilhões, está paralisada há meses.

Após uma reunião com Xi em Pequim, em maio, Trump afirmou que mantinha a decisão suspensa e classificou o pacote como uma “ótima moeda de troca”.

Um representante da Casa Branca disse à Reuters que Trump pretende decidir sobre as novas vendas em um prazo relativamente curto. Segundo o funcionário, o presidente americano autorizou, durante seu primeiro mandato, mais vendas de armas a Taiwan do que qualquer antecessor e, no primeiro ano do segundo mandato, já teria superado o volume aprovado durante os quatro anos do governo de Joe Biden.

O Ministério das Relações Exteriores de Taiwan afirmou que acompanha de perto os contatos de alto nível entre Washington e Pequim e mantém uma “comunicação sólida” com os Estados Unidos.

O governo chinês não respondeu aos questionamentos da Reuters. Na terça-feira (22), o Diário do Povo, jornal oficial da China, advertiu que uma condução inadequada da questão de Taiwan poderia levar as relações entre os dois países a uma “situação muito perigosa”.

Republicanos defendem apoio a Taiwan

Às vésperas da reunião entre Trump e Xi, parlamentares republicanos defenderam a manutenção dos compromissos americanos com Taiwan e rejeitaram a pressão chinesa para limitar a cooperação militar com a ilha.

O senador Pete Ricketts, presidente do subcomitê de Relações Exteriores do Senado para o Leste Asiático, afirmou na semana passada, durante evento no Instituto Hudson, que Washington deveria deixar clara a continuidade de sua política em relação a Taiwan.

Em carta enviada a Trump na sexta-feira (18), o deputado John Moolenaar, presidente da comissão especial da Câmara dos Representantes sobre a China, afirmou que as objeções de Pequim às vendas de armas e à cooperação de segurança dos Estados Unidos com Taiwan e outros aliados asiáticos deveriam ser rejeitadas.

Matt Pottinger, ex-vice-assessor de Segurança Nacional no primeiro governo Trump, disse em um fórum de defesa realizado em Taipei no sábado (19) que não esperava resultados substanciais sobre Taiwan durante os encontros desta semana.

Acordos de 1982

Além do comunicado que Pequim pretende utilizar nas negociações, a política americana em relação a Taiwan também inclui as chamadas “Seis Garantias”, formuladas em 1982 e divulgadas integralmente apenas em 2020.

As garantias estabelecem, entre outros pontos, que Washington não definiu uma data para encerrar as vendas de armas a Taiwan nem concordou em consultar previamente Pequim sobre essas operações.

Os Estados Unidos não mantêm relações diplomáticas formais com Taiwan, mas sua legislação prevê o fornecimento de meios para que a ilha possa manter sua capacidade de defesa.

Dentro da política americana de “uma só China”, Washington não reconhece formalmente Taiwan como Estado independente. Os Estados Unidos reconhecem a posição de Pequim de que Taiwan faz parte do território chinês, mas não a endossam.

A China considera Taiwan parte de seu território e classifica a questão como um de seus temas diplomáticos mais sensíveis. O governo de Taiwan, por sua vez, rejeita a reivindicação de soberania feita por Pequim.