O que o caso Havaianas nos ensina sobre Risco Político

Eduardo Galvão é diretor da consultoria global Burson, professor de Políticas Públicas no Ibmec e autor de Riscos Políticos na América Latina e Estratégias para Multinacionais.

Um episódio envolvendo uma peça publicitária gerou intenso debate nas redes sociais e rapidamente transbordou para o noticiário político e econômico. E não pelo conteúdo em si. O que chamou atenção foi a velocidade com que uma mensagem originalmente neutra passou a ser interpretada sob lentes ideológicas distintas, produzindo ruído reputacional e disputas de narrativa.

Esse tipo de situação não é isolado. E revela algo mais profundo sobre o ambiente político em que vivemos.

Ao longo dos últimos anos, tenho acompanhado de perto como o debate público se transformou. Termos como “direito”, “esquerda”, “valores”, “liberdade” ou “justiça” deixaram de ser apenas palavras do vocabulário comum e passaram a funcionar, muitas vezes, como gatilhos simbólicos. Antes mesmo de qualquer contextualização, ativam reações automáticas, alinhamentos identitários e disputas de sentido.

Nesse cenário, o risco político não nasce necessariamente de uma decisão estratégica, de um posicionamento institucional ou de uma relação formal com o Estado. Ele pode surgir da interpretação, da apropriação e da circulação fragmentada de mensagens em um ambiente altamente polarizado.

O novo perímetro do risco político

Quando falamos em risco político no mundo corporativo, normalmente pensamos em mudanças regulatórias, decisões governamentais, instabilidade institucional ou conflitos entre poderes. Esses fatores continuam centrais, mas já não são suficientes para explicar o mundo de hoje.
Existe um risco político de natureza simbólica, difusa e descentralizada. Ele emerge da interação entre redes sociais, atores políticos, audiências engajadas e ciclos de atenção cada vez mais curtos. Não depende de intenção, mas de leitura. Não exige posicionamento explícito, apenas ambiguidade suficiente para ser capturada por narrativas externas.
Para marcas de consumo de massa e organizações com grande exposição pública, isso amplia significativamente o perímetro de atenção. A pergunta deixa de ser apenas “o que estamos dizendo?” e passa a incluir “como isso pode ser lido, recortado e ressignificado em diferentes contextos políticos?”.

Relações Institucionais em um ecossistema ampliado

Esse movimento redefine o papel das Relações Institucionais. Elas já não se limitam ao relacionamento com Executivo, Legislativo ou da sociedade civil organizada. O campo hoje envolve um ecossistema mais amplo, que inclui:
• parlamentares atuando diretamente nas redes sociais,
• influenciadores com forte capacidade de mobilização,
• audiências politizadas e organizadas em comunidades digitais, e
• meios de comunicação que operam sob forte pressão de engajamento.
Na prática, isso significa que episódios culturais, publicitários ou comunicacionais podem ser rapidamente incorporados ao debate político, mesmo quando não têm essa origem. Ignorar esse ecossistema é um erro. Reagir de forma impulsiva a ele, também.

Reputação como ativo político

Outro ponto relevante é entender reputação não apenas como um ativo de marca, mas como um ativo político indireto. Ruídos simbólicos, mesmo quando não se transformam em crises clássicas, afetam previsibilidade, confiança e qualidade do diálogo institucional.
Em ambientes polarizados, reputação funciona como amortecedor ou amplificador de tensões. Quanto mais sólida e coerente for a percepção institucional, maior a capacidade de atravessar episódios de ruído sem perda estrutural de credibilidade. Isso não tem relação com aderir a posições ideológicas, mas com consistência, clareza e governança.

Public Affairs preventivo

É aqui que Public Affairs e Relações Institucionais mostram seu valor estratégico. Não como áreas reativas, acionadas apenas quando o problema já está instalado, mas como funções preventivas, integradas à tomada de decisão.
Na minha experiência, estratégias bem desenhadas ajudam a antecipar leituras adversariais, mapear ambiguidades simbólicas e testar narrativas sob diferentes lentes políticas e sociais. Isso não elimina riscos, mas reduz surpresas e evita respostas desproporcionais que, muitas vezes, ampliam o problema.
Mais do que “controlar” o debate, é necessário compreendê-lo. Mais do que silenciar, trata-se de comunicar com inteligência política.

Quando risco vira oportunidade

Ambientes polarizados são desafiadores, mas também funcionam como catalisadores de amadurecimento institucional. Eles forçam organizações a integrar áreas, fortalecer governança, investir em inteligência de contexto e desenvolver uma visão mais sofisticada sobre o ambiente político em que operam.
A principal lição não é comunicar menos, nem se retrair do espaço público. É comunicar melhor, com consciência de que palavras carregam significados que extrapolam sua intenção original.
Em um ambiente em que linguagem virou campo de disputa, a maturidade institucional passa por reconhecer que o risco político não está apenas nas decisões que tomamos, mas também nas leituras que fazemos, e nas que outros fazem por nós. É nesse ponto que Relações Institucionais e Public Affairs deixam de ser um custo defensivo e se tornam uma vantagem estratégica real.