Audiência pública expõe situação de crise na educação municipal em Goiânia
A Câmara Municipal de Goiânia realizou, nesta quinta-feira (6), uma audiência pública para discutir os desafios enfrentados pela rede municipal de ensino. O evento reuniu vereadores, especialistas, educadores e representantes da sociedade civil para debater a falta de vagas em creches e pré-escolas, a suspensão do programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA) e as dificuldades enfrentadas pela educação infantil no município.
O vereador Professor Edward (PT), presidente da Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia, destacou a necessidade de olhar a educação como um todo, reforçando que os problemas estruturais afetam todas as etapas do ensino. “O problema é muito mais complexo. A educação não é feita em pedaços, ela começa na primeira infância e se estende pela vida toda, inclusive para aqueles que foram excluídos do sistema educacional e são atendidos pelo EJA”, afirmou.
A vereadora Kátia Maria (PT), autora da audiência, criticou a atual gestão municipal pela falta de investimentos na educação infantil. “A atual gestão está transformando os CMEIs em depósito de crianças”, denunciou.
Os vereadores Fabrício Rosa (PT) e Oséias Varão (PL) também participaram do debate. Fabrício Rosa chamou atenção para a precariedade dos Conselhos Tutelares na cidade, que impacta diretamente a proteção da infância. “A norma federal diz que Goiânia deveria ter 15 Conselhos Tutelares.
Goiânia tem seis. Isso é muito pouco! A gente quer dizer para os liberais que vamos alcançar, porque nós vamos denunciar esse absurdo e também os outros absurdos, como a fusão das secretarias que representam direitos históricos da assistência social e dos direitos humanos.”
Especialistas presentes apontaram falhas na gestão orçamentária da educação municipal. O professor da UFG e presidente da Fineduca, Nelson Cardoso, defendeu a necessidade de garantir uma dotação orçamentária específica para a primeira infância. “Se o orçamento da primeira infância não tiver dotação específica, nós não iremos avançar muito. O lugar da educação infantil é dentro do orçamento”, afirmou.
A falta de adesão do município a programas federais também foi alvo de críticas. Lueli Nogueira Duarte e Silva, diretora da Faculdade de Educação da UFG, destacou que Goiânia perdeu recursos por não aderir a políticas do Ministério da Educação. “Há uma série de programas voltados para escolas, para reformas de escola, para vagas de educação infantil. Mas é preciso que haja adesão. Nós assistimos, ao final do ano, a problemática em relação à educação integral. Goiânia foi o único município do país que não tinha feito adesão à educação integral, com verba específica para isso.”
A audiência também abriu espaço para relatos de estudantes impactados pela falta de estrutura e políticas públicas para a educação. Eliane Moraes Pereira, aluna do EJA, compartilhou sua experiência e as dificuldades enfrentadas por quem depende da modalidade. “Eu passei 38 anos sem poder estudar, e o meu sonho era conseguir estudar. Eu sou autista, não consigo estudar pelo celular, online, eu preciso do estudo presencial.”
As falas e participações registradas na audiência servirão de base para o acompanhamento e fiscalização da educação municipal. O compromisso dos vereadores Kátia Maria, professor Edward, assim como da Comissão de Educação, é garantir que as demandas apresentadas se traduzam em medidas concretas para tornar o ensino público mais digno e eficiente para estudantes, famílias e servidores da educação.
Ao encerrar o encontro, o vereador Professor Edward reforçou a importância do debate e da mobilização. “Esta audiência cumpre a sua função e fico muito feliz da gente ter tido essa tarde aqui, com tantas contribuições, para refletir sobre a educação”.