Herança política, quarto mandato e IA: o que torna esta eleição diferente e pode pesar no segundo turno
Professor do CEUB analisa novidades da disputa e aponta propostas, rejeição e transferência de votos como desafios para Lula e Flávio Bolsonaro
Um filho que assume o lugar do pai como principal nome da oposição, um presidente que busca o quarto mandato e uma campanha com novas regras para inteligência artificial. Esses elementos tornam a eleição de 2026 singular e ajudam a explicar os desafios dos presidenciáveis Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro até o segundo turno. Para o professor de Direito Eleitoral do Centro Universitário de Brasília (CEUB) Alessandro Costa, a reta final reúne dois desafios: ampliar o apoio das bases e transformar preferência em voto.
“Várias questões são inéditas nessa eleição. As novidades envolvem tanto os perfis dos candidatos quanto a forma como a campanha chega ao eleitor”, avalia Costa. Para o especialista, detalhar propostas, responder a questionamentos e reduzir resistências pode fazer diferença até a escolha do próximo presidente, dentro de três semanas. “Após a ausência nos debates do primeiro turno, os candidatos do PT e PL devem abrir mais espaço para a comparação dos planos de governo”.
Flávio disputa com a herança política do pai
Costa aponta como uma das principais particularidades a candidatura de Flávio Bolsonaro no lugar de Jair Bolsonaro, impedido de concorrer. Para o professor, a disputa testa a capacidade de um herdeiro político e familiar de representar o eleitorado do principal líder de seu campo. Na avaliação dele, Flávio conseguiu receber o apoio de parte importante dos eleitores do pai, uma transferência que não ocorre automaticamente na política.
Ao mesmo tempo, a campanha procura construir uma apresentação própria do candidato. Costa cita a propaganda final do primeiro turno, que destacou Tarcísio de Freitas e Nikolas Ferreira, como um sinal dessa estratégia. Até o segundo turno, o desafio será ampliar esse apoio. Segundo o professor do CEUB, Flávio também atrai eleitores que não têm necessariamente identificação com o bolsonarismo, mas se posicionam contra o PT.
Lula tenta transformar experiência em novo mandato
Do outro lado, Lula busca um quarto mandato presidencial, após as vitórias nas eleições de 2002, 2006 e 2022. Costa destaca essa tentativa como outro elemento singular da disputa. Para o professor, a experiência e o reconhecimento público são ativos importantes do petista. Sua trajetória permite sustentar uma base de apoio construída ao longo de décadas e defender a continuidade de programas e políticas de governo.
Essa mesma exposição, porém, traz desgaste. Na avaliação de Costa, Lula precisa convencer o eleitor de que um novo mandato pode oferecer respostas às demandas atuais, além de mobilizar quem já apoia sua candidatura. “O mais prejudicial para Lula é exatamente o que lhe faz ser marcante, que é o desgaste de um governo já muito conhecido dos brasileiros”, afirma.
Ausência nos debates deixa propostas em evidência
Costa considera a ausência dos principais concorrentes nos debates do primeiro turno uma das marcas da eleição. Para ele, o eleitor perdeu oportunidades de acompanhar os candidatos respondendo ao vivo a adversários e jornalistas. “Não ter visto isso em relação aos candidatos mais bem colocados faz com que o eleitor não tenha tido a chance de confrontar propostas para ver se eram propostas vazias, se eram propostas viáveis”, diz.
Nas próximas semanas, a apresentação dos planos de governo pode ajudar a esclarecer as diferenças entre as candidaturas. Na leitura do professor, Lula concentra seu discurso na continuidade, nos programas sociais e na proteção da população de baixa renda. Flávio aposta na mudança, com destaque para custo de vida e segurança. O confronto dessas prioridades permite avaliar como cada candidato pretende transformar promessas em ações e sustentar seus argumentos diante de críticas.
Inteligência artificial traz novas regras para a campanha
Outra novidade é a aplicação, em uma eleição geral, de regras sobre inteligência artificial que foram ampliadas desde o pleito municipal de 2024. Para 2026, o TSE estabeleceu restrições à publicação, republicação e ao impulsionamento de novos conteúdos sintéticos que utilizem imagem, voz ou manifestação de candidatos ou pessoas públicas nas 72 horas anteriores e nas 24 horas posteriores ao pleito, mesmo quando identificados como produzidos por IA. Costa destaca que esse conjunto de normas acrescenta uma dimensão tecnológica à disputa. Além da apresentação de propostas, as campanhas precisam observar os limites de uso dessas ferramentas na comunicação com o eleitor.
Rejeição e transferência de votos podem pesar no resultado
Na avaliação do professor, a eleição é marcada pela “polarização negativa”: parte do eleitorado escolhe um candidato principalmente para impedir a vitória do adversário. “O eleitor vai escolher muitas vezes contra alguém, não a favor de um candidato, mas contra o outro que ele não quer”, afirma. Nesse cenário, conquistar eleitores de outras candidaturas será um desafio central. Costa avalia que parte dos votos da terceira via pode ter maior proximidade com Flávio, mas trata essa transferência como uma tendência, não como um resultado garantido.
Para Lula, o professor do CEUB destaca a importância de mobilizar os eleitores mais velhos. Mulheres e indecisos também aparecem entre os grupos capazes de influenciar uma disputa apertada. “O comparecimento, penso eu, principalmente dos idosos, e a migração dos votos da terceira via no segundo turno vão pesar para a decisão dessa eleição”, finaliza o jurista.