Mais da metade dos casos de câncer de pênis está associada ao HPV

Estudo indica maior risco de infecção oral persistente em homens; especialista alerta para evolução silenciosa e reforça importância da vacinação

Embora frequentemente associado à saúde feminina, o HPV (Papilomavírus Humano) também representa um risco relevante para os homens e pode evoluir de forma silenciosa para doenças graves, como câncer de pênis, anal e de orofaringe (garganta). Considerada uma das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) mais comuns, a infecção muitas vezes não apresenta sintomas, o que pode favorecer a transmissão e dificultar o diagnóstico precoce.

Segundo o urologista Leandro Ferro, da Hapvida, o HPV pode trazer impactos importantes para a saúde masculina. “O vírus pode provocar lesões na região genital, que também podem facilitar a entrada de outras infecções sexualmente transmissíveis”, explica.
O HPV também está associado ao câncer de pênis. Estudos indicam que cerca de 53% dos casos desse tipo de tumor apresentam presença do vírus. Além disso, os homens desempenham papel importante na cadeia de transmissão. “Por ser uma infecção sexualmente transmissível, o homem pode transmitir o vírus para a parceira, e o HPV está diretamente relacionado ao câncer de colo do útero”, destaca o especialista.

Além da região genital, o HPV pode infectar outras áreas do corpo. Pesquisas recentes apontam uma associação crescente entre o vírus e tumores na cavidade oral, como câncer de boca, língua e garganta.
Dados divulgados pela Sociedade Brasileira de Urologia – Seção São Paulo, com base em estudo publicado em 2025, indicam que homens podem apresentar maior taxa de infecção oral persistente por HPV em comparação às mulheres, o que pode aumentar o risco de câncer na região da orofaringe. Essa área inclui a base da língua, amígdalas e palato mole, regiões cuja anatomia pode favorecer a permanência do vírus por períodos prolongados.

Sintomas podem passar despercebidos
Nos homens, um dos sinais mais comuns da infecção é o surgimento de verrugas na região genital, que podem passar despercebidas ou não receber a devida atenção.
Segundo Leandro Ferro, não é incomum que essas lesões sejam identificadas apenas durante consultas médicas. “Durante o exame físico, é possível encontrar verrugas que o paciente não percebeu ou não valorizou. Muitas dessas lesões estão associadas ao HPV”, afirma.
O diagnóstico costuma ser clínico, realizado por meio do exame físico e da identificação de lesões características. Em alguns casos, podem ser solicitados exames complementares, como peniscopia ou testes laboratoriais, embora não sejam rotineiros em todos os cenários. “Apesar da ampla circulação do vírus, nem todos os tipos de HPV estão relacionados ao desenvolvimento de câncer. Existem diversas variantes, mas apenas alguns tipos são considerados de alto risco”, completa.

Evolução pode ser gradual
Na maioria dos casos, a progressão da infecção para o câncer ocorre de forma lenta. As manifestações iniciais podem surgir como pequenas lesões verrucosas que, sem acompanhamento, podem evoluir ao longo do tempo.
“Essa evolução costuma ser gradual e, muitas vezes, silenciosa. Em alguns casos, pode haver progressão para câncer, especialmente na ausência de diagnóstico e acompanhamento”, explica o urologista.
Quando identificado precocemente, o HPV pode ser tratado. As abordagens incluem a remoção de verrugas ou lesões, por meio de procedimentos médicos, cauterização ou uso de medicamentos tópicos.

Diagnóstico tardio ainda é desafio
O diagnóstico tardio ainda é um dos principais fatores associados aos casos mais graves de câncer de pênis no Brasil. Muitos homens demoram a buscar atendimento por vergonha, desconhecimento ou receio.
Segundo o especialista, em parte dos casos, a doença é identificada em estágios mais avançados, o que pode dificultar o tratamento. “Em situações mais avançadas, podem ser necessários procedimentos cirúrgicos mais extensos para o controle do tumor. Por isso, o diagnóstico precoce é fundamental”, alerta.

Prevenção e vacinação
Especialistas destacam que ampliar a informação sobre o HPV entre os homens é essencial para reduzir estigmas e incentivar a prevenção.
O uso de preservativo é uma medida importante para reduzir o risco de infecções sexualmente transmissíveis, embora não elimine completamente a possibilidade de transmissão do HPV, já que o vírus pode ser transmitido pelo contato com áreas não cobertas.
A vacinação também é considerada uma estratégia relevante. “A imunização ajuda a proteger contra os tipos de HPV associados ao câncer e contribui para reduzir a transmissão”, afirma o urologista.
Segundo o especialista, a combinação de informação, vacinação e acompanhamento de saúde é fundamental. “Quanto mais cedo há identificação e orientação adequada, maiores são as chances de manejo eficaz e de preservação da qualidade de vida”, conclui.