Millena Brandão e o alerta silencioso: o que a ciência diz sobre tumores cerebrais infantis?

Millena Brandão e o alerta silencioso: o que a ciência diz sobre tumores cerebrais infantis?
A morte precoce da atriz mirim Millena Brandão, aos 11 anos, deixou o Brasil em estado de comoção. Uma menina aparentemente saudável, ativa na TV e redes sociais, diagnosticada subitamente com um tumor cerebral de 5 centímetros, que evoluiu para 12 paradas cardiorrespiratórias e morte encefálica em menos de uma semana. Mas afinal, como isso pode acontecer tão rápido? Existe prevenção? Quais são os sinais de alerta?

O neurocientista Dr. Fabiano de Abreu Agrela, membro da Society for Neuroscience dos EUA e doutor em neurociências com pesquisas em genética e cognição, esclarece os principais pontos que envolvem casos como o de Millena.

“A primeira coisa que precisamos entender é que tumores cerebrais em crianças não são raros. Eles representam o segundo tipo de câncer mais comum na infância, atrás apenas das leucemias. E o mais preocupante: eles nem sempre dão sinais evidentes no início”, explica o especialista.

Como surgem esses tumores?
Diferente dos tumores em adultos, que costumam ter causas associadas a fatores ambientais ou hábitos de vida, nos casos infantis a causa geralmente está relacionada a alterações genéticas espontâneas, ocorridas ainda durante o desenvolvimento fetal.

“Alguns tumores se formam a partir de células do sistema nervoso central que deveriam parar de se multiplicar, mas não param. Em vez disso, crescem descontroladamente. Isso pode acontecer mesmo sem histórico familiar ou exposição a fatores de risco. É um erro genético que a medicina ainda estuda profundamente”, esclarece Dr. Fabiano.

Sinais de alerta que os pais devem observar
Segundo o especialista, dores de cabeça persistentes e progressivas são um dos principais sinais de alerta. Mas nem toda dor de cabeça é um sintoma de tumor, e isso também precisa ser dito com clareza.

Outros sintomas que merecem atenção:

Náuseas ou vômitos matinais sem causa aparente

Visão turva ou dupla

Dificuldades motoras ou de equilíbrio

Alterações de comportamento ou irritabilidade constante

Crises convulsivas recentes

Sonolência excessiva

“No caso da Millena, a mãe relatou que tudo começou com uma dor de cabeça intensa. Isso, isoladamente, pode passar despercebido. Mas quando se associa à piora clínica rápida, o alerta precisa soar alto”, destaca o neurocientista.

Por que a evolução foi tão rápida?
Tumores cerebrais podem ser classificados entre de crescimento lento (benignos) e de crescimento acelerado (malignos ou agressivos). Em crianças, especialmente entre os 5 e 14 anos, alguns tipos como meduloblastoma, glioblastoma e ependimoma podem crescer em poucos dias, ocupando áreas críticas do cérebro.

“Quando um tumor exerce pressão sobre regiões vitais, como o tronco encefálico, ele pode desencadear crises de pressão intracraniana, comprometer centros respiratórios e cardíacos. Isso explica as múltiplas paradas cardiorrespiratórias no caso da atriz”, explica Dr. Fabiano.

Existe prevenção?
Infelizmente, a maioria dos tumores cerebrais em crianças não pode ser prevenida, justamente porque nascem de mutações espontâneas. O que pode — e deve — ser feito é detecção precoce. Isso depende da escuta atenta dos pais, professores e profissionais de saúde.

“Ao menor sinal de sintomas persistentes que afetam o comportamento, o sono ou a consciência da criança, exames de imagem como a ressonância magnética devem ser considerados. O custo é alto, sim. Mas o custo de ignorar pode ser irreparável.”

Finaliza Dr. Fabiano:
“Millena merece ser lembrada não só como uma atriz talentosa, mas como um alerta silencioso para todos nós. É preciso desmistificar o câncer infantil e informar com base científica. Isso salva vidas.” Fonte:
MF Press Global