BC aprovou compra de banco por Vorcaro após rejeição oito meses antes
O Banco Central autorizou, em 14 de outubro de 2019, a transferência de controle do Banco Máxima — que posteriormente deu origem ao Banco Master — para o empresário Daniel Vorcaro. A decisão ocorreu durante a gestão de Roberto Campos Neto e veio oito meses após a mesma operação ter sido negada, em fevereiro daquele ano, quando o órgão era presidido por Ilan Goldfajn.
De acordo com informações divulgadas pela Folha de S.Paulo, tanto a rejeição quanto a aprovação foram decididas por unanimidade pela diretoria colegiada da instituição.
A mudança de entendimento ocorreu após revisão técnica do caso. Na nova análise, o Banco Central concluiu que Vorcaro comprovou capacidade econômica e a origem dos recursos utilizados na aquisição. Na avaliação anterior, porém, técnicos haviam identificado inconsistências relevantes, especialmente relacionadas à procedência do dinheiro, o que levou ao indeferimento do pedido.
Suspeitas na primeira análise
Na proposta inicial, apresentada entre 2017 e o início de 2019, persistiam dúvidas sobre o financiamento da operação. Técnicos apontaram indícios de “circularização” de recursos — hipótese de que o próprio Banco Máxima estaria sendo usado para viabilizar sua compra.
Diante dessas incertezas, o Banco Central considerou que os requisitos econômicos não haviam sido atendidos, interrompendo a análise antes de avaliar critérios como reputação. A negativa foi relatada por Sidnei Corrêa Marques, então diretor de Organização do Sistema Financeiro e Resolução.
Na época, o Banco Máxima, controlado por Saul Dutra Sabbá, enfrentava dificuldades financeiras e risco de liquidação, e a entrada de um novo controlador era vista como alternativa para reequilibrar a instituição.
Nova proposta e ajustes
Após a rejeição, Vorcaro reapresentou o pedido em abril de 2019, com mudanças na estrutura da operação e inclusão de novos sócios. A proposta atualizada trouxe balanços auditados da Viking Participações — empresa com ativos como aeronaves, imóveis e fundos — além de ajustes fiscais e a contratação de empréstimos para viabilizar o aporte.
Também foram adquiridas letras financeiras subordinadas, instrumento que permite captação com possibilidade de conversão em capital. Com essas alterações, a área técnica passou a considerar atendidos os requisitos econômicos e comprovada a origem dos recursos.
Como o empresário já possuía participação relevante no banco, o critério de capacidade técnica foi considerado cumprido. Além disso, não havia registros de investigações ou ações penais que impedissem a aprovação sob o aspecto reputacional.
Análise interna e investigações
Durante o processo, a diretoria de Fiscalização do Banco Central foi consultada devido à situação financeira do Banco Máxima. Segundo relatos, não houve interferência dessa área na decisão final, e eventuais problemas futuros poderiam ser tratados no âmbito da supervisão.
O então diretor de Fiscalização, Paulo Sérgio Neves de Souza, viria posteriormente a ser investigado pela Polícia Federal por suspeita de ter prestado consultoria informal ao empresário. Há indícios de que ele teria simulado a venda de um imóvel para ocultar recebimento de valores.
Assessoramento jurídico e bastidores
O processo contou com assessoramento jurídico de Isaac Sidney, atual presidente da Febraban, que afirmou ter atuado apenas de forma técnica e sem influência decisória. Segundo ele, sua participação no caso foi encerrada antes de ingressar na entidade, meses antes da aprovação da operação.
Mensagens obtidas pela Polícia Federal indicam que Vorcaro buscava destravar o processo após cumprir exigências técnicas. Em uma delas, ele menciona dificuldades relacionadas à comprovação de capital e pede apoio para a aprovação da operação.
Na cúpula do Banco Central, havia divergências sobre o caso. Ainda assim, pesou na decisão final o entendimento de que, após os ajustes, o empresário atendia aos requisitos objetivos exigidos, o que poderia gerar questionamentos jurídicos em caso de nova negativa.