Acessibilidade ainda é desafio nas residências
Ainda restrita majoritariamente a espaços públicos, comerciais e áreas de convivência de edifícios privados, a acessibilidade ainda precisa avançar para dentro das casas e apartamentos no Brasil
Imagine você receber em sua casa um cadeirante. A porta do banheiro é suficientemente larga para que ele possa utilizá-lo? Imagine ainda uma segunda situação: seu familiar envelhece e passa a ter menos equilíbrio na hora do banho. O box está preparado para lhe oferecer segurança?
Essas situações são mais corriqueiras do que se imagina, e devem se acentuar. Existem 18,6 milhões de brasileiros com algum tipo de deficiência. Além disso, a população com mais de 65 anos já corresponde a 22 milhões de pessoas, e deve crescer para 75 milhões até 2070. Os dados são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Desde o ano 2000, o País vem avançando na legislação, começando com a Lei Federal nº 10.098, que visou eliminar barreiras de acesso nos espaços públicos, mobiliário urbano, edificações e meios de transporte. Quinze anos depois, a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) trouxe a obrigatoriedade de que todas as novas construções de edifícios residenciais multifamiliares tenham unidades adaptadas ou adaptáveis para serem acessíveis.
Contudo, há alguns pontos a avançar, especialmente quando se fala das residenciais individuais. Existem milhares de casas particulares já edificadas que não foram construídas com a previsão de acessibilidade e muitos projetos de residências particulares ainda não levam em consideração este parâmetro. “A gente percebe isso no dia a dia no balcão, quando as pessoas vêm comprar os materiais para a obra”, diz a empresária Lucimária Fernandes, proprietária da Rede da Construção Emecê, no Setor Jardim Novo Mundo, em Goiânia.
A empresária observa que já houve um crescimento na aquisição destes materiais – em torno de 12% em sua loja nos últimos 12 meses, mas a quantidade de itens comercializada ainda é pequena – menos de 600 ao longo de um ano. “Acredito ser necessária a conscientização tanto da população em geral quanto das empresas, em especial as que vendem materiais de construção, que podem orientar o consumidor”, complementa a lojista.
Ela lembra que, considerando que a casa própria é um bem de alto valor, é preciso pensar o projeto para o longo prazo e considerar possíveis situações que poderão ocorrer ao longo de 20 ou 30 anos. “Mesmo uma família que não tem uma pessoa com deficiência em casa precisa entender que ela vai envelhecer ou pode ficar com a mobilidade reduzida temporariamente, ou receber uma visita nestas condições”, disse.
O custo de itens acessíveis não é tão diferente dos convencionais, o que é um fator positivo, destaca ainda a lojista. “Uma porta de 60 cm, normalmente colocada em banheiros, não tem largura para que uma pessoa que usa cadeira de rodas passe. Mas uma de 80 cm, é possível. A diferença de preço entre as duas é de aproximadamente 10%”, exemplifica. “Colocar um piso antiderrapante no box do chuveiro durante a obra custará muito menos do que reformar para trocar este acabamento no futuro”, complementa com mais um exemplo.
Adaptar também é medida de prevenção
Além de favorecer a acessibilidade, o ortopedista Murilo Daher, que atende no Órion Complex, observa que a casa adaptada também é preventiva, pois a maioria dos acidentes envolvendo idosos e pessoas com mobilidade reduzida acontecem dentro do ambiente doméstico. “A maioria acontece principalmente no quarto e no banheiro”, informa o médico.
Ele orienta que pontos de iluminação no chão, barras de apoio no banheiro, piso antiderrapante no box do chuveiro podem evitar muitos problemas. “Além disso, é importante retirar alguns obstáculos do chão, como tapetes, que podem ser armadilhas”, lista o médico.
Confira 5 medidas de acessibilidade que podem fazer a diferença em sua residência
PISO ANTIDERRAPANTE NO ESPAÇO DO BANHO – Quando se fala em escolha acessíveis para casa, o piso antiderrapante é indicado para o box do chuveiro e em outras áreas que são molhadas constantemente. Por se tratar de um piso com revestimento de superfície texturizada ou rugosa, o atrito com os pés é maior, reduzindo o risco de escorregões.
PORTAS MAIS LARGAS – As portas, em especial a do banheiro, necessitam de atenção, devido à sua importância na livre locomoção da pessoa que usa cadeira de rodas. A norma brasileira exige um vão livre mínimo de 80 cm. Mas especialistas preferem a de 90 cm, já que as dobradiças e a espessura da folha da porta ,quando aberta, reduz o espaço de circulação.
VASO SANITÁRIO E TAMPA ADAPTADA – O vaso sanitário adequado para pessoas com deficiência e mobilidade reduzida é o modelo mais elevado. Além disso, não deve possuir abertura frontal, para evitar quedas. Ele garante a movimentação de pessoas que necessitam de mais espaço ou assistência e, quando instalado junto de barras de apoio, o seu uso se torna mais seguro.
BARRAS DE APOIO – Outro item essencial para a acessibilidade são as barras de apoio. Em banheiros, as barras de apoio são essenciais dentro do box, garantindo a estabilidade durante o banho. Ao lado e atrás do vaso sanitário, facilita a movimentação de quem usa, além de prevenir acidentes.
METAIS MONOCOMANDOS – Opte por dispositivos hidráulicos, como torneiras e chuveiros, que controlam a vazão e a temperatura da água (quente e fria) em uma única alavanca. Eles proporcionam mais autonomia, praticidade e conforto para pessoas com mobilidade reduzida, idosos ou crianças, exigindo menor esforço motor e precisão.