Orbán e os húngaros

Por Tibor Rabóczkay, professor do Instituto de Química da USP

AEuropa carece de estadistas à altura do momento histórico. Faltam-lhe, também, analistas de política, especialistas em relações internacionais e de uma imprensa capazes de compreender a fundo a realidade do continente, para além das repetitivas simplificações ideológicas dominantes nos discursos de autoridades e do noticiário.
Essa dificuldade de entendimento manifesta-se de maneira particularmente notória em relação a países como Rússia e Hungria, assim como a líderes políticos como Vladimir Putin e Viktor Orbán. Comentarei aqui apenas o caso húngaro.

Começo esclarecendo que é absurda a insistência em rotular Orbán de ditador. Orbán, ao perder as eleições, passou o poder, frustrado, porém tranquilamente ao candidato preferido pela maioria. Pode-se notar tendências autoritárias em seu estilo de governo, mas a Hungria continuou realizando eleições multipartidárias regulares, nas quais o Fidesz venceu sucessivamente com ampla maioria parlamentar. Em contraste com regimes verdadeiramente ditatoriais, a oposição política organizada, a imprensa crítica permaneceram atuantes e a participação eleitoral foi sempre efetiva.

O autoritarismo, porém, é percebido pelos húngaros diferentemente do que pelas populações da Europa dita democrática. A sociedade húngara foi moldada durante séculos por estruturas hierárquicas rígidas. Era quase que um sistema de castas em que cada um “sabia qual era o seu devido lugar”. Essa estratificação, reforçada nos tempos do Império Austro-Húngaro, sobreviveu até a instauração do regime stalinista após o término da Segunda Guerra Mundial. Contudo, rapidamente se formou a nova oligarquia, constituída pelos dirigentes do Partido Comunista e os húngaros perderam a oportunidade de implantar um regime de características democráticas.

A própria abertura das fronteiras húngaro-austríacas para os turistas alemães em 1989, um evento que acelerou a queda da Cortina de Ferro e contribuiu para a demolição do Muro de Berlim, não foi um ato de idealismo democrático, mas uma decisão da oligarquia do partido único visando salvar seu poder político e econômico no turbilhão provocado pela Perestroika. Os magiares abalaram o mundo comunista pela segunda vez. Em 1989, por iniciativa de líderes do Partido Comunista; em 1956, pela ação dos trabalhadores, intelectuais e estudantes.

Orbán, um estadista e político hábil, conseguiu ser “amigo” de Putin e de Trump ao mesmo tempo. Procurou aproximação regional com sérvios, croatas e eslovacos. Durante a pandemia de covid-19, a Hungria também prestou auxílio à Romênia. Recentemente, apoia a integração da Sérvia na União Europeia.

As relações com a Ucrânia deterioraram-se significativamente após as reformas linguísticas e educacionais implementadas em Kiev, ainda durante o governo Poroshenko e, posteriormente, implementadas sob Zelenski. A Hungria passou a manifestar preocupação com as limitações ao uso da língua húngara e à autonomia cultural da comunidade magiar da Transcarpátia. É importante lembrar que essa região integrou o Reino da Hungria durante séculos e ocupa lugar relevante na memória histórica húngara. Preocupações referentes aos direitos coletivos das minorias étnicas do território da Ucrânia deram origem a um interesse comum a Orbán e Putin.

A questão das minorias magiares, que vivem nos países beneficiados com os territórios desmembrados do Reino da Hungria, possui forte peso emocional e político dentro do país contemporâneo. O apoio de Orbán a Israel e ao governo Netanyahu também deve ser entendido nesse contexto. A Hungria abriga atualmente uma das comunidades judaicas mais seguras da Europa Central, e o governo procura transmitir imagem de estabilidade e proteção às minorias religiosas e étnicas.

De um dos principais componentes do Império Austro-Húngaro, uma grande potência europeia, com a mutilação pelo Diktat de Trianon-Versalhes, com cinismo chamado de Tratado de Paz, a Hungria histórica tornou-se um país pequeno. Foi privada de dois terços de seu território e 15% a 20%, em termos atuais, da etnia magiar ficou submetida ao micro-imperialismo dos vizinhos beneficiados pelo Diktat: checos, romenos, sérvios e até a Áustria. O país perdeu grande parte de seus recursos naturais, econômicos e estratégicos. É essa a razão de ser a Hungria um país pobre, não a administração de Orbán ou de seus predecessores. É um milagre que o país tenha conseguido sobreviver como uma unidade independente. O Diktat permanece como uma das maiores tragédias históricas da consciência nacional húngara.

A preocupação com o destino dos húngaros que ficaram fora das fronteiras trianônicas é perene e – diga-se a verdade – justa. Essa inquietação, entre guerras, envolvia também o aspiração a correções territoriais, fato que expôs os húngaros à manipulação por Hitler e Mussolini. Esses dois – horribile dictu – foram as únicas personagens que, em contraste com uma Europa “democrática” e “livre” indiferente, encontraram interesse em apoiar os legítimos anseios húngaros.

Durante a era socialista, a situação das minorias variou conforme o país. Em alguns deles houve relativa acomodação cultural; em outros, especialmente na Transilvânia sob Nicolae Ceaușescu na Romênia, políticas assimilacionistas geraram forte ressentimento.

Após a democratização, surgiram na Hungria duas orientações principais. Uma delas professa a maior integração a um modelo liberal europeu ocidental idealizado. De tendências cosmopolitas – constituído por liberais, entre os quais muitos encobrem seu DNA stalinista – ignorava as questões referentes aos direitos coletivos dos magiares apartados pelo Diktat de Trianon. A outra opção, seguida por Orbán, foi dar apoio às instituições culturais das minorias, promover a dupla cidadania e zelar, junto aos governos, pelos direitos coletivos. Tal zelo provocou o desentendimento com os ucranianos e o consequente bloqueio do país eslavo junto à União Europeia.

Contrariamente às insinuações de alguns analistas políticos, não há mais pretensões territoriais sérias, pois as fronteiras se tornaram menos rígidas com a união. Por outro lado, qualquer mudança de fronteiras acarretaria mais problemas nessas regiões em que há cidades, não com duas, mas até uma dezena de etnias, numericamente, menores.

Foi nesse contexto que o governo húngaro promoveu a dupla cidadania para húngaros étnicos residentes fora das fronteiras atuais do país e passou a financiar escolas, igrejas e instituições culturais dessas comunidades. Essas medidas provocaram tensões diplomáticas com vizinhos, embora estas tenham recorrido a expedientes idênticos já nos tempos do Império em sentido inverso.

O culto de Orbán à história húngara originou-lhe a imagem de líder nacionalista. Porém, não há nação alguma que não cultive sua própria memória histórica. A Hungria foi durante séculos uma potência regional importante, posteriormente devastada pela invasão mongol e pela expansão otomana. É natural que muitos húngaros procurem compensar traumas históricos através da valorização de momentos “gloriosos” de seu passado. Trata-se de um “nacionalismo” defensivo e não agressivo.

Houve corrupção durante os governos de Orbán, como houve antes dele e provavelmente haverá depois. A corrupção não é exclusividade húngara nem monopólio de um único grupo político. É um fenômeno nos países ricos, impulsionado pela ambição ilícita; nos pobres, pela sobrevivência; nas burocracias, pela necessidade de contorná-las.

Classificar Orbán de ditador ou o Fidesz de partido de extrema direita pouco contribui para uma análise séria da realidade húngara. O sistema político do país possui tendências centralizadoras, mas continua funcionando dentro de mecanismos eleitorais formais e competitivos. Aos eleitores húngaros, “extrema direita” evoca o partido MiHazánk (“Nossa Pátria”), contudo nem este merece a pecha de “extremista”, pois representa tão-somente devoção à pátria e repulsa ao globalismo.

O crescimento de figuras oposicionistas como Péter Magyar demonstra justamente que existe disputa política real dentro da Hungria. As minorias magiares sobreviventes nos países contemplados com territórios do Reino da Hungria, contudo, temem que a mudança de governo acarrete a redução do apoio cultural e financeiro fornecido, até o presente, por Budapeste.

Os aspectos que delineei são quase sempre ignorados ou omitidos pelos criticantes.

Finalizo parafraseando o escritor humorista húngaro Frigyes Karinthy: “Nada é o que parece!”.