Lula defende soberania, denuncia tutela dos EUA na América Latina e avisa: “O que está em jogo é democracia contra barbárie”

Lula sintetizou o princípio orientador de sua atuação política: governar com coragem e altivez soberana não é confrontar por vaidade, mas exercer o cuidado e proteger o futuro do povo sem se curvar a nenhuma potência

Pouco antes da Assembleia Geral da ONU e na reta decisiva da disputa presidencial no Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu uma das mais enfáticas entrevistas de seu mandato à correspondente internacional da CNN, Christiane Amanpour. Em quase meia hora de conversa franca, Lula reafirmou a intransigente defesa da soberania nacional, alertou para o perigo da “lei do mais forte” imposta pelo unilateralismo de Donald Trump e desmontou o cerco econômico e geopolítico que setores do extremismo internacional tentam erguer contra o Brasil e a América Latina.

Abaixo, os eixos centrais das declarações do presidente:

1. “Não aceitamos imperadores”: soberania, multilateralismo e reciprocidade comercial
Questionado por Amanpour sobre a postura autoritária de Donald Trump no comércio internacional, Lula foi direto: “Ele age como imperador. É um jeito de governar que eu não concordo: ‘eu sou mais forte, mais rico, posso tudo e o resto obedece’. Não aceitamos isso. O comércio é uma via de mão dupla”.

Ao tratar do protecionismo tarifário imposto por Washington, Lula revelou a resposta pragmática da diplomacia e do comércio exterior brasileiro: em vez de ceder à chantagem, o país abriu e expandiu novos mercados estratégicos, sobretudo com o Sul Global e a Eurásia.

“Após as tarifas, nossas exportações para os EUA caíram 9% e as importações 8,5%. Mas nós não ficamos chorando sobre o leite derramado. Fomos atrás de alternativas: crescemos 20% com a China, 23% com a União Europeia, 18% com o Japão, 16% com a Alemanha e expandimos com Indonésia e Vietnã. Ao todo, registramos alta de 10,5% com 57 nações.”

Apesar de manter diálogo e apostar na negociação diplomática para normalizar as relações com a Casa Branca, Lula mandou um aviso claro: se não houver acordo justo e de respeito mútuo, o Brasil acionará a Lei da Reciprocidade, aprovada pelo Congresso Nacional, taxando produtos americanos vitais.

2. Denúncia contra traidores da pátria e blindagem do pleito nacional
Com a aproximação das eleições no Brasil, Amanpour indagou o mandatário sobre as investidas do bolsonarismo nos bastidores de Washington para incentivar sanções econômicas contra o próprio país e criar instabilidade política. Lula não poupou críticas:

Conspiração no exterior: O presidente denunciou abertamente figuras que fugiram da Justiça brasileira e se abrigaram nos Estados Unidos para articular medidas contra a soberania do país, classificando-os expressamente como “traidores da pátria”.
Fronteira diplomática inegociável: Lula lembrou os 203 anos de relações sólidas entre Brasil e Estados Unidos e relatou ter transmitido um recado firme à Casa Branca: “Disse com clareza: não se metam nas eleições brasileiras, assim como não nos metemos nas eleições norte-americanas. Quem decide o destino do Brasil é o povo brasileiro”.
Suspeitas sobre Marco Rubio e IA: O presidente também manifestou preocupação com as articulações da extrema-direita e o lobby no Congresso americano, reforçando que qualquer interferência cibernética ou política será tratada com o devido rigor.
3. “Democracia ou barbárie”: a decisão popular em 17 dias
Diante das análises que apontam um pleito acirrado contra as forças do bolsonarismo, Lula definiu o momento histórico vivido pela nação não como um mero embate entre candidatos ou siglas, mas como uma encruzilhada de civilização:

“O que está em jogo hoje no Brasil não é apenas uma escolha entre nomes ou partidos. É uma escolha de princípios fundamentais: ou a democracia ou a barbárie; ou a preservação ambiental ou a destruição florestal; ou as políticas de inclusão social e renda ou o abandono da população pobre; ou o resgate da cultura ou o seu aniquilamento.”

Lula expressou tranquilidade inabalável em relação às urnas eletrônicas e ao sistema eleitoral brasileiro, que descreveu como modelo de agilidade, integridade e transparência para o resto do planeta.

4. Tutela sobre a Venezuela e a falência da governança da ONU
Ao avaliar o cenário latino-americano, o presidente classificou como profundamente perigosa e ilegítima a intervenção direta e o controle exercido pelos EUA sobre as riquezas e os rumos políticos da Venezuela:

Soberania confiscada: Lula apontou que a retórica e as ações de figuras como Marco Rubio tentam transformar a Venezuela em um protetorado de Washington, confiscando receitas petrolíferas e impondo decisões.
Saída democrática interna: O líder brasileiro defendeu que o único caminho legítimo para restabelecer a estabilidade é a realização célere de eleições para que a soberania volte integralmente às mãos do povo venezuelano, longe de imposições imperialistas.
Paralisia criminosa da ONU: Em tom de indignação, Lula cobrou reformas urgentes na ordem internacional, denunciando que cinco membros com direito de veto mantêm o Conselho de Segurança manietado enquanto conflitos se espalham — como o massacre de mais de 70 mil mulheres e crianças em Gaza, a guerra na Ucrânia e as tensões no Estreito de Ormuz. “Para que serve a ONU se os líderes mundiais apenas assistem calados aos conflitos e preferem gastar trilhões de dólares em bombas enquanto a fome, as doenças evitáveis e a crise climática ceifam vidas?”, questionou.
Ao final, Lula sintetizou o princípio orientador de sua atuação política: governar com coragem e altivez soberana não é confrontar por vaidade, mas exercer o cuidado e proteger o futuro do povo sem se curvar a nenhuma potência.