Como garantir uma educação tecnológica aprimorada e acessível a todos

Por Sahda Marta Ide, professora da Faculdade de Educação da USP

Atualmente, uma grande parte das atividades humanas utiliza a tecnologia. E a educação é uma das áreas mais afetadas pela revolução tecnológica.
As tecnologias digitais, em especial, têm se mostrado cada vez mais presentes nas salas de aula, trazendo novas possibilidades para a aprendizagem e transformando a forma como os estudantes interagem na busca do conhecimento.

É um ambiente educacional de aprendizado mais dinâmico e interativo com plataformas de aprendizagem on-line, softwares educacionais, realidade virtual aumentada e recursos multimídia, tornando-se ferramentas fundamentais para o ensino.

Fernando Pimentel, na tese A aprendizagem das crianças na cultura digital, analisa como as crianças e adolescentes incorporam e usam as Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDIC) em seus processos de aprendizagem, tanto no contexto escolar como fora dele, influenciando diretamente seu desenvolvimento cognitivo.

Entretanto, as crianças, antes mesmo de articularem as primeiras palavras, e adolescentes têm se relacionado mais pelas redes e não acabam desenvolvendo capacidades fundamentais, como letramento consolidado e raciocínio lógico-matemático — coisa que aconteceria caso tivessem uma aprendizagem e desenvolvimento estabelecidos por meio de um processo interativo e cognitivo com o mundo, com o outro e consigo mesmo.

O artigo Ciberdependência e infância, dos autores Priscila Rosa e Carlos Henrique de Souza, discute os efeitos do uso desmedido das telas no desenvolvimento cognitivo, comportamental e social, que podem provocar uma série de problemas na saúde de crianças e adolescentes, principalmente durante a primeira infância.

A educação digital, quando não tem supervisão e orientação do adulto, pode causar déficit de atenção, problemas de aprendizagem e de saúde, como miopia, ansiedade, problemas de sono. Além disso, as crianças acabam mais propensas a serem vítimas de crimes virtuais.

A ONU (Organização das Nações Unidas) também discute as redes sociais e as encara como ferramentas fundamentais de conexão e disseminação de informações. Entretanto, adverte para os sérios riscos de discursos de ódio, desinformação, crimes cibernéticos e abusos de direitos humanos.

Portanto, o equilíbrio entre o mundo digital e o mundo real é fundamental para garantir que as crianças e adolescentes cresçam com habilidades cognitivas saudáveis e estejam preparadas para enfrentar os desafios do século 21.

Segundo o filósofo e educador Mário Sérgio Cortella, “a educação é a formação integral do ser humano, focada em valores e ética, sendo responsabilidade primária da família. Escolarização é o processo formal de ensino de conteúdos (matemática, história etc.) e convivência, realizado pela escola. A escola auxilia a família, mas não a substitui”.

Logo, cabe aos pais e à sociedade na sua totalidade assumirem a responsabilidade de moldar positivamente o relacionamento das crianças e adolescentes com a tecnologia digital, garantindo um futuro mais promissor para as gerações vindouras.

A Austrália, para dirimir os problemas descritos acima, implementou uma lei, em dezembro de 2025, pioneira no mundo, que proíbe menores de 16 anos de criarem ou manterem contas nas principais redes sociais. O objetivo dessa lei é proteger crianças e adolescentes de cyberbullying, aliciamento e outros riscos, além de garantir uma infância e adolescência mais saudáveis, evitar ansiedade e dar apoio aos pais.

As plataformas afetadas incluem Instagram, TikTok, Facebook, Snapchat, X ,Twitter, YouTube, Threads, Reddit e os serviços de streaming Twitch e Kick, pois os seus usos indiscriminados têm causado dependentes digitais cada vez mais precoces. As plataformas isentas, no momento atual, são: WhatsApp, YouTube Kids e Google Classroom, por não terem a interação social on-line como principal meta.

Entretanto, os adolescentes estão encontrando formas de contornar essa restrição, usando o celular dos pais ou criando contas com idade falsa. Diante desse cenário, a lei transfere a responsabilidade para as empresas de tecnologia de verificar a idade e desativar contas, seja por meio de documentos, reconhecimento fala/voz, criação de novas contas e acessos para proteger a saúde mental e o bem-estar das crianças e adolescentes.
Caso as empresas não colaborem, podem ser multadas em valores significativos.

A Dinamarca, seguindo o exemplo da Austrália, apesar de ser líder global em tecnologia, digitalização e sustentabilidade, está a implementar medidas rigorosas para proteger crianças e adolescentes do impacto das redes sociais, focando na saúde mental e em devolver a infância às crianças. O governo iniciou a proibição do acesso a redes sociais, como Facebook, Instagram, Snapchat, Threads, TikTok, X, YouTube, Reddit, Kick e Twitch para menores de 15 anos. É permitido o uso a partir dos 13 anos apenas com autorização dos pais, além de incluir restrições ao uso de celulares e tablets nas escolas, para estimular o convívio social. Essa medida, embora ainda dependa de votação formal, é vista como um passo histórico para controlar o ambiente digital infantil na Europa, segundo a ministra dos Assuntos Digitais do país, Caroline Stage Olsen.

No Brasil, a situação da educação em geral é constrangedora, uma vez que a falta de acesso e de qualidade para todos é um problema histórico, herdado do período colonial e reforçado por políticas que a priorizam para o controle social, ao invés da emancipação social e política.

Dados de 2025 do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) indicam que cerca de 993 mil crianças e adolescentes de 4 a 17 anos estão fora da escola no Brasil, faixa em que o ensino é obrigatório, ocorrendo tanto na zona urbana (797 mil), quanto na rural (195 mil).

A exclusão afeta desproporcionalmente adolescentes de 15 a 17 anos (440 mil), famílias de baixa renda, consistindo 67% de populações pretas, pardas e indígenas, sendo 55% meninos e 45% meninas. O Censo Escolar, principal levantamento estatístico da educação básica, realizado anualmente pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), órgão do Ministério da Educação, divulgou que entre 2024 e 2025 o Brasil teve a maior queda de matrículas na educação básica em quase duas décadas, com a redução de um milhão de alunos.

A variação negativa mais intensa ocorreu no ensino médio e também na educação infantil, o que não se verificava desde a pandemia. Os motivos são trabalho infantil, reprovações, falta de vínculo com a escola, gravidez e trabalho doméstico. Embora esse número de 993 mil seja o foco da obrigatoriedade escolar, outras estimativas, como a da Pnad Educação (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) indicam que 8,7 milhões de jovens de 14 a 29 anos abandonaram ou nunca frequentaram a escola, incluindo o ensino médio.

Em 2025, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou dados que mostram que, no ano anterior, o Brasil tinha 9,1 milhões de analfabetos, ou seja, não sabem ler ou escrever ou sabem muito pouco, a ponto de não conseguirem compreender pequenas frases. O Nordeste concentra as maiores taxas, de 11,2% em 2023, seguido pelo Norte com 6,4%, Sudeste com 2,9%, no Sul 2,8% e no Centro-Oeste 3,7%. O analfabetismo entre pessoas pretas ou pardas, em 2023, foi de 7,1%, sendo mais do que o dobro do registrado entre brancos, de 3,2%. Quanto ao gênero, há uma leve diferença de 5,7% para homens e 5,2% para mulheres. Essas situações limitaram oportunidades de trabalho, dificultaram a participação plena na vida social e política, perpetuando os ciclos de pobreza e desigualdade.

As consequências negativas são o desemprego em alta, a criminalidade crescente e a discriminação intensificada.

É importante salientar a frase de Darcy Ribeiro: “A alfabetização é uma ponte da miséria para a esperança”.

Outra crise invisível e estrutural da educação no Brasil, segundo a edição de 2025 do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf), mostra que 29% da população entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais. É um problema socioeducacional histórico, que se manifesta pela dificuldade em interpretar textos curtos, realizar operações matemáticas simples e compreender ideias em enunciados escritos, além de ter dificuldade em reunir informações e interpretá-las.

É um reflexo da desigualdade social e da precarização da educação, ao longo do tempo, sendo mais comum em grupos vulneráveis, como pessoas de baixa renda, negras, pardas e com pouca escolaridade. Outra pesquisa do Inaf, edição de 2024-2025, revela que 12% dos brasileiros com ensino superior completo são considerados analfabetos funcionais, ou seja, não atingem níveis considerados proficientes de leitura e escrita.

A causa está, segundo especialistas, na falta de uma educação de qualidade, proporcionada pela desigualdade estrutural e desvalorização da educação básica, desafios na Educação de Jovens e Adultos (EJA) e, muitas vezes, falhas de qualidade no ensino fundamental e médio, que não asseguram competências essenciais. Essa questão não é nova, pois esses estudantes chegam à universidade já com essa deficiência, após terem sido “empurrados” na educação básica sem o devido aprendizado.

Outra situação desafiadora da educação brasileira é o trabalho infantil.

O Brasil em 2024 registrou, segundo matéria publicada pela Agência de Notícias do IBGE, 1.650 milhões de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos em situação de trabalho infantil, sendo que a faixa de 16 e 17 anos é maior, com 15,3%. A maioria das vítimas é composta de adolescentes de 16 a 17 anos, negros e meninos. Em 2022, mais de 1,7 milhão de crianças e adolescentes não frequentavam a escola, com as maiores taxas de evasão entre os mais velhos.

Diante da situação educacional descrita acima, cabe a pergunta: quais são os principais desafios da educação digital no Brasil?

A inserção de tecnologias digitais no ambiente educacional é importante, pois possibilita a criação de um espaço de aprendizado mais dinâmico e interativo. Plataformas de aprendizagem on-line, softwares educacionais, realidade virtual aumentada e recursos multimídia, tornaram-se ferramentas fundamentais para o ensino com a tecnologia integrada com as práticas pedagógicas, e não apenas usada como um substituto dos métodos tradicionais.

A principal lei da internet no Brasil é o Marco Civil da Internet (Lei nº 12.965/2014), considerado a “Constituição da Internet” brasileira, sendo pioneiro ao colocar a participação da sociedade em sua formulação.

Seu foco fundamental é a cidadania digital, ou seja, não deve somente ensinar a usar a tecnologia, mas também a formar cidadãos conscientes e responsáveis no mundo digital, estabelecendo princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da rede, fundamentados na neutralidade, liberdade de expressão, privacidade, proteção de dados pessoais e supervisão de conteúdo, além da responsabilização das empresas de tecnologia, que podem responder por conteúdos difamatórios.

Essa lei sugere, também, limites de idade para o uso de diferentes plataformas. Até 12 anos, aplicativos de mensagem (com controle parental) e até 14 anos, chatbots de IA generativa e marketplaces. Há outras leis importantes no cenário digital, como a Lei Carolina Dieckmann (12.737/2012), que caracterizou crimes informáticos, como a invasão de dispositivos, e a LGPD (Lei Geral de Proteção de dados, 13.709/2018), que regula o tratamento de dados pessoais por empresas, fortalecendo a privacidade iniciada pelo Marco Civil.

Em 3 de setembro de 2025, foi sancionada a Lei nº 15.211, que cria o Estatuto da Criança e do Adolescente Digital, conhecida como ECA Digital, que estabelece novas regras para proteger esse público, exigindo verificação de idade e vinculação de contas para menores de 16 anos em plataformas, além de maior rigor em conteúdos sensíveis.

Porém, a internet digital brasileira, apesar de todas essas leis, enfrenta muitos problemas. O Censo Escolar 2023 mostra que apenas 29% das escolas possuem equipamentos como computadores, notebooks ou tablets para uso dos alunos em quantidade suficiente, além da falta de laboratórios que impede que as escolas preparem os alunos para o mundo digital.

Em 89% das escolas públicas, embora tenham internet, há uma grande diferença de conectividade entre as regiões, como no Norte, onde 37% não possuem acesso à mesma para uso geral. Escolas em terras indígenas e assentamentos nessas regiões têm apenas 20% de conectividade, e 28% não possuem energia elétrica estável. Cerca de oito milhões de estudantes da rede pública (21%) frequentam escolas sem acesso à banda larga e 124 mil estudantes estudam em escolas sem energia elétrica.

Há, também, consequências da tecnologia na educação, como distração, procrastinação (ato consciente e irracional de adiar tarefas importantes, por prazerosas), a desigualdade no acesso aos equipamentos da internet, o risco à saúde física e mental, causado pelo uso excessivo de telas, falta de contato humano e dependência digital, além da sobrecarga de informações e aumento de trabalho dos professores.

As situações acima descritas têm consequências graves, como aprendizado tecnológico comprometido, ampliação das desigualdades sociais, econômicas e raciais já existentes, além de impactar negativamente o aprendizado, as expectativas educacionais e o futuro profissional, visto que o mercado de trabalho está cada vez mais digitalizado.

Atualmente, as ações governamentais brasileiras para internet focam na ampliação da conectividade, especialmente em escolas e áreas remotas, com destaque para um investimento de R$ 8,8 bilhões para conectar 138 mil escolas até o final de 2026.

Essas ações são geridas principalmente pelo Ministério das Comunicações (Mcom) em colaboração com o Ministério da Educação (MEC), utilizando recursos do leilão 5G e do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust).

As iniciativas principais incluem o programa Internet Brasil, que fornece chips para alunos do Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico), instrumento de mapeamento e registro de informações que identifica as famílias de baixa renda no Brasil, WiFi Brasil, internet gratuita em locais públicos e a implementação da rede 5G. Outra ação é a execução da Estratégia Nacional de Cibersegurança (E-Ciber) pelo Gabinete de Segurança Institucional com o objetivo de proteger a infraestrutura digital.

Apesar de todas essas ações governamentais, o cenário da internet digital na educação é ainda desafiador. A falta de investimento na educação básica, a desvalorização da carreira do magistério, ou seja, professores mal formados, mal remunerados e sobrecarregados, salas de aulas superlotadas, ausência de programas de intervenção precoce para identificar e abordar dificuldades de aprendizagem, além da violência
escolar, são apenas algumas das questões que contribuem para agravar o problema do uso digital na educação básica brasileira.

Desta forma, é urgente treinamento para professores sobre como usar a tecnologia de forma pedagógica eficaz, para criar conteúdos digitais de qualidade, alinhando a tecnologia com o currículo escolar existente, ao invés de utilizá-la apenas como ferramenta.

Para isso, é preciso oferecer capacitação continuada, para que os professores se sintam seguros e aptos a usar a tecnologia e a inovação de forma pedagógica. Ou seja, eles devem ser mediadores, com metodologias ativas, nas quais o aluno é o protagonista, e jamais reduzidos a uma máquina (técnica). É preciso investir na “curiosidade epistemológica” (conceito central na pedagogia de Paulo Freire), ampliando o espírito investigativo, capacidade crítica e criativa, possibilitando a reflexão sobre o mundo e transformando a realidade.

Essa postura pedagógica também deve ser focada no desenvolvimento socioemocional, criando e fortalecendo vínculos afetivos, sem penalidades, mas com firmeza, segurança e gentileza. Dessa forma, possibilitará ao aluno desenvolver responsabilidade, autonomia. Consequentemente, as crianças e adolescentes se sentirão seguros e colaborarão, não só no desempenho acadêmico, mas também em empatia e habilidades sociais, que facilitarão o desenvolvimento das potencialidades humanas.

Entretanto, os programas de capacitação, com os objetivos acima descritos, ainda são escassos ou mal distribuídos no País, além da resistência à adoção de novas tecnologias por parte de alguns educadores no aprendizado dos educandos no ambiente digital.

Pode-se concluir que, embora aja ações governamentais para o desenvolvimento e uso da tecnologia digital no Brasil, falta o fundamental, ou seja, políticas públicas que promovam a inclusão digital na educação básica, investindo em infraestrutura e na capacitação de educadores, para garantir uma educação tecnológica aprimorada e acessível a todos. jornal.usp.br