Educação superior: um retrato racial do corpo docente dos cursos de Turismo no Brasil

Por Juliel Souza da Silva, mestrando na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP

Embora os negros representem 55,5% da população brasileira, segundo o Censo Demográfico de 2022, sua presença ainda é pequena em cargos de decisão, liderança e poder no Brasil. Como homem negro, essa ausência sempre me incomodou. Minha experiência profissional foi toda no setor hoteleiro e, ao longo da carreira, sempre foi raro encontrar pessoas negras ocupando cargos de gestão. Com esse ajuste de lentes, passei a olhar também para outro espaço que conhecia bem: o ensino superior em Turismo nas universidades públicas brasileiras.
Minha experiência como negro no mercado de turismo sempre suscitou perguntas sobre a formação e o perfil racial dos professores de Turismo nas universidades brasileiras. Será que eles refletem a diversidade da população do país?

Para responder a essas questões, em meu mestrado analisei os cursos de Turismo de 27 instituições públicas de ensino superior. Ao todo, foram heteroidentificados 426 docentes, dos quais apenas 45 eram negros. Além desse levantamento, foram realizadas entrevistas com 13 professores e professoras negros das cinco regiões do Brasil. As entrevistas permitiram compreender suas trajetórias, os desafios enfrentados ao longo da carreira e as estratégias construídas para permanecer e transformar o ambiente universitário.

Os resultados revelam um cenário que merece atenção. Apenas 11% do total dos professores de Turismo é de negros e negras. As mulheres representam 57,7% do corpo docente analisado, considerando pessoas pretas e pardas, mas somente 9,8% delas são negras. Os dados mostram que pessoas negras e indígenas continuam ocupando um espaço muito menor na docência universitária em Turismo, do que na população brasileira.

Essa diferença não diz respeito apenas aos números. Ela influencia a produção do conhecimento, quais perspectivas chegam às salas de aula e quais referências são apresentadas aos estudantes. Quando determinados grupos permanecem pouco representados na universidade, diferentes experiências e formas de compreender a realidade também acabam tendo menos espaço na formação dos futuros profissionais.

Apesar disso, mudanças importantes vêm acontecendo. A ampliação das políticas de ações afirmativas contribuiu para aumentar o acesso de estudantes negros ao ensino superior. Temas sobre igualdade racial e étnica vem sendo, pouco-a-pouco, introduzidos por esses professores em suas matérias e em congressos, ainda que não tenha havido espaço nas universidades para disciplinas específicas sobre a questão racial. Esse movimento representa um avanço na democratização das universidades e pode contribuir, no futuro, para que essas instituições também reflitam de forma mais ampla a diversidade da sociedade brasileira.

Construir um ensino de Turismo mais inclusivo passa por diferentes caminhos. Entre eles, ampliar a diversidade nos processos de contratação de docentes, revisar as bibliografias para incluir autores negros, indígenas e de outros grupos historicamente invisibilizados, criar disciplinas sobre temas raciais, fortalecer as políticas de permanência estudantil e criar espaços permanentes de diálogo sobre racismo, letramento racial, desigualdade e inclusão. As trajetórias dos participantes da pesquisa destacam que eles têm se esforçado para ampliar os debates em sala de aula e que contribuem para formar profissionais mais preparados para atuar em uma sociedade diversa.

É necessária também uma reflexão sobre os espaços de diversidade nas entidades acadêmicas da área, como a ANPTUR. Estes ainda são percebidos como de pouca diversidade racial, mesmo havendo relatos de avanços recentes, com maior abertura para discussões sobre relações raciais e letramento racial. Essas percepções dialogam com iniciativas nacionais que, nos últimos anos, passaram a incorporar a diversidade racial de forma mais explícita nas políticas e estratégias de promoção do turismo brasileiro. Um exemplo desse movimento foi a escolha do tema do 22º Seminário da ANPTUR e do 10º Congresso Latino-Americano de Investigação Turística, realizado em 2025: Diversidade e Inclusão na Pesquisa em Turismo e Hospitalidade na América Latina. Ao posicionar a diversidade e a inclusão no centro das discussões, o evento sinalizou uma ampliação do debate acadêmico sobre essas questões e reforçou a importância da pluralidade na produção do conhecimento em Turismo.

Mais do que apresentar dados sobre a educação superior, este texto convida a sociedade, especialmente quem atua, estuda ou se interessa pelo Turismo, a refletir sobre quem produz o conhecimento que circula nas universidades. Quando diferentes experiências de vida ocupam esses espaços, ampliam-se também as possibilidades de compreender a realidade brasileira e de formar profissionais capazes de atuar de maneira mais crítica, inclusiva e comprometida com a diversidade que caracteriza o Brasil. jornal.usp.br