O desafio não é produzir mais, e sim sintetizar evidências

Por Maria Cristiane Barbosa Galvão, professora da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP

Em um contexto em que diferentes formas de trabalho são atravessadas por crescentes demandas de produtividade, a ciência contemporânea tem criado um universo informacional de crescimento exponencial. Considerando apenas o ano de 2025, a base Scopus indexou aproximadamente 4,6 milhões de documentos, a Web of Science mais de 4,3 milhões e a PubMed cerca de 1,8 milhão. A quantidade de artigos sob a égide de um mesmo autor também chama a atenção. Há registros de casos na literatura especializada que relatam autores que figuram em mais de 200 artigos por ano.
Esses números evidenciam não apenas a vitalidade da atividade científica global, mas também a magnitude do sistema contemporâneo de produção e circulação do conhecimento. Todavia, parte significativa desse universo é composta de estudos exploratórios, revisões não sistemáticas, investigações isoladas, resultados de difícil reprodução ou pesquisas cujas limitações metodológicas dificultam sua reprodução e sua incorporação em processos de síntese de evidências. Ainda que tais produções cumpram funções importantes no avanço incremental do conhecimento, sua contribuição para a transformação concreta da realidade é, em muitos casos, limitada.

Idealmente, seria necessário que a expansão quantitativa da produção científica se traduzisse, de forma proporcional, na geração de sínteses de evidências, ou seja, no processo estruturado de integrar, comparar e interpretar resultados de múltiplos estudos para produzir conhecimento aplicável, confiável e capaz de orientar decisões, transformar práticas ou impactar realidades sociais diversas.

Esse cenário aponta para uma distinção conceitual fundamental: produzir ciência no contexto acadêmico não é equivalente a produzir síntese de evidência científica qualificada. A evidência, especialmente no campo da saúde e das políticas públicas, exige processos adicionais de validação, análise crítica, contextualização e aplicabilidade. Assim, a crescente produção de artigos, mesmo quando acompanhada por indicadores tradicionais como citações, não constitui, por si só, garantia de impacto social ou melhoria das condições de vida.

Tal situação decorre, em grande parte, de adesão acrítica a sistemas internacionais de avaliação científica que, embora amplamente reconhecidos como válidos, privilegiam métricas de produtividade e impacto acadêmico, baseadas em lógicas de competição e de mercado, como a publicação em periódicos de alto custo e elevada citação, em detrimento da produção de evidência com impacto social direto.

Em países como o Brasil, onde a ciência é majoritariamente financiada com recursos públicos, a dissociação entre produtividade científica e geração de evidências com foco nas problemáticas sociais torna-se particularmente inquietante, pois a ciência é financiada pela sociedade, mas avaliada por métricas que não necessariamente refletem seu impacto sobre ela.

Essa dinâmica não é exclusiva do contexto brasileiro, mas expressa um padrão mais amplo observado em países do Sul Global, onde as especificidades sociais, econômicas e culturais limitam a aplicação direta de evidências produzidas no Norte Global. Nesse cenário, o desafio não se restringe ao volume de informação disponível, mas, muitas vezes, à inadequação da evidência produzida ou à incerteza quanto à sua aplicabilidade nas realidades que demandam intervenção, o que evidencia a necessidade de avançar na construção de abordagens de avaliação científica que considerem a qualidade, a contextualização e a aplicabilidade da evidência gerada.

Além do problema social mais amplo de uma ciência que nem sempre produz sínteses de evidência capazes de orientar a solução de problemas emergentes, a expansão exponencial da literatura científica tem impactado a própria dinâmica da produção de conhecimento, especialmente no que se refere à capacidade de leitura e assimilação por parte de pesquisadores e estudantes. Em muitos casos, não há tempo hábil para a leitura integral de um único artigo, sendo frequente a consulta apenas aos resumos como estratégia de manejo do volume informacional. Com a massificação do acesso a ferramentas de inteligência artificial, muitos têm passado a delegar parte do trabalho intelectual de leitura e síntese a essas ferramentas, seja pelo desconhecimento de suas limitações, seja pela dificuldade de atender aos prazos e cronogramas impostos pela lógica da produtividade.

Esse cenário impõe um desafio adicional à formação acadêmica: como preparar profissionais efetivamente atualizados diante de um fluxo contínuo e crescente de informação? Professores e coordenadores de cursos passam a operar sob a necessidade de selecionar, de forma estratégica, quais conteúdos serão priorizados, quais serão tratados como complementares e quais, inevitavelmente, ficarão fora do processo formativo. Trata-se, portanto, não apenas de um problema de acesso à informação, mas de curadoria, hierarquização e tomada de decisão pedagógica em um contexto de excesso.

Assim, é notório que a internacionalização da ciência e a implantação de rankings de produtividade quantitativa têm incentivado uma corrida pela publicação em revistas de alto impacto, muitas vezes priorizando a quantidade em detrimento da qualidade e da relevância prática. Embora essa abordagem possa aumentar a visibilidade global, ela frequentemente falha em produzir resultados que sejam diretamente aplicáveis em contextos locais, gerando sobrecarga cognitiva e pressões crescentes tanto para quem produz como para quem precisa se manter atualizado.

Pelo exposto, tornam-se necessárias políticas, mecanismos de governança acadêmica e incentivos institucionais que orientem mestrados, doutorados, pós-doutorados e pesquisas financiadas com recursos públicos à síntese de evidências. Encontram-se disponíveis várias metodologias para atingir esse objetivo. Em sua forma mais tradicional, as revisões sistemáticas baseadas em estudos randomizados controlados priorizam a objetividade quantitativa e operam de maneira seletiva quanto aos tipos de evidência incluídos. Com o avanço das demandas científicas e sociais, as revisões sistemáticas mistas são opções para integrar estudos com abordagens quantitativas e qualitativas, ampliando a capacidade de compreensão de fenômenos complexos. As revisões sistemáticas vivas, caracterizadas pela atualização contínua à medida que novos estudos podem ser publicados, evidenciam o caráter dinâmico da ciência e a evolução diária das evidências. Por fim, a abordagem de revisão sistemática mista, viva e contextualizada permite integrar métodos, incorporar atualização contínua e orientar a análise crítica para a aplicação da evidência em diferentes contextos sociais.

Destaca-se que a produção de sínteses de evidência no Sul Global é ainda mais premente, uma vez que os determinantes sociais, econômicos e culturais diferem significativamente daqueles do Norte Global. Nesse contexto, torna-se fundamental o desenvolvimento de evidências mistas, vivas e contextualizadas, já que a simples replicação de estudos ou diretrizes internacionais, embora relevante em determinados cenários, nem sempre resulta em evidências eficazes para as realidades locais.

Logo, uma reflexão que se impõe para o momento é a necessidade de construção de um universo informacional-científico mais relevante. Para tanto, é fundamental repensar os critérios de avaliação acadêmica, deslocando o foco da quantidade para a qualidade e relevância da evidência gerada. Adicionalmente, ao alinhar a produção científica às problemáticas e realidades locais, podemos assegurar que o conhecimento produzido seja não apenas abundante, mas também aplicável, transformador e coerente com a responsabilidade social inerente ao financiamento público da ciência. jornal.usp.br