“Sempre tive uma opção preferencial pelos marginais”
Por Cely Carolyne Pontes Morcerf, doutoranda da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP
Afrase do título, de autoria da médica Nise da Silveira, inicia a nossa história, que dialoga com uma trajetória acadêmica, inspirada na vida e na obra de uma mulher que revolucionou o cuidado em saúde mental, baseada no afeto, e que nasceu no dia 15 de fevereiro de 1905, em Maceió, Alagoas.
“Eu vim de lá, eu vim de lá pequenininho. Alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho”, o trecho da música que eleva a nossa voz e dialoga com narrativas ao som do samba de dona Ivone Lara. Simboliza aqui um conto de resistências que surgem em momentos em que decidimos seguir uma vida baseada em propósitos, em busca de mudanças sobre formas de como a educação e a prática médica são firmadas na atualidade.
Na tentativa de superação de tradicionalismos, entendemos as dores e necessidades de uma comunidade que carece de empatia, de um olhar centrado nas pessoas, na humanização do cuidado e não apenas na reprodução de protocolos clínicos e de prescrições de receitas em um fenômeno da medicalização da vida em suas esferas físicas e mentais. Mais um diagnóstico. O rotular o ser humano em suas particularidades do saber médico tradicionalista de um passado ainda perpetuado ofusca a beleza do desenvolvimento de identidades e histórias de vida.
As vivências e reflexões de Nise dialogam com os desafios atuais da valorização e implementação de abordagens em saúde mental, em momentos em que a simplicidade do cuidado integral é muitas vezes substituída pela valorização do fechamento de um diagnóstico, da alta médica hospitalar, da hiperespecialização médica junto à fragmentação do cuidado humano, ao modelo médico-centrado, à priorização do preenchimento de produções e números como máximas de resultados positivos.
E qual o lugar de quem escolhe olhar para as pessoas que se encontram à margem, refletindo a exclusão por navegar contra a corrente? O estigma em saúde. “Se o caminho é meu. Deixa eu caminhar, deixa eu”, canta Dona Ivone Lara, mostrando o brilho do trabalho da enfermagem no resgate da pessoa humana, considerando a importância do vínculo, do olhar para a história da pessoa, das famílias, para a reinserção na sociedade, fortalecendo a importância do cuidado em liberdade junto à novas práticas em saúde mental.
“Mostrando que o louco não era necessariamente uma ruína”, a coragem de não agradar e seguir o próprio caminho, em equipe, valorizando o protagonismo e a biografia do paciente, chamado de cliente e que chamamos de Pessoa, na perspectiva de homenagem à trajetória de Nise e à de dona Ivone sob a ótica da Medicina de Família e Comunidade.
Trago assim um pouco do meu encontro teórico e biográfico com Nise da Silveira, desde os estudos sobre sua vida na minha infância, em minha cidade natal que também é a dela: Maceió, Alagoas. Essa heroína feminina moldou meus passos e pensamentos em busca de novas formas do cuidado em saúde mental, por uma visão integral, familiar e comunitária dentro da assistência médica em saúde, da importância do trabalho interprofissional para melhorias do paciente em atitudes, comportamentos, engajamento e motivação.
E por fim, mas não menos importante, a busca de novas formas do ensino do Cuidado Integral em Saúde Mental para Populações Marginalizadas e Excluídas para médicos residentes em Medicina de Família e Comunidade, da USP, o que se transformou em minha tese de doutorado e que visa à criação de agentes multiplicadores, questionadores e de possibilidades no encontro, no resgate da saúde mental em contextos de privações de liberdade, de direitos humanos, de dignidade e de vulnerabilidades no ciclo vital.
Porém, como navegar contra a corrente requer espírito de aventura, coragem, perseverança e paixão, muitas vezes pessoas com vocação e desejo de promover mudança nos cuidados em saúde mental acabam se perdendo pelo caminho. E isso ocorre por não encontrarem suporte, modelos e parcerias, ao mesmo tempo em que sofrem a resistência de uma sociedade que não reconhece essa proposta do fazer medicina baseada no afeto, na arte e no humanismo como alvo de prestígio. Assim, o estigma em saúde se perpetua para os que escolhem nadar contra a corrente, se espantar, se indignar e ousar transformar a realidade.
Lembro que quando iniciei meus estudos em Terapia Ocupacional, inspirada no trabalho de Nise, observei o papel da arte como forma de diálogo com os pacientes, como forma terapêutica do fazer saúde. Iniciei a criação de reproduções do fazer arte em ambientes de saúde mental, mas não apenas ao nível hospitalar. Agora com destaque para serviços descentralizados do cuidado, na comunidade, dialogando com famílias e trazendo-as para o envolvimento na proposta de construção em conjunto com as pessoas.
Esse modelo foi transferido também para pessoas em sofrimento mental e vulnerabilidades em comunidades de mulheres vítimas de violência, crianças e adolescentes em sofrimento mental partindo do engajamento da escola com a arte e finalmente, e pacientes em unidades de saúde, em situação de rua e em contextos de privação de liberdade. E no passado, utilizando a comunidade como um laboratório social, junto vivências pessoais e o estudo da narrativa de Nise da Silveira, de Maceió para o período de minha graduação no Rio de Janeiro, onde conheci locais históricos que serviram de passagem para nossa protagonista.
Mas apesar de admirar a revolução feita por Nise na psiquiatria, sentia que não era meu lugar, pela paixão associada à clínica médica, à infectologia no aspecto de doenças negligenciadas e, principalmente, pelo gosto que sempre tive pelos excluídos. Pelos marginais. E estudando a marginalização, me encanto pelo modelo biopsicossocial, assim como descubro o trabalho de quem seria meu atual orientador e mentor de mestrado e doutorado: o professor João Mazzoncini de Azevedo Marques, docente da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP.
Tal qual o encontro de Nise com seu mentor Carl Jung, envio uma correspondência (eletrônica, por estar na era de ouro da internet em detrimento das cartas da época de Nise) destacando como a minha trajetória de estudos em Alagoas e no Rio de Janeiro dialogavam com os estudos do professor, sobre o cuidado biopsicossocial integral e centrado nas pessoas. Desse encontro, surge não apenas a proposta educacional de minha tese, com o resgate histórico de Nise, mas também a elaboração de uma nova formação em especialidade para médicos de família e comunidade no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto da USP: a ênfase de um ano adicional em Saúde Mental e Populações Negligenciadas.
Sigo então o meu caminho, finalizando meu doutorado em um desfecho semelhante à tese de Nise da Silveira, mostrando o percurso que desejo trilhar na minha vida médica e acadêmica, trabalhando com os marginais: a visão do crime como um fenômeno biopsicossocial, na luta por novas formas de ensinar empatia e cuidar da saúde de pessoas nos momentos mais vulneráveis de suas vidas. Eis aí um legado que agradece ao nascimento de minha conterrânea Nise, o meu modelo de médica, gestora e professora, em um momento em que muitos me acusaram de retrocesso por acreditar no potencial da Medicina de Família e Comunidade na promoção de novas abordagens em saúde mental.
Porque a regra é não se envolver.
É a neutralidade.
E com uma pessoa neutra você não se abre.
É o afeto catalisador.
— Nise da Silveira