Sustentabilidade como projeto de futuro

Por Patrícia Iglecias, superintendente de Gestão Ambiental da USP e coordenadora do USPproClima

Durante muito tempo, a discussão sobre desenvolvimento esteve associada quase exclusivamente ao crescimento econômico. Produzir mais, consumir mais e expandir mercados eram indicadores suficientes para medir o sucesso de países e organizações. Nas últimas décadas, porém, tornou-se evidente que prosperidade e sustentabilidade não podem seguir caminhos distintos.
As mudanças climáticas, a perda da biodiversidade, a escassez de recursos naturais e o aumento das desigualdades sociais colocaram em xeque modelos tradicionais de desenvolvimento. Nesse contexto, a agenda ambiental, social e de governança, conhecida pela sigla em inglês ESG (Environmental, Social and Governance), deixou de ser um conceito restrito ao universo corporativo para se tornar um elemento central das estratégias de desenvolvimento sustentável.

Embora muitas vezes apresentada como uma novidade, a agenda ESG reúne princípios que vêm sendo construídos há décadas em conferências internacionais, acordos multilaterais e marcos regulatórios. Seu grande mérito foi aproximar o setor privado de uma discussão que antes parecia pertencer apenas aos governos e aos organismos internacionais. A experiência internacional demonstra que sustentabilidade e competitividade não são conceitos incompatíveis. Países e organizações que investem em inovação, eficiência e governança tendem a estar mais preparados para enfrentar crises econômicas, ambientais e sociais.

A agenda ESG não representa uma ruptura com o desenvolvimento, mas uma evolução do próprio conceito de progresso. Em um mundo marcado pela interdependência e pela urgência climática, discutir sustentabilidade deixou de ser uma escolha. Tornou-se uma exigência para garantir que as próximas gerações encontrem condições para prosperar.

Essas reflexões estiveram no centro das discussões que tive a oportunidade de compartilhar recentemente em Helsinque, na Finlândia, durante encontro internacional dedicado aos desafios e às oportunidades do desenvolvimento sustentável. O diálogo com pesquisadores, gestores públicos e representantes do setor privado de diferentes países reforçou uma percepção cada vez mais evidente: a construção de um futuro sustentável dependerá menos de soluções isoladas e mais da nossa capacidade de atuar de forma integrada, responsável e comprometida com as próximas gerações.

A pergunta que permanece não é se devemos incorporar esses princípios, mas quão rapidamente conseguiremos transformá-los em prática cotidiana, em políticas públicas efetivas e em uma cultura institucional capaz de conciliar crescimento, responsabilidade e futuro. jornal.usp.br