Uma Copa entre guerras e paz
Por Luciano Victor Barros Maluly, professor, e Patrícia Rangel Rodrigues, pós-doutoranda, ambos na Escola de Comunicações e Artes da USP
Apesar dos esforços dos canais de comunicação, especialmente os detentores dos direitos de transmissão, a Copa do Mundo de Futebol Masculino de 2026, que será realizada nos Estados Unidos da América, Canadá e México, pouco chama a atenção do público.
O melhor momento até agora foi o patético suspense criado em torno da convocação do veterano jogador Neymar, uma estrela em decadência dentro e fora dos gramados, que sempre está envolto às contusões e às polêmicas. Os barzinhos das cidades brasileiras até receberam pequenos grupos de torcedores à espera do desfecho desse drama. O anúncio, com final feliz, ficou a cargo do treinador italiano da seleção canarinho, Carlo Ancelotti, contratado a peso de ouro pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
De resto, as preocupações em torno de um dos principais megaeventos esportivos do planeta ganharam força – e consequentemente as manchetes dos jornais – com a atual política externa do governo estadunidense. As invasões à Venezuela e ao Irã, a perseguição aos imigrantes e a pressão (também) econômica sobre vários países, incluindo antigos parceiros, trouxeram um descontamento geral sobre a real importância do torneio.
A atual conduta estadunidense chegou ao público da mesma forma que a convocação de Neymar, mas com Donald Trump como a estrela de um cenário triste e desanimador. A pauta sobre a Copa do Mundo ganhou um tom político, muitas vezes recheado de pressuposições na voz dos amantes do futebol.
Uma delas tem como centro a invasão da Ucrânia pela Rússia, que teve como consequência a suspensão dos atletas russos das principais competições esportivas internacionais. Seguindo a lógica dessa decisão dos órgãos responsáveis, os atletas estadunidenses deveriam ser suspensos junto com os atletas de Israel (que se defende com a justificativa de que seu território é constantemente atacado pelos países vizinhos do Oriente Médio que, assim, também deveriam ser afastados). Se o assunto se arrasta, o grupo de nações a ser suspenso aumenta a cada debate, quando se inclui os membros aliados nessas guerras e também de outros países em conflito ao redor do mundo. Ou seja, o resultado final seria o cancelamento da principal competição da Fifa, assim como dos Jogos Olímpicos e de outros certames globais.
Como consequência dessa conversa, o preconceito, particularmente a xenofobia, revela-se por meio de argumentos injustificáveis que levam, inclusive, ao antissemitismo, ao antiamericanismo, à islamofobia, entre outros sentimentos de ódio e aversão. Sendo assim, a Copa do Mundo de 2026 começa a ser comparada ao torneio de 1934, que foi realizado na Itália durante o regime fascista de Benito Mussolini.
Como já observado, a competição, que acontecerá entre 11 de junho e 19 de julho deste ano, será um desafio para os jornalistas dos canais que estarão in loco nos países-sede. Em meio aos conflitos, os comunicadores esperam que, mesmo por poucos minutos, os torcedores se esqueçam desse contexto quando suas equipes entrarem em campo. Afinal, a alegria da vitória e a tristeza da derrota integram o cotidiano de uma sociedade competitiva e alimentada pelos resultados. Ao final de cada partida, quem sabe por um simples aperto de mãos, renasça o ensinamento deixado por John Lennon, como está descrito em um trecho da música Imagine:
“… Imagine que não há países. Não é difícil. Nenhum motivo para matar ou morrer… e nenhuma religião também. Imagine todas as pessoas vivendo em paz…”
Certa vez, o jornalista Armando Nogueira comentou a notícia de que, mesmo com a divisão da antiga Tchecoslováquia, um grupo de eslovacos torcia pela República Tcheca na final do Campeonato Europeu de Futebol Masculino de 1996, realizado na Inglaterra e vencido pelos alemães. Uma frase é marcante e fica como mensagem: “O esporte une o que a política separa”. jornal.usp.br