Pesquisa aponta que desigualdade social dificulta acesso à atividade física no lazer
Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) revelou que a desigualdade social continua sendo um dos principais obstáculos para a prática de atividade física no tempo livre no Brasil. A pesquisa, que acompanhou durante dez anos 978 moradores da capital paulista, mostra que homens brancos com maior escolaridade ampliaram os níveis de exercícios físicos ao longo do período, enquanto mulheres pretas, pardas, indígenas e asiáticas com baixa escolaridade permanecem entre os grupos que menos conseguem praticar atividades de lazer.
Os resultados foram publicados no periódico International Journal of Behavioral Nutrition and Physical Activity e são considerados pioneiros por acompanharem os mesmos participantes em três momentos distintos: 2014/2015, 2020/2021 e 2023/2024.
Segundo os pesquisadores, a prática de atividade física não depende apenas da motivação individual, mas também de fatores sociais, econômicos e ambientais. Aspectos como renda, escolaridade, segurança, infraestrutura urbana e acesso a espaços públicos influenciam diretamente as oportunidades de manter uma rotina ativa.
A nutricionista Andreia Alexandra Machado Miranda, autora principal do estudo e pesquisadora do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) da USP, destaca que as desigualdades não apenas persistiram, mas aumentaram ao longo da década analisada.
No início da pesquisa, 51% dos homens brancos com maior escolaridade praticavam atividade física no lazer, contra 29% do grupo considerado mais vulnerável. Ao final do acompanhamento, esses percentuais passaram para 65% e 39%, respectivamente, ampliando a distância entre os grupos.
Entre as principais barreiras enfrentadas pelas mulheres estão a sobrecarga do trabalho doméstico, menor remuneração, falta de tempo, insegurança para utilizar espaços públicos e deficiência de infraestrutura em bairros periféricos, como iluminação insuficiente e escassez de áreas destinadas ao esporte e ao lazer.
Para avaliar essas diferenças, os pesquisadores utilizaram um índice de vulnerabilidade social que considerou sexo, raça/cor da pele e nível de escolaridade, permitindo identificar como esses fatores se combinam para ampliar as desigualdades de acesso à atividade física.
Benefícios para a saúde
Além de promover bem-estar físico e mental, a prática regular de exercícios reduz o risco de doenças cardiovasculares, acidente vascular cerebral (AVC), diabetes, obesidade e fortalece o sistema imunológico.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que adultos realizem entre 150 e 300 minutos semanais de atividade física moderada ou entre 75 e 150 minutos de atividade vigorosa.
Apesar disso, cerca de 31% da população adulta mundial — aproximadamente 1,8 bilhão de pessoas — ainda não alcança os níveis mínimos recomendados. O sedentarismo está relacionado a cerca de cinco milhões de mortes por ano.
No Brasil, dados do Vigitel 2024 mostram que 42,3% dos adultos atingem a recomendação mínima de atividade física semanal. O índice é maior entre os homens (47,7%) do que entre as mulheres (37,9%). A meta do Ministério da Saúde é elevar esse percentual para 50,7% até 2030.
Caminhada no deslocamento apresenta menor desigualdade
Diferentemente da atividade física realizada no lazer, a caminhada como forma de deslocamento apresentou distribuição mais equilibrada entre os diferentes grupos sociais.
A adesão a essa prática aumentou de 61,8% para 71,6% ao longo do estudo, com maior frequência entre homens jovens, pretos e pardos com ensino médio.
Segundo os pesquisadores, caminhar para o trabalho, escola ou outros compromissos está mais relacionado às necessidades do cotidiano e às condições de mobilidade urbana do que à escolha por um estilo de vida ativo. Ainda assim, o incentivo ao transporte ativo, aliado à ampliação do transporte coletivo e da infraestrutura urbana, pode contribuir para melhorar a saúde da população.
Os autores defendem que políticas públicas voltadas à redução das desigualdades, à melhoria dos espaços urbanos e ao acesso seguro a locais para prática esportiva são fundamentais para ampliar as oportunidades de atividade física, especialmente entre os grupos mais vulneráveis. O estudo também destaca iniciativas como a expansão das ciclovias em São Paulo, que têm estimulado o uso da bicicleta como meio de transporte e lazer.