Ultrassom pode destruir vírus da gripe e da COVID-19 sem afetar células humanas, aponta estudo
Técnica baseada em ondas de alta frequência surge como alternativa promissora contra infecções virais, incluindo dengue, zika e chikungunya
Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) descobriram que ondas de ultrassom de alta frequência — semelhantes às utilizadas em exames médicos — podem inativar vírus como o da COVID-19 e o da influenza A sem causar danos às células humanas.
O estudo, publicado na revista Scientific Reports, mostra que o efeito ocorre por meio de um fenômeno chamado ressonância acústica, capaz de provocar alterações estruturais nos vírus até sua ruptura.
De acordo com o coordenador da pesquisa, Odemir Martinez Bruno, do Instituto de Física de São Carlos (IFSC-USP), a energia das ondas sonoras atua diretamente na estrutura viral.
“É como se o vírus fosse desestabilizado pela vibração. A energia acumulada provoca deformações na membrana protetora, o chamado envelope, até que ela se rompe, impedindo a infecção de células humanas”, explica.
Potencial para novas terapias
A técnica abre caminho para o desenvolvimento de tratamentos contra vírus envelopados — grupo que inclui, além do coronavírus e do H1N1, doenças como dengue, zika e chikungunya. Testes laboratoriais com esses patógenos já estão em andamento.
Segundo os pesquisadores, a abordagem é especialmente relevante diante das dificuldades no desenvolvimento de antivirais tradicionais.
Além disso, o método é considerado uma alternativa sustentável, já que não gera resíduos, não impacta o meio ambiente e não induz resistência viral.
Descoberta desafia teorias clássicas
Um dos aspectos mais surpreendentes do estudo é que o fenômeno contraria previsões da física tradicional. Em teoria, o comprimento de onda do ultrassom seria grande demais para interagir com partículas tão pequenas quanto os vírus.
A explicação está na geometria: vírus com formato esférico conseguem absorver melhor a energia das ondas sonoras. Esse acúmulo interno gera vibrações que levam à ruptura da estrutura viral — um efeito comparado pelos cientistas ao estouro de uma pipoca.
Por depender da forma do vírus, e não de suas mutações genéticas, a técnica tende a manter a eficácia mesmo diante de variantes.
Diferença em relação a métodos já existentes
O uso do ultrassom não é novidade na desinfecção de materiais, mas o mecanismo é diferente. Em equipamentos médicos e odontológicos, o processo ocorre por cavitação, que destrói indiscriminadamente células e microrganismos.
Já a ressonância acústica atua em frequências mais altas (entre 3 e 20 MHz) e de forma seletiva: atinge o vírus sem alterar temperatura ou pH do meio e sem prejudicar células humanas.
Pesquisa multidisciplinar e colaboração internacional
O estudo reuniu cientistas de diversas áreas, incluindo física, virologia e farmacologia, com participação de instituições como a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP), a Unesp e a Universidade Federal de Alfenas.
A pesquisa também contou com a colaboração do Nobel de Medicina Charles Rice, da Universidade Rockefeller (EUA), que forneceu vírus fluorescentes utilizados nos experimentos.
Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores ressaltam que a aplicação clínica da técnica ainda depende de novas etapas de validação.