Costura terapêutica: como atividade manuais tem ajudado pessoas neurodivergentes a desenvolver foco, autonomia e expressão

Linhas, tecidos e agulhas têm ultrapassado o universo da moda para ocupar um novo espaço, o do desenvolvimento cognitivo, emocional e social. Cada vez mais utilizadas em contextos terapêuticos e educacionais, atividades manuais como a costura têm auxiliado pessoas neurodivergentes no estímulo à concentração, coordenação motora, autonomia e interação social.

Na escola de costura criada pela designer de moda Priscila Azevedo, no Distrito Federal, alunos neurodivergentes aprendem técnicas de modelagem e costura em aulas e turmas adaptados às diferentes necessidades sensoriais e níveis de suporte. Mais do que ensinar uma atividade manual, o espaço busca criar um ambiente acolhedor, onde o aprendizado acontece no ritmo de cada aluno.

“Muitas dessas crianças chegam à escola por indicação de psicólogos, no início tímidas, inseguras e até resistentes ao contato social. Com o tempo, passam a se sentir pertencentes ao ambiente, criam vínculos, ganham autonomia e começam a confiar mais nas próprias capacidades. E existe algo muito especial nesse processo, a felicidade delas de poder criar peças pensadas por elas e para elas”, afirma Priscila.

Segundo a psicóloga e neurocientista Mayra Gaiato, a costura reúne estímulos importantes para o desenvolvimento de pessoas autistas porque envolve organização visual, coordenação motora fina e percepção sensorial.

“Essas atividades trabalham atenção, concentração e sequência lógica, já que existe começo, meio e fim. Além disso, por exemplo, o estímulo visual costuma ser um ponto forte em pessoas autistas, e conseguimos usar essa facilidade para fortalecer áreas que apresentam maior dificuldade”, explica.

Além dos benefícios cognitivos e emocionais, atividades manuais podem favorecer habilidades práticas do cotidiano. De acordo com Mayra Gaiato, exercícios ligados à motricidade fina ajudam em tarefas como escrita, alimentação, organização pessoal e cuidados com as próprias roupas, fortalecendo a independência e autonomia.

Para Priscila que acompanha de perto o desenvolvimento dos alunos, o avanço é uma conquista importante não apenas para os alunos, mas também para as famílias. “No começo, muitos pais acompanham os filhos nas aulas por medo de eles não se adaptarem ou não se sentirem confortáveis no ambiente. Mas, com o tempo, eles vão se soltando. E é emocionante quando chega o momento em que esses alunos passam a vir sozinhos para as aulas. Alguns começaram fazendo apenas um curso experimental e hoje já estão no segundo, no terceiro curso”, afirma Priscila

Da atividade terapêutica à possibilidade de renda

Em um país onde a inclusão profissional ainda enfrenta barreiras, apenas 3 em cada 10 adultos autistas possuem emprego formal, segundo dados do Mapa Autismo Brasil. Com o tempo, o que começa como estímulo terapêutico pode se transformar também em oportunidade profissional. Atividades como a costura podem abrir caminhos para geração de renda, independência financeira e inclusão produtiva.

“Uma pessoa neurodivergente não é incapaz. Quando encontramos seus talentos e potencialidades, ela pode se tornar uma profissional extremamente competente”, ressalta Mayra Gaiato.

A psicóloga destaca, no entanto, que o principal desafio ainda está no acesso ao mercado de trabalho. Dificuldades relacionadas à comunicação social frequentemente impedem que pessoas autistas consigam demonstrar suas habilidades em processos seletivos tradicionais.

“Dentro da costura existem muitas possibilidades, e isso faz diferença para pessoas neurodivergentes. A atividade oferece liberdade criativa, permite que cada aluno encontre o próprio ritmo e desenvolva peças com as quais se identifica. Alguns gostam mais da criação, outros da parte técnica ou dos detalhes manuais. Com o tempo, a costura também pode se transformar em uma profissão”, afirma Priscila Azevedo.