Espetáculo infantil, Tranças volta aos palcos e vai percorrer quilombo goiano

Clássico da literatura infantil ganha versão mais atualizada e dinâmica, com valorização da identidade negra e da diversidade cultural brasileira

Oito anos depois da estreia na rede pública de ensino de Goiânia, a peça itinerante “Tranças” está de volta em cartaz em uma versão completamente renovada, mais conectada com o universo infantil e com novidade: desta vez, além dos palcos, a temporada chegará à região do Quilombo Pilões, localizado no município de Iporá. Baseado na obra literária, “As Tranças de Bintou”, escrita por Sylviane A. Diouf, o espetáculo, encenado pelo Grupo Teatro Destinatário, conta com cinco apresentações e estreia no dia 13 de novembro, às 14h30 (para alunos da rede municipal de ensino); às 19h30 (para público aberto), no Instituto Rizzo, na Avenida Cora Coralina, 242, Setor Sul, em Goiânia. A entrada é franca.

A reestreia acontece no mês da Consciência Negra, que comemora também 15 anos de história, resistência e amor à arte do Teatro Destinatário. Trajetória construída com dedicação, encontros e muitos momentos compartilhados com o público. Além da apresentação no Instituto Rizzo, (13/11), Tranças poderá ser conferida no dia 26, no Pontão de Cultura Cidade Livre, em Aparecida de Goiânia (endereço abaixo), em dupla apresentação: às 14h30, para alunos de escolas públicas; e, às 19h30, para público aberto. Em dezembro, a quinta apresentação acontecerá no dia 5, no Quilombo Pilões, que também contará com oficina de Estética e Beleza Negra no dia 6.

Tranças acompanha Bintou, uma menina da África Ocidental (com fortes traços e referências culturais da região do Senegal, de onde a família da autora é originária), que sonha em usar tranças longas e enfeitadas, como as mulheres e sua irmã mais velha. Porém, por ser jovem demais, usa apenas quatro pequenos birotes (coques) na cabeça. Mais do que uma história sobre cabelos, a peça retrata temas como identidade, tradição, paciência, o poder dos sonhos e o valor de cada fase da vida.

A montagem, com direção de Luciano Di Freitas, nasceu do desejo de levar às escolas e espaços culturais, estéticas que valorizem os cabelos, a cor da pele, a riqueza da cultura afro-brasileira, para que as crianças se reconheçam.

“A peça fala sobre tradição e beleza negra para crianças. Traz elementos do Brasil e de Moçambique, que buscamos mediar para criar um momento de lazer, entretenimento e educação. Acredito que se ver representado em um lugar de destaque e de realeza, faz com que crianças possam se olhar no espelho, reconhecerem-se belas e se amar, criando novos imaginários estéticos e de autoestima”, explica.

Em cena
No palco, as atrizes Izabelle Eleonora e Jessika Hannder encenam, respectivamente, Vovó Soukeye e Bintou. Cabe à matriarca explicar a tradição e o motivo de as crianças pequenas usarem apenas birotes. A avó diz que a vaidade e as tranças terão o seu momento certo quando ela crescer. Porém, a menina considera o próprio cabelo curto, crespo e sem graça. O curso da história muda quando a criança demonstra grande bravura ao salvar dois meninos que se afogavam.

Para Izabelle, a peça não só conta uma aventura, mas também traz elementos visuais e artesanais que fazem parte do cotidiano goiano e que também são usados em África, gerando uma conexão. “Tranças proporciona uma proximidade e afetividade nas relações e vivências contadas em cena. Quebra a distância dos oceanos com a correspondência de afetividade e elementos comuns à nossa cultura. Bintou nos ensina que os sonhos e desejos precisam de tempo e apoio, para que se realizem, que é necessário ter coragem, mas sobretudo bons diálogos e encontros”, pontua.

O espetáculo é para as infâncias e para toda a família. Entrelaça contação de histórias, música e dança em uma linguagem sensível e encantadora. Em cena, o brincar conduz a narrativa, os corpos dançam memórias e as canções ecoam saberes da cultura popular. Criam um espaço de imaginação, afeto e partilha, como fios que se cruzam com delicadeza. As histórias ganham ritmo, gesto e poesia, convidando o público de todas as gerações a escutar, sentir e se reconhecer no encanto simples de estar junto.

“A montagem é importante por valorizar a cultura afro-brasileira e africana desde a infância. Promove o reconhecimento da beleza negra, da ancestralidade e da identidade. Contribuiu para a construção de uma sociedade mais consciente, respeitosa e plural. Além disso, dialoga com a Lei 10.639/2003, que estabelece a obrigatoriedade do ensino da história e da cultura africana e afro-brasileira nas escolas”, destaca Jessika.

Em 2026, ano em que completa oito anos de trajetória, Tranças ganha uma nova montagem, resultado do amadurecimento artístico do grupo e das pesquisas desenvolvidas sobre teatro negro, culturas africanas e afro-brasileiras. A nova versão, contemplada pela Política Nacional Aldir Blanc estadual (PNAB), apresenta dramaturgia revisitada, atualização estética, incorporação de vocábulos em iorubá, novas soluções visuais, sonoras e uma encenação ainda mais comprometida com a valorização da identidade negra e da diversidade cultural brasileira.

Histórico do espetáculo
Estreado em 2018, Tranças foi contemplada pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Goiânia, que possibilitou sua criação, montagem e circulação inicial em escolas da rede pública municipal. Desde sua estreia, a obra contribuiu para a ampliação da presença de narrativas afro-referenciadas destinadas à infância, promovendo o diálogo entre teatro, educação, ancestralidade e representatividade.

Inspirado na obra literária, As Tranças de Bintou, e nas tradições da oralidade africana, a montagem consolidou-se como um dos principais trabalhos do Teatro Destinatário, desenvolvendo uma linguagem que aproxima a contação de histórias, o teatro contemporâneo e as culturas africanas e afro-brasileiras. Ao longo de sua trajetória, o espetáculo realizou apresentações em escolas, teatros, centros culturais e festivais, alcançando públicos de diferentes faixas etárias, fortalecendo ações de formação de plateia.

A peça também se tornou objeto de reflexão acadêmica. A pesquisa estética e pedagógica fundamenta-se em artigos científicos, comunicações em eventos e investigações voltadas às relações entre teatro, infância, estética negra e processos de criação cênica. A proposta é evidenciar o espetáculo como experiência artística e campo de produção de conhecimento. A interlocução entre universidade e prática teatral reforça o compromisso do grupo com uma criação fundamentada em pesquisa e na valorização das epistemologias negras.

Serviço
– O que: Espetáculo Tranças, com o Grupo Teatro Destinatário
– Quando:
novembro
13- Instituto Rizzo, às 19h30- Avenida Cora Coralina, 242, Setor Sul, Goiânia
26- Pontão de cultura cidade livre, às 19h30- Pontão de Cultura Cidade Livre, Avenida Progresso, Quadra 21, Lote 04, Casa 01, Jardim Monte Cristo, Aparecida de Goiânia

dezembro
5- apresentação no Quilombo Piloēs, município de Iporá, às 16h
6-Oficina de Estética e Beleza Negra das 9h às 12h
– Entrada franca