Falta de hábito de prevenção afasta homens dos cuidados com a saúde

Aos 23 anos, Rafael admite que só procura assistência quando os sintomas se tornam insuportáveis. Sua experiência revela um comportamento construído desde a infância, que pode comprometer o diagnóstico oportuno de doenças na vida adulta

Ser forte, não chorar, suportar a dor e priorizar o trabalho em vez da própria saúde. A ideia de masculinidade construída ainda na infância ajuda a explicar por que tantos homens deixam consultas e exames em segundo plano. Aos 23 anos, o vendedor Rafael Alves de Souza reconhece que cresceu sem receber orientações sobre a importância do autocuidado. “Desde pequeno, nunca tive uma conversa sobre isso com meus pais, nem com um amigo que falasse: nossa, a gente tem que se cuidar. O homem sempre deixado de lado”, relata.

A percepção do jovem é corroborada pela psicóloga Karina Siqueira, da rede Hapvida. Segundo ela, a resistência masculina ao acompanhamento médico é resultado de uma construção social que também impede muitos homens de reconhecer e expressar o próprio sofrimento. “Se entende muito que o homem não sente dor, não sofre, não tem essa permissão para esse sofrimento. O machismo é prejudicial para ambos os gêneros. E um dos prejuízos é essa falta de autocuidado na grande maioria dos homens”, explica. Para a especialista, o incentivo à saúde física e mental precisa começar desde cedo, rompendo com a ideia de que procurar ajuda representa fragilidade.

O problema ganha dimensão diante dos números do câncer de próstata. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 77.920 novos casos da doença por ano no Brasil entre 2026 e 2028, o equivalente a 74,62 ocorrências para cada 100 mil homens. O tumor é o mais incidente entre a população masculina em todas as regiões do país. Segundo o Ministério da Saúde, nove em cada dez homens diagnosticados têm mais de 55 anos e, na fase inicial, a doença geralmente não apresenta sintomas. Os dados reforçam a importância da atenção à saúde ao longo da vida, especialmente porque a ausência de sintomas não significa necessariamente ausência de doença.

Embora Rafael ainda não esteja distante da faixa etária de maior incidência, sua relação com a prevenção revela uma questão anterior: a falta de hábito de procurar assistência médica. Ele nunca fez acompanhamento urológico e acredita que só deverá pensar nisso quando chegar aos 40 anos. Além disso, admite que o exame de toque ainda é cercado por preconceitos. “É um exame invasivo e acaba que a masculinidade fica frágil. Os amigos vão descobrir e virar uma piada”, afirma. O receio demonstra como a associação entre saúde, intimidade e masculinidade pode alimentar a resistência aos cuidados médicos, a partir do machismo cultural.

A experiência do vendedor com outros problemas de saúde mostra que esse comportamento não se restringe à prevenção do câncer. Aos 14 anos, durante uma semana de provas escolares, ele começou a apresentar episódios de mal-estar associados à ansiedade. Diagnosticado com refluxo, recebeu indicação de acompanhamento psicológico, mas interrompeu os medicamentos e deixou a terapia. Próximo dos 18 anos, novos exames identificaram gastrite, mas novamente não seguiu o tratamento corretamente. “Eu parei de tomar os remédios, comecei a tratar do meu jeito, passando mal ou não”, conta. Somente depois de uma piora significativa voltou a procurar assistência.

Atualmente, após uma endoscopia identificar gastrite e a presença da bactéria H. pylori, Rafael está em tratamento medicamentoso para combater a infecção e deverá repetir o exame para verificar se a bactéria foi eliminada e dar continuidade ao tratamento. A procura pelo médico, entretanto, aconteceu quando os sintomas já estavam intensos. “Eu estou tratando porque dessa vez fiquei muito ruim. Se não fosse por isso, acho que não teria procurado. Só vou ao médico quando não estou suportando mais”, admite.

Para a psicóloga, mudar essa realidade exige uma transformação na maneira como os meninos são educados e como os homens compreendem suas prioridades. A especialista defende que a conscientização seja acompanhada de informações objetivas sobre as consequências de negligenciar a saúde.

Ao conhecer os números do câncer de próstata, Rafael também reconhece que nunca havia dimensionado a importância do problema. “Eu não sabia que estava nesse nível. Mas, quando temos acesso a essas informações, passamos a refletir sobre o assunto. Não podemos esperar que o problema apareça para só então buscar ajuda, pois pode ser tarde demais.”, conclui.