Cerimedo, propagador de fake news e aliado dos Bolsonaro, tem segunda prisão preventiva decretada
Justiça boliviana determinou que o consultor argentino permaneça por seis meses no presídio de Chonchocoro em investigação por suposto enriquecimento ilícito
A Justiça da Bolívia decretou uma segunda prisão preventiva contra o consultor político argentino Fernando Cerimedo, conhecido por sua atuação em campanhas da direita latino-americana, pela propagação de alegações falsas sobre o sistema eleitoral brasileiro e por sua proximidade política com a família Bolsonaro. A nova decisão determina que ele permaneça por seis meses no presídio de segurança máxima de Chonchocoro enquanto é investigado por suposto enriquecimento ilícito, em um caso que também envolve suspeitas de lavagem de dinheiro.
A decisão, informada pela TeleSur, é independente da prisão preventiva anteriormente determinada contra Cerimedo após sua detenção, em agosto, em Santa Cruz de la Sierra. Naquele caso, ele foi acusado de tentativa de assassinato contra sua ex-companheira. Cerimedo também aparece em outras investigações conduzidas pelas autoridades bolivianas. As acusações ainda estão sob apuração, e não representam condenação definitiva.
Dinheiro e equipamentos estão entre elementos da investigação
A nova imputação está relacionada a elementos apreendidos durante as investigações, entre eles dinheiro em espécie, telefones satelitais, modems e outros dispositivos equipados com chips.
Uma caminhonete também aparece entre os bens associados à apuração, que alcançou imóveis relacionados a Cerimedo.
As autoridades investigam a origem dos recursos e procuram estabelecer se os bens e valores encontrados são compatíveis com as atividades econômicas declaradas pelo consultor.
Suspeitas de lavagem com criptomoedas
Outro eixo das investigações envolve movimentações realizadas por meio de criptomoedas.
Segundo o senador boliviano Leonardo Roca, foram identificadas contas que movimentaram milhões de dólares e realizaram sucessivas transferências para diferentes endereços digitais.
Investigadores analisam se esse padrão pode configurar layering, mecanismo no qual recursos são movimentados por sucessivas operações para dificultar a identificação de sua origem e de seu destino final.
A existência dessas movimentações, porém, não significa por si só comprovação de lavagem de dinheiro. Cabe às autoridades estabelecer a procedência dos valores e eventual relação com atividades criminosas.
Investigações alcançam suspeitas relacionadas ao narcotráfico
Cerimedo também é investigado por supostas conexões com operações envolvendo voos irregulares que teriam relação com o narcotráfico.
As apurações buscam determinar se o argentino teria participado de uma estrutura de proteção ou facilitação dessas operações.
Também existem suspeitas sobre possíveis conexões com o setor de hidrocarbonetos boliviano. Investigadores apuram eventual participação de Cerimedo em acordos envolvendo combustível adulterado e possíveis relações com integrantes ou estruturas da estatal YPFB.
Essas suspeitas permanecem sob investigação.
Aliado dos Bolsonaro ganhou projeção atacando urnas brasileiras
No Brasil, Cerimedo tornou-se conhecido sobretudo depois da eleição presidencial de 2022.
Aliado político da família Bolsonaro, ele participou da disseminação de alegações de fraude envolvendo as urnas eletrônicas brasileiras depois da derrota de Jair Bolsonaro para Luiz Inácio Lula da Silva.
Cerimedo realizou uma transmissão na qual apresentou alegações destinadas a colocar sob suspeita o resultado da eleição. As teses sobre fraude eleitoral difundidas naquele período não foram comprovadas.
Sua atuação tornou-se posteriormente objeto de interesse das investigações brasileiras sobre a tentativa de desacreditar o sistema eleitoral e criar condições políticas para impedir ou contestar a posse do presidente eleito.
Redes digitais e suspeita de estrutura de desinformação
A atuação de Cerimedo também é associada a estratégias digitais de comunicação política e à utilização intensiva de redes sociais em campanhas da direita latino-americana.
Após sua prisão na Bolívia, foram relatadas quedas na atividade de plataformas e contas automatizadas que teriam ligação com seu entorno político e digital.
As autoridades também investigam a existência de uma estrutura de contas automatizadas, descrita como uma “fazenda de bots”, que teria sido utilizada para amplificar conteúdos e interferir artificialmente no debate público nas redes sociais.
Cerimedo construiu relações políticas não apenas com o bolsonarismo no Brasil, mas também com setores ligados ao presidente argentino Javier Milei e outros movimentos da direita latino-americana.
Petro fez acusações contra Cerimedo
O ex-presidente colombiano Gustavo Petro também fez acusações públicas contra Cerimedo, relacionando o consultor argentino a operações de narcotráfico e manipulação eleitoral na América Latina.
Petro afirmou que Cerimedo teria recebido comissões relacionadas à passagem de cocaína pela Bolívia e o vinculou a uma suposta operação de interferência estrangeira no processo eleitoral colombiano.
O ex-presidente colombiano também denunciou a existência de uma tentativa de fraude eleitoral em grande escala destinada a favorecer uma candidatura de ultradireita e atribuiu a Cerimedo participação nesse processo.
As declarações de Petro constituem acusações políticas e precisam ser diferenciadas de fatos comprovados judicialmente.
Segunda prisão amplia problemas judiciais
A nova decisão da Justiça boliviana amplia a situação judicial de Cerimedo.
Ele já estava sob prisão preventiva em razão do processo envolvendo sua ex-companheira e agora terá de responder também à investigação por suposto enriquecimento ilícito.
Paralelamente, as autoridades procuram esclarecer movimentações financeiras, operações com criptomoedas e eventuais conexões com outras atividades ilícitas.
A trajetória de Cerimedo, que ganhou projeção internacional como estrategista digital e operador político da direita latino-americana, passa agora a ser examinada também pelas autoridades bolivianas sob a perspectiva financeira e criminal.
As diferentes acusações ainda deverão ser submetidas ao devido processo legal. A segunda prisão preventiva não equivale a uma condenação, mas mantém Cerimedo encarcerado enquanto avançam as investigações sobre a origem de seu patrimônio e suas possíveis conexões com esquemas ilícitos.